Uma amostra da morte

Antes de entrar no quarto, relembrei a reação esquisita da recepcionista, que arregalou os olhos quando sugeri que ele dormisse no chão do quarto, como se não entendesse como eu era capaz de levar um escravizado maltrapilho para tão perto de mim. Mesmo sendo um homem jovem e bonito, só viam um lobo prisioneiro ao meu lado. Ele passou a mão na mecha de cabelo preto que caia nos olhos, respirou fundo, como se segurasse a vontade de avançar na mulher, e foi embora na frente.

Apesar desse desconforto, consegui arranjar com ela algumas roupas masculinas. Não consegui deixar de olhar para ele, enquanto observava a janela; os braços cruzados e olhar indiferente foram as primeiras coisas que reparei.

— Tome um banho e vista isso.

A moça me vendeu calças e túnicas curtas pretas e um colete com acabamento rústico, nada de muita qualidade, porém, não iria chamar atenção negativamente. Além disso, também me deu um coldre. Entreguei tudo a ele, que apenas me encarou com o desprezo usual, mas antes que ele fosse embora, lembrei de finalmente perguntar:

— Qual seu nome?

— Zaryn. O seu é Celine, vi no seu chaveiro — disse ele, com cada palavra recheada de tédio.

Rapidamente ele bateu a porta. Deixando-me sozinha com o silêncio que insistia em relembrar meu pavor.

Enquanto revirava na cama, pensava na minha indelicadeza. Deveria ter dito para ele dormir nela e não eu, porém, não conseguia de forma alguma oferecer a troca. Como alguém pode sentir vergonha de ser gentil? Ainda mais quando ele precisava disso mais do que eu.

— Você pode parar de rolar na cama? O barulho incomoda.

Congelei quando o ouvi.

— Você quer dormir aqui? É mais confortável.

— Você quer que eu durma com você? — as palavras saíram com a maior naturalidade, como se ele não tivesse acabado de perguntar um absurdo.

— N-Não. Quero trocar de lugar com você.

— Não precisa me tratar como um coitado, e pare de fazer barulho.

Fiquei imóvel e não falei mais nada. Não sabia o que dizer, na verdade. Como iria lidar com aquele homem? Eu nem sabia lidar com homens, seja ele qual fosse.

Tinha certeza que não dormiria nada aquela noite. O medo de estar com um desconhecido que poderia tentar me matar a qualquer momento era imenso. Ele desconfiava que o cadeado estava comigo. Àquela altura, eu já não confiava na minha agilidade para usá-lo contra ele. Minha única esperança era a dúvida corroer sua mente. Ele não fazia ideia se eu havia escondido aquilo em algum lugar inacessível... ou até se tinha entregue ao funcionário.

Esses pensamentos rondaram minha mente por horas.

Deveria ter deixado ele dormir no carro, mas não me perdoaria e não dormiria do mesmo jeito…

— Que saco! — sussurrei, abafando cada palavra com o travesseiro.

Por fim, após longas horas, contrariando todo meu bom senso, acabei dormindo.

No entanto, na melhor parte de um sonho, senti um peso sobre meu corpo. Cheguei até a pensar que era paralisia do sono. Ao abrir os olhos, dei de cara com aquele rosto rígido, com o maxilar travado e os olhos dourados que me encaravam com seriedade. Quando pensei em gritar, ele tampou minha boca. Ao tentar sair daquela situação, ele pressionou os quadris com mais força, me prendendo sob o peso do próprio corpo.

As pernas dele travavam as minhas, eu não conseguia me mover.

— Não vou te fazer mal — após uma pausa ele ponderou as palavras — se você colaborar, é claro. Me diga onde está o cadeado e te solto. Mas se eu tirar a mão e você gritar, quebro seu pescoço. Combinado?

Fiz que sim com a cabeça, mas antes que ele fizesse qualquer movimento, usei minha única mão livre para apertar o dedo, que estava bem acima do meu estômago. 

Ele conteve um grito e levou as mãos ao peito. Antes que ele se recuperasse, apertei mais uma vez e o empurrei da cama. Até que a ideia de guardar o cadeado ali não tinha sido ruim, afinal.

Ele ficou no chão em posição fetal. Pensei em fazer novamente, mas tive medo de matá-lo, não sabia o quanto deveria apertar aquela coisa, muito menos quantas vezes seguidas era possível. Tentei ser… moderada.

— Você está bem? Por favor, me diga que está! — falei, mais alto do que deveria.

Ele estava ofegante. Ainda vivo, pelo menos. Soltei a respiração que estava presa em meus pulmões. Agora ele sabia exatamente onde estava o treco. Como eu dormiria perto daquele homem?

— Me ajude na travessia. É só o que eu quero. Preciso ir para o reino vizinho participar da competição de confeitaria real e encontrar uma pessoa. Mas só preciso da sua ajuda para primeira parte. Não sei porque te contei tudo, não precisa saber o que vou fazer… — me embaralhei com as palavras, estava nervosa demais para organizar os pensamentos. — Enfim, eu só quero sua proteção por alguns dias. É impossível alguém passar por aquela estrada sozinho, você sabe.

Esperei ele se recompor para me responder. Por um instinto de proteção, não conseguia tirar a mão de cima do estômago. O silêncio era perturbador, até que ele se levantou com a expressão indecifrável.

— Você promete?

— P-Prometo — gaguejei sem querer, então tentei justificar: — Olhe para mim, sou só uma confeiteira. Não tenho necessidade de um servo, mas por favor, não tente me machucar.

Ele respirou fundo, parecia incrédulo, mas mesmo assim falou:

— Está bem. Vou pagar para ver dessa vez.

Ele se deitou no chão com a mesma frieza de antes, como se não tivesse acabado de tentar me enforcar. Encarei o vazio do quarto por alguns segundos, tentando assimilar o que havia acabado de acontecer. Há poucos segundos quase fui assassinada, e agora um estranho estava deitado no chão ao meu lado.

“Ok, é só uma fase estranha”, repeti para mim mesma mentalmente.

Apesar da tremedeira que me assolava, por alguma razão senti que a promessa dele era verdadeira, e o medo que tinha de morrer naquela noite, estranhamente diminuiu. Mas isso não significa que consegui dormir

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