Vendida

Marjorie

Passei a noite inteira pensando, sem conseguir dormir. Quando o sol nasceu, eu já tinha um plano perfeito na cabeça. Só não contava com a reação do Apolo.

— Não acho justo a sua mãe te odiar só porque você lembra o seu pai. E, pra ser sincero, eu acho que o Caio e a Brenda são filhos do Henrique.

— Se fossem, ele teria largado a mulher e casado com minha mãe.

— Isso é o que ela quer acreditar. Repetiu tanto essa história pra si mesma que acabou virando verdade. Mas você nunca achou estranho eles serem os únicos sem nenhuma pigmentação?

— Não acho nada. E não quero me meter na vida dos dois. Você acha mesmo que meu pai nunca desconfiou dos casos dela?

— Já falamos sobre isso, e eu concordo com você.

— Ele sabe de tudo. Finge ser machista e ciumento só pra não precisar tomar uma atitude.

— E pra não correr o risco dela ir embora de vez.

— Eles se merecem, Apolo. Ele não é ruim comigo, mas deixa ela ser. E eu... não mereço isso.

— Então o que você vai fazer a respeito?

— Primeiro, você vai atrás do Anderson e vai falar com ele sobre aquela história de leiloar minha virgindade.

— O quê?! Tá louca? Eu soquei a cara dele por ter dito isso pra você! Como quer que eu vá atrás disso agora?

— Você não sabe como funciona?

— Não. Meu negócio não tem nada a ver com esse tipo de crime. Leiloar virgindade, tráfico humano, pedofilