Estudar, não! Casar

POV de Marjorie

Coloquei a chave no portão e respirei fundo antes de girá-la. O ferro rangeu baixo, como se até ele estivesse cansado. Eu também estava.

O dia inteiro parecia pesar nos meus ombros. Ônibus, metrô, caminhada, prova. Horas tentando lembrar fórmulas, controlar a ansiedade, ignorar o barulho da sala e o medo de errar. A última coisa que eu tinha comido era um pacote de bolacha amassado na mochila. Já era quase oito da noite.

Eu só queria três coisas simples: banho, comida e cama.

Desde o vestibulinho da Etec eu tinha percebido um padrão: depois de provas difíceis, vinha a dor. Uma dor de cabeça que não era comum — latejava por dentro, como se alguém estivesse martelando meus pensamentos. Talvez fosse ansiedade acumulada. Talvez fosse medo de falhar. Talvez fosse só cansaço de pensar demais o tempo inteiro.

Eu precisava dormir. Dormir como quem apaga um incêndio.

Mas o alívio morreu assim que abri a porta da cozinha.

A pia estava transbordando de louça engordurada. Pratos espalhados pela mesa. Copos pela bancada. Panelas vazias no fogão, com restos secos grudados nas bordas.

Fiquei parada alguns segundos, encarando o cenário.

Respirei fundo.

Pelo menos guardaram a comida na geladeira, pensei.

Dei dois passos.

Foi então que vi o bilhete preso com um ímã de coração quebrado.

“Saímos para comer pizza, não tinha a menor condição de fazer janta com essa bagunça na cozinha.

Espero que você não tenha intenção de ir dormir deixando essa cozinha nesse estado que eu te arrebento.

Bateu pernas o dia inteiro, agora faça suas obrigações.”

As lágrimas vieram antes que eu conseguisse engolir o choro.

Dessa vez eu não lutei.

Não tinha ninguém ali para ver.

Fui até o quarto em silêncio, peguei uma roupa limpa, tomei banho demorado — não por prazer, mas para que a água escondesse o barulho da minha respiração falhando. Prendi o cabelo, enxuguei o rosto e voltei para a cozinha.

Lavei prato por prato.

Esfreguei panela por panela.

A espuma escorria pelo ralo enquanto minhas lágrimas escorriam pelo queixo. A fome sumiu. Só restava o nó na garganta — aquele velho conhecido que parecia morar dentro de mim.

Depois da louça, passei desinfetante no chão do banheiro. Organizei o que nem precisava ser organizado. Fiz tudo como sempre fiz: calada.

Quando terminei, escovei os dentes, me escondi no quarto e me deitei no escuro.

Queria evitar confronto. E esconder que tinha chorado.

Por sorte, consegui.

A semana seguinte passou como uma trégua frágil. Todo mundo ocupado com provas, trabalho, rotina. Silêncio. Um silêncio que não era paz, mas pelo menos não era guerra.

Eu não tinha melhor amiga como as meninas da minha idade. Não tinha segredos compartilhados em cadernos coloridos nem risadas no telefone à noite.

Minha companhia mais constante era Apolo.

Meu melhor amigo.

Loiríssimo, olhos verdes que pareciam sempre atentos, covinhas quando sorria. Atlético, educado, aquele tipo de menino que a vizinhança inteira elogia. Bom demais para o lugar onde cresceu.

Se não fosse o crime rondando a vida dele, talvez eu me permitisse sentir algo além da amizade. Mas eu já tinha inferno suficiente dentro de casa. Não ia correr risco fora dela.

Eu fiz um juramento silencioso a mim mesma: nunca seria mulher de bandido.

Alguns dias depois da prova, pedi para Apolo conferir a lista de aprovados. Eu não tive coragem.

Quando ele entrou em casa naquela tarde, estava sério demais.

Meu coração despencou.

Ele cumprimentou meu pai com respeito. Beijou a testa da minha mãe.

— Tia, trouxe uma notícia não muito boa.

Minha mãe franziu o cenho. Eu parei de respirar.

Então ele sorriu.

— A senhora vai ter que colocar essas duas folgadas pra cuidar da casa ano que vem… porque em fevereiro começa a se formar uma odontóloga pela USP. A Marjorie passou em sexto lugar.

Por um segundo, o mundo ficou em silêncio.

Depois explodiu dentro de mim.

Eu pulei no colo dele, rindo e chorando ao mesmo tempo. Joyce saiu correndo pela rua gritando que eu ia ser dentista. Brenda sorriu, meio deslocada. Meu pai tinha aquele ar contido de orgulho.

Mas Nancy…

Nancy mandou todo mundo parar com o “escândalo”.

Eu me virei para ela.

— A senhora não pode ficar feliz por mim? Quantas pessoas você conhece que passaram na USP?

Ela cruzou os braços.

— Parabéns. Você é inteligente. Mas não é esperta. Você passou… mas não vai cursar.

A frase me atravessou como faca.

— Por que não vou cursar, mãe?

— Porque você prestou odontologia. Vai pegar duas conduções por dia. Quem paga isso? Vai sair cedo, voltar tarde. Quem faz suas obrigações aqui? E os livros? E os materiais? Odontologia é caro. Onde vai arrumar dinheiro?

— Eu trabalho. Eu me viro.

— Não. Você fica. Eu preciso que você cuide da casa para eu trabalhar.

Senti as lágrimas queimarem, mas segurei.

— Eu faço tudo desde sempre. Mas agora é o meu futuro. Eu não vou largar a universidade para lavar banheiro.

— Saiam todos — ela ordenou.

A sala esvaziou devagar.

Quando ficamos sozinhas, ela parecia calma demais. E calma demais sempre foi o pior sinal.

— Você ainda é menor de idade — disse. — Precisa de responsável para matrícula. Se esperar fazer dezoito, perde a vaga.

— Eu tenho pai.

Ela sorriu, mas não havia humor ali.

— Acha mesmo que ele vai contra a minha vontade?

Meu coração batia no pescoço.

— O que a senhora quer?

Ela me olhou como quem mede uma peça de tecido antes de cortar.

— Você vai noivar antes da matrícula. E casar quando terminar a faculdade.

O chão pareceu inclinar sob meus pés.

Respirei fundo.

— Aceito.

Ela estreitou os olhos.

— Não sou idiota. Depois da maioridade você desfaz o acordo. Então vai selar o noivado antes do casamento. Vai cumprir seu papel.

O ar sumiu dos meus pulmões.

Ali, parada diante dela, eu entendi uma coisa com uma clareza dolorosa:

Minha mãe nunca quis me ver livre.

Ela queria me negociar.

E eu acabara de me oferecer como moeda.

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