Mundo ficciónIniciar sesiónAcordei depois de mais uma noite mal dormida.
O corpo cansado. A mente pior ainda. A discussão da noite anterior ainda ecoava na minha cabeça como um barulho que eu não conseguia silenciar. As palavras dele… sempre as mesmas. Sempre machucando mais. Eu não aguentava mais. Os ciúmes doentios. As humilhações. As agressões que não deixavam marcas visíveis… mas destruíam tudo por dentro. Naquele momento, ainda deitada, olhando para o teto, eu soube. Eu precisava sair daquele casamento. Levantei com o coração pesado, mas com uma decisão firme pela primeira vez em muito tempo. Fiz minha higiene matinal quase no automático. Entrei no banho e deixei a água cair sobre mim por alguns minutos a mais do que o normal, como se pudesse lavar toda a dor que eu carregava. Mas não lavava. Nunca lavava. Escolhi um vestido preto na altura do joelho. Simples. Discreto. Seguro. Passei meu batom vermelho — o único detalhe que ainda me fazia lembrar de quem eu já fui um dia. Respirei fundo antes de sair do quarto. Fui até a cozinha torcendo, em silêncio, para que Heitor já tivesse saído. Eu só queria alguns minutos de paz. E, por um instante… eu tive. A casa estava silenciosa. Abri a geladeira, peguei o leite, o chocolate, fiz um sanduíche. Movimentos mecânicos. Como se eu estivesse apenas existindo, não vivendo. Sentei à mesa. Comi devagar. Sozinha. Em paz… por poucos minutos. — Claro que não ia durar. A porta da cozinha se abriu. Meu corpo travou antes mesmo de eu olhar. Heitor entrou. Não disse nada. Nem um bom dia. Nem um olhar que não fosse carregado de algo pesado… algo que sempre me fazia sentir pequena. Terminei de comer em silêncio. Lavei o copo, coloquei o prato na pia. Minhas mãos estavam levemente trêmulas. Eu podia sair. Fingir. Adiar. Como sempre fiz. Mas não naquele dia. Virei lentamente para ele. O coração batendo tão forte que parecia denunciar tudo. — Heitor… — minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria. Engoli seco e continuei. — Eu quero o divórcio. O silêncio que veio depois foi pior que qualquer grito. — Minha advogada vai dar entrada nos papéis essa semana… e eu quero que você saia da minha casa hoje. Ele levantou o olhar devagar. E foi ali que eu vi. Ódio. Puro. Cru. Sem disfarce. Mas, pela primeira vez… eu não recuei. — Nem fudendo — ele disse, a voz baixa, carregada de ameaça. — A gente não vai se separar. Eu não aceito isso. Meu estômago revirou. — Você é minha mulher. E então aconteceu. Rápido demais. Ele avançou. Minhas costas bateram contra a parede com força, o ar sumiu dos meus pulmões. Antes que eu pudesse reagir, o primeiro tapa veio. Depois outro. E outro. Minha cabeça girava. O gosto de sangue invadiu minha boca. Quando ele se cansou de me bater levantou e saiu de casa me deixando sozinha, levantei sentindo o meu corpo pesado e sem forças, fui para o quarto tomar um banho.






