Mundo ficciónIniciar sesiónDandara
Acordei com a luz do sol invadindo o quarto. Por um segundo, tudo parecia normal. Mas bastou me mexer para lembrar. A dor. O corpo pesado. Sensível. Marcado. Levantei devagar e fui até o banheiro. Quando olhei para o espelho, meu coração apertou. Meu rosto ainda estava inchado. Vermelho. Cansado. Era impossível esconder. Suspirei. Não iria trabalhar de novo. Meus irmãos iam perceber. Iam perguntar. Insistir. E eu… ia mentir. Como sempre. Entrei no banho tentando ignorar meu próprio reflexo. A água descia pelo meu corpo, mas não levava embora o peso que eu sentia. Quando terminei, desci para a cozinha. Ainda sonolenta… ainda frágil. Mas, ao me aproximar, algo me fez parar. O cheiro. Café fresco. Pão quente. Franzi a testa. Quando entrei na cozinha, congelei. A mesa estava posta. Cheia. Tudo que eu gostava. E, no centro… um buquê de flores. Meu olhar foi direto para Heitor. Desconfiado. Tentando entender. — Dan… — a voz dele veio baixa, quase cuidadosa demais. — Eu comprei tudo que você gosta… e essas flores são pra você. Ele estava… chorando. — Me perdoa, meu amor. Eu perdi a cabeça ontem quando você falou em separação. Eu te amo… não quero te perder nunca. Fiquei em silêncio por alguns segundos. Aquilo… sempre acontecia. O ciclo. A dor… e depois o arrependimento. Respirei fundo. — Heitor… você precisa mudar — minha voz saiu firme, mesmo com tudo tremendo por dentro. — Eu não aguento mais essas mudanças de humor. Engoli seco antes de continuar. — Eu também te amo… mas não vou aceitar você me bater. Ontem foi a última vez. Você entendeu? Ele assentiu rapidamente, se aproximando. — Eu vou mudar. Eu juro. Vou procurar ajuda, um terapeuta… qualquer coisa. Eu não quero te perder. E, naquele momento… Eu quis acreditar. Quis me agarrar naquela versão dele. Naquele homem que um dia me fez apaixonar. Talvez… ainda existisse algo ali. Talvez desse pra salvar. Resolvi dar mais uma chance. Porque eu ainda o amava. E, no fundo, queria acreditar que o amor fosse suficiente. (mal sabia eu que a dor que ainda viria seria muito maior…) Ele avisou na empresa que não iria trabalhar. Disse que o dia seria só nosso. E, por um instante… tudo parecia perfeito. Leve. Como antes. Ele fez tudo que eu gostava. Me tratou com carinho, atenção… como se nada tivesse acontecido. Assistimos aos filmes de After, que eu amo. Rimos. Conversamos. Era como se o Heitor por quem eu me apaixonei tivesse voltado. À noite, fizemos jantar juntos. Abrimos um vinho. E, por algumas horas… Eu esqueci. Ou tentei esquecer. — Amor… — ele disse de repente, me olhando de um jeito diferente. — O que você acha da gente ter um filho? Meu coração falhou uma batida. — Filho? — repeti, surpresa. — Mas… você nunca quis. Ele segurou minha mão. — Eu mudei de ideia. Eu quero tudo com você. Quero aumentar a nossa família. Senti meus olhos encherem de lágrimas. Aquele sempre foi o meu sonho. — Eu também quero… — sussurrei, emocionada. — Quero muito. Sorri, pela primeira vez sem medo. — Vou parar o anticoncepcional. — Vamos ter nosso bebê. Naquela noite, fomos para o quarto. Nos entregamos um ao outro… não só no toque, mas nas promessas. Nos sonhos. Na esperança. E, por um tempo… Tudo ficou tranquilo. Os dias passaram leves. Heitor mudou. Ou parecia ter mudado. Não havia mais gritos. Não havia mais ciúmes exagerados. Não havia mais agressões. Ele me buscava no trabalho. Saíamos para jantar. Íamos ao cinema. Vivíamos… como um casal feliz. Como uma lua de mel que nunca tivemos. E eu… Eu comecei a acreditar que, finalmente… Tudo ia dar certo.






