O Inexplicável

Marjorie

— Vamos almoçar. Vou deixar você pensar. Mais tarde conversamos — ela disse, e eu apenas assenti, porque naquele momento qualquer palavra seria um risco de desabar.

Depois do almoço, Apolo me ajudou a limpar a cozinha — o que já era um alívio, porque qualquer ajuda me dava a sensação de que eu não estava completamente sozinha naquele inferno. Quando ele pediu pra me levar pra tomar um sorvete, minha mãe só deixou depois que ele prometeu trazer pra todo mundo. Típico dela: até a minha sobremesa precisava servir de proveito pra casa.

Na sorveteria, o barulho das crianças, o cheiro doce no ar e o tilintar das colheres batendo nos copos me pareceram distantes. Eu estava ali, mas a cabeça em outro lugar. Apolo percebeu, é claro. Ele sempre percebe.

— E o que você pretende fazer? — perguntou, depois que eu contei tudo.

— Ainda não sei — respondi, mexendo o sorvete até ele virar uma sopa. — Tô tendo uma ideia… mas preciso conversar com ela primeiro. Amanhã você vem cedo pra gente conversar?

— Claro, sempre! — ele sorriu, mas logo ficou sério. — Mas por que será que sua mãe quer te casar?

Olhei pra ele, sentindo a garganta travar.

— Amanhã eu te conto. Tenho uma teoria... e foi o que me deu a ideia.

— Então me conta...

Respirei fundo.

— Acho que ela vendeu minha virgindade.

Ele arregalou os olhos.

— Ela não faria isso. E se fosse alguém com dinheiro pra comprar isso, ela empurraria pra Brenda, não pra você.

Dei uma risada seca.

— A menos que seja um cara nojento e escroto. O que não duvido, pra comprar uma virgindade.

— São só teorias, Marjorie. E qual é a sua ideia?

— Se ela vendeu minha virgindade... vai entregar com defeito.

— Não entendi.

— O corpo é meu, Apolo . E eu tenho um sonho. Se pra consegui-lo eu tiver que fazer sexo, então vai ser por escolha minha, não dela. Depois... lavou, tá novo. Se eu perder a matrícula, não vou nem querer mais viver — olhei pra ele, determinada. — Se tenho que fazer esse sacrifício pra estudar, então eu mesma vendo antes.

Ele ficou me olhando, sem saber o que dizer.

— Está mesmo disposta a fazer isso?

— Não vou ser refém da minha mãe pra sempre. — Foi tudo o que respondi.

— Certo... — ele suspirou. — Converse com ela e amanhã a gente fala.

Quando voltei pra casa, já sabia que a conversa viria. E veio. Pouco depois, ela me chamou pro quarto. O pai tinha saído. Só nós duas.

— Qual é o plano, mãe? — perguntei, sem rodeios.

Ela me olhou como se eu fosse um negócio mal resolvido.

— O irmão do meu patrão chegou ao Brasil há alguns meses. A mulher dele está com câncer e quer morrer aqui. Pra ele, é interessante esperar você se formar pra se casar. Ele ainda não é viúvo.

— Quanto ele te deu pra você me vender pra ele? — perguntei, gelada.

Ela bufou.

— Não estou te vendendo. Digamos que ele está deixando os negócios dele em família.

— Não entendi.

— Ele tem uma mulher para aliviar as necessidades enquanto a esposa está doente. E eu vou assumir a fábrica dele, meio a meio. Quando ele ficar viúvo, depois do luto de seis meses, você vai morar com ele. Seja inteligente, Marjorie. Estou fazendo um plano que vai te garantir futuro. Você vai poder escolher se quer casar com ele ou não. Eu casaria. Depois que ele bater as botas, a outra metade da fábrica será sua.

Cruzei os braços.

— Por que ele está sendo tão generoso assim? Pagaria mais barato se contratasse uma prostituta.

Ela deu de ombros.

— Vai saber. Rico é excêntrico.

Olhei bem pra ela.

— Você já está dormindo com ele, não é?

— Marjorie, me respeite!

— Você nem consegue disfarçar, mãe. Há quanto tempo?

— Isso não é assunto seu.

— Está me vendendo, e eu não posso saber tudo?

Ela suspirou, cansada de fingir.

— Está bem. Ele quer uma novinha. E alguém que ele possa apresentar depois como esposa. Mas fique tranquila, vou te ensinar como ele gosta, o que você tem que fazer...

Meu estômago embrulhou.

— Por que não a Brenda, que já é adulta? Por que eu?

— Porque ele é meio bruto na cama — respondeu, seca. — Brenda é delicada, não aguentaria.

Olhei pra ela com nojo:

— Então você quer que eu, sua filha, me sujeite a um homem que vai me agredir, depois me case com ele e ainda aceite você como amante?

Ela revirou os olhos.

— Do jeito que você fala, parece sórdido.

— E não é?

— Não vou discutir meus planos com você, Marjorie. Você quem decide se quer ou não fazer faculdade.

— Já decidi. Mas antes, quero saber... por quê?

— Já te expliquei.

— Não o porquê do acordo — interrompi. — Isso eu já entendi: você tá me vendendo. Quero saber por que você não consegue me considerar sua filha. Ou gostar de mim, pelo menos.

Por um momento, o olhar dela amoleceu. Ficou em silêncio, depois baixou a voz.

— Quando eu era menina, tinha planos pro futuro. Tinha sonhos, como você. Aí conheci seu pai... e fui pra cama com ele pra fazer ciúmes no Henrique.

— Quem é Henrique? — perguntei, surpresa.

— O pai do Caio. — Ela suspirou. — Foi meu primeiro. Me encantei por ele. Trabalhava na oficina do pai dele. Depois descobri que era casado. Ficamos juntos três anos, ele dizia que a mulher dele era seca... Até me ofereci pra parar a pílula e dar um filho pra ele, mas ele não quis. Queria criar um filho com a esposa. Fiquei com ódio. Parei a pílula mesmo assim.

Ela falava e eu me sentia encolher. Era como se eu estivesse assistindo uma confissão arrancada à força.

— Numa confraternização — continuou — ele levou a mulher. E seu pai tava lá, fazia a segurança do prédio. Usei ele pra provocar ciúmes. Você já imagina o resto. A gente começou a namorar, apresentei pra família, queria que desse certo, porque seu pai era bronco, mas solteiro. Só que o Henrique começou a me perseguir. Me disse que deixaria a mulher se eu deixasse o Carlos.

Ela sorriu de canto, um sorriso amargo.

— Eu aceitei. E quando achei que ia dar certo, veio o enjoo. Meu pai me obrigou a casar com o Carlos, me deu essa casa e me tirou da família.

Ela fez uma pausa. Eu não respirava.

— O Henrique apareceu depois. Disse que me deixaria o apartamento, se eu desse meu filho pra ele. No começo achei absurdo, mas ele me convenceu... Só não contava que seriam gêmeos. E que seu pai se apaixonaria pela Brenda. Aquela bruxa da mulher dele quis só uma criança. Fiquei sem meu único filho e casada com seu pai. Ele vendeu o apartamento pra mobiliar a casa.

Ela respirou fundo e me olhou nos olhos.

— Olhar pra você é olhar pra ele. Vejo o seu pai todas as vezes que olho pra você. Lembro do que perdi. Odeio seu pai através de você. Você é igualzinha a ele: submissa, certinha, sempre tentando agradar. E quanto mais vocês tentam, mais eu odeio.

As palavras me cortaram por dentro, mas eu não deixei transparecer. Apenas endireitei a postura.

— Tá certo, mãe. Eu aceito o contrato. Mas antes, quero conhecer meu futuro marido e conversar com ele. Preciso ter certeza de que ele vai me permitir estudar depois de casada.

Ela me olhou como quem vê uma jogadora que entrou no tabuleiro.

— Você vai gostar dele. Vou providenciar esse encontro depois das festas de fim de ano, antes de eu voltar das férias coletivas.

— Combinado — respondi, com um sorriso que não chegou aos olhos.

Dentro de mim, eu já sabia: aquele seria o último jogo em que ela teria a vantagem.

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