Mundo de ficçãoIniciar sessãoMarjorie
Coloquei a chave no portão e respirei fundo, agradecendo por finalmente estar em casa. O peso do dia inteiro parecia empurrar meus ombros para baixo. O corpo estava mole, a cabeça doía. Tinha passado horas na rua, entre ônibus, metrô e a prova — e a última coisa que eu tinha comido era um pacote de bolacha. Era quase oito da noite. Eu só queria banho, comida e cama. Desde o vestibulinho da Etec, eu tinha descoberto um padrão: dores de cabeça sempre vinham depois de provas difíceis. Dor que latejava até no osso. Talvez ansiedade, talvez o medo de decepcionar, talvez o excesso de pensamentos — porque eu pensava demais, sempre. Só passava quando eu dormia. E naquela noite, eu precisava desse sono como quem precisa de ar. Mas meu alívio acabou assim que abri a porta da cozinha. A pia transbordava de louça engordurada. Pratos sobre a mesa. Panelas vazias no fogão. Suspirei. Pelo menos, concluí, tinham guardado a comida na geladeira. Mas ao me aproximar, vi um bilhete preso com um ímã de coração quebrado: "Saímos para comer pizza, não tinha a menor condição de fazer janta com essa bagunça na cozinha. Espero que você não tenha intenção de ir dormir deixando essa cozinha nesse estado que eu te arrebento. Bateu pernas o dia inteiro, agora faça suas obrigações." As lágrimas vieram na hora. Não lutei contra elas. Ninguém estava ali para ver. Fui ao quarto, peguei roupa, tomei banho, prendi o cabelo e voltei para a cozinha. Lavei tudo. Chorei enquanto esfregava panelas e pratos, enquanto a espuma escorria pelo ralo. A fome tinha sumido. Só havia o nó na garganta — tão familiar que parecia morar em mim. Depois de terminar, ainda passei desinfetante no banheiro. Escovei os dentes, me escondi no quarto e deitei antes que eles chegassem. Queria evitar confronto. E esconder que tinha chorado. Por sorte, consegui. A semana passou em paz — todos ocupados com provas e trabalho. Uma trégua rara. Toda menina da minha idade tinha uma melhor amiga. Eu não. Minha companhia mais fiel era Apolo — meu melhor amigo. Loiríssimo, olhos verdes, covinhas, atlético, educado. Um cara de bom coração. Se não fosse o crime, talvez eu me permitisse gostar dele de outro jeito. Mas eu já vivia o bastante com o inferno dentro de casa para ainda correr risco fora dela. Jurei para mim mesma: nunca seria mulher de bandido. Alguns dias depois, Apolo foi conferir a lista de aprovados para mim. Quando chegou, estava sério, silencioso. Meu coração gelou. Ele cumprimentou meu pai, beijou a testa da minha mãe e falou: — Tia, trouxe uma notícia não muito boa. Minha mãe franziu o cenho. Eu prendi a respiração. Até que Apolo sorriu. — A senhora vai ter que colocar essas duas folgadas pra cuidar da casa ano que vem, porque em fevereiro começa a formar uma odontóloga pela USP. A Marjorie passou em sexto lugar! Por um instante, o mundo parou antes de explodir dentro de mim. Eu pulei no colo dele, rindo, chorando. Joyce correu pela rua gritando que eu ia ser dentista. Brenda sorriu, meio sem graça. Meu pai parecia orgulhoso. Mas Nancy… Nancy mandou todos pararem com o “escândalo”. Eu a encarei. — A senhora não pode ficar feliz por mim? Quantas pessoas você conhece que foram aprovadas na USP? Ela cruzou os braços. — Parabéns. Você é inteligente. Mas não é esperta. Você passou, mas não vai cursar. Aquela frase me rasgou por dentro. — Por que não vou cursar, mãe? — Porque você prestou para odontologia. Vai ter que pegar duas conduções por dia. Quem vai pagar isso? Vai sair cedo, voltar tarde. Quem vai fazer suas obrigações aqui? E os livros? E os materiais? Odontologia é caro. Onde vai arrumar dinheiro? — Eu vou trabalhar. Vou me virar. — Não. Você precisa cuidar da casa pra eu trabalhar. Respirei fundo, segurando as lágrimas. — Eu faço tudo desde sempre. Mas agora é o meu futuro. Eu não vou largar a universidade pra lavar banheiro. — Saiam todos — ela ordenou. — Quero falar com a Marjorie. A sala ficou em silêncio. Ela parecia calma — e esse sempre foi o pior sinal. — Você ainda é menor de idade — disse. — Precisa de um responsável para a matrícula. Se esperar a maioridade, perde a vaga. — Eu tenho pai. Ela sorriu sem humor. — Acha mesmo que ele vai contra a minha vontade? Meu coração batia no pescoço. — O que você quer? Ela me olhou como quem examina uma presa. — Você vai noivar antes da matrícula. E casar quando terminar a faculdade. Eu respirei fundo. — Aceito. — Não sou idiota — ela rebateu. — Depois da maioridade, você desfaz o acordo. Por isso, você vai selar o noivado com a primeira noite antes do casamento. E vai servir seu noivo sempre que ele quiser. Senti meu estômago despencar. Foi nesse instante que eu entendi: Minha mãe nunca quis me ver livre.






