Uma fuga indesejada

As horas pareciam não passar. A viagem infinita começou a me incomodar. Revirei os olhos ao lembrar da indelicadeza de Zaryn. Ele não entenderia o quão importante era, para mim, achar Niam, ainda mais após perder a minha mãe, a única pessoa que tinha no mundo.

Olhei para o lado e ele estava dormindo, acho. Parecia imperturbável. Apesar de parecer cansado, não havia como negar a beleza de um descendente do povo da floresta. Assim como Niam, a aparência de Zaryn não negava as origens. No entanto, lembro que Niam afirmava não ser um lobo, o que me faz ter mais esperanças de vê-lo vivo e bem.

De repente, Zaryn abriu os olhos. Virei bruscamente tentando disfarçar que o observava. Ele se revirou no banco, e enquanto olhava a paisagem através da janela, comentou com indiferença:

Não adianta fingir. Tá morrendo de medo da travessia.

Claro que estava. Uma estrada escura, onde o sol se recusa a iluminar. As árvores que choram, tão infelizes que se apagam, incapazes até de dar frutos.

Desde criança, ouvia histórias sobre aquele lugar. Dizem que os lobos mais ferozes escolhem viver lá, pois podem correr livres e se alimentar dos humanos que ousam atravessar. As lendas contam que, por nunca verem a luz do dia, as trevas abraçaram seus corações.

— Estou bem — menti. — Só preciso da sua ajuda.

Mesmo tendo escolhido o lobo mais caro e mais forte que achei para me acompanhar, ainda estava assustada. Nunca havia saído do meu vilarejo sozinha antes, mas Zaryn não precisava saber disso.

— É claro que não está, quanto mais perto chegamos, mais você aperta esse volante.

Não tinha como eu negar isso. Ele expirou o ar com tédio no olhar.

— Pare na próxima hospedagem, preciso comer antes de ir — disse ele com naturalidade enquanto colocava os pés sobre o painel do carro.

— Mas você comeu antes de sairmos e eu trouxe mantimentos.

— Estou desnutrido, Celine. Fraco. Não como bem há meses. É assim que eles nos mantém dóceis na loja — respondeu impaciente.

Lembrei dele passando as garras no meu rosto assim que me aproximei.  

— Não parecia nada dócil para mim — comentei. 

Ele deu um sorrisinho de canto, como se lembrasse da mesma coisa que eu.

Enquanto ele pedia um prato farto de carne, reparei que ele estava mesmo um pouco pálido, com olheiras e aparentava indisposição, porém, continuava bonito, isso não dava para negar. Os lábios bem desenhados, os cabelos caídos sobre os ombros e rosto chamavam atenção. Além disso, ainda tinha aqueles olhos, nunca havia visto um olhar tão profundo. Além disso, usava um brinco com uma pena, tinha vontade de perguntar se simbolizava algo, mas o olhar questionador reparando que eu o observava me fez desistir.

Assim como ele, também pedi um prato de bife com batatas, mas enquanto ele já ia no segundo, não consegui terminar o primeiro.

— Vai comer isso aí? — perguntou interessado.

Empurrei o prato na direção dele e fiz que não com a cabeça. Sempre fui de comer bem, mas ali... meu estômago estava em greve. A ansiedade não deixava espaço pra mais nada.

Ele comeu tudo mais rápido do que pensei ser possível.

— Celine… — Detestava o fato de adorar ouvi-lo falar meu nome. — Você tem inimigos? — Após uma garfada enquanto olhava ao redor, ele continuou: — Seja sincera, se vou te proteger, preciso saber.

— N-Não, eu… — Antes de negar completamente, lembrei de Josafar. — Tem um cara meio obcecado atrás de mim.

— Hum… Está cheio de capangas aqui. Estão nos observando desde que chegamos. Faça o seguinte…

Não deu tempo dele terminar a frase. Um homem atirou uma adaga na direção de Zaryn.

Fiquei aliviada quando percebi que ele desviou, mas antes que pudesse ter qualquer reação, outra adaga atingiu a parede. Zaryn se levantou em um salto, pondo-se a minha frente; pegou a faca que estava em cima da mesa, e arremessou em direção ao capanga atirador, acertando precisamente a garganta do homem. Evitei olhar mais do que deveria.

— Levanta! — exclamou sem gentileza. Foi só então que percebi que ainda não havia me mexido.

Saímos as pressas do bar, na certeza que a perseguição havia apenas começado. Ao entrar no carro, acelerei como se não houvesse amanhã. Após alguns instantes, ele perguntou:

— Você tem uma arma ou espada por aí?

Neguei. Ele levou as mãos ao rosto com impaciência.

— Imaginei que não ia precisar dessas coisas, afinal, você é um lobo, é só se transformar…

— Não posso me transformar agora. Ainda não 100%.

Entrei em pânico, como ele ia dar conta de vários homens sem poder se transformar?

— Tem um machado no piso de trás, uso para pegar lenha — lembrei.

No mesmo instante ele se jogou para a parte traseira do carro e pegou o instrumento.

— Desacelere! — ordenou.

— Tem certeza? São dois carros, devem estar cheios…

Ele me olhou com fúria, como se não quisesse repetir a ordem.

Fiz o que ele pediu e, com o carro quase parado, ele saltou. Os capangas saíram e consegui contar: eram seis. Zaryn desviou dos poucos tiros proferidos contra ele. Acho que só tinham uma arma, tendo em vista que é algo caro e difícil de se conseguir em Marvrânia. Em seguida, atacaram Zaryn. Todos portavam espadas imensas. Ao ver Zaryn decapitar o primeiro homem, tive a certeza que não queria ver o resto da batalha. Não queria nenhuma morte por minha causa. Virei o rosto e respirei fundo. As imagens do que estava acontecendo atrás de mim martelavam minha mente. Questionei-me se estava fazendo a coisa certa várias vezes. Se valia a pena derramar tanto sangue em troca da minha liberdade. Será que eu não deveria ter aceitado meu destino miserável e casado com Josafar? Será que deveria mesmo achar meu amigo de infância, Niam, e cumprir a promessa que fiz para minha mãe? 

Após alguns minutos, Zaryn abriu a porta do carro, fazendo-me gelar de susto.

Havia sangue em suas botas, mãos e rosto. Ele limpou a testa com o antebraço, manchando ainda mais o rosto.

— Pelo menos a camisa está limpa — disse, como se aquilo fosse motivo de comemoração.

Engoli em seco. Como ele poderia agir daquela maneira após matar seis homens? 

Enquanto isso, minhas mãos suavam a ponto de não conseguir nem girar a chave do carro direito. Meus dedos não me obedeciam e tremiam sem parar.

— Pode esperar um pouco, não tem ninguém nos perseguindo mais.

— Claro, você matou todos — falei, meio ríspida, mas logo me arrependi.

— Achei que era esse o meu papel — respondeu abrindo o porta-luvas e pegando uma de minhas toalhas brancas.

Pensei na minha toalha toda suja de sangue e revirei os olhos.

— Não tinha outro jeito? Destruir o carro deles, mas deixá-los vivos e desacordados… Não sei… Alguma outra forma?

Ele ficou em silêncio alguns segundos, enquanto limpava o rosto e as mãos.

— Não se deixa quem quer te matar vivo.

Pensei em argumentar, mas não podia. A vida dele havia, provavelmente, sido uma sequência de desgraças. Mesmo aparentando ter, no máximo, 25 anos, ele parecia já ter vivido coisas que jamais passei. Não seria um discurso meu que mudaria a mentalidade de um lobo. 

Após alguns segundos ele continuou:

— Além disso, não havia nenhum escravizado. Ninguém ali estava sendo obrigado a sequestrar uma mulher que não quer casar.

Após uma hora dirigindo, finalmente chegamos na travessia.

— Que merda é essa? — foram as primeiras palavras de Zaryn ao acordar do seu cochilo.

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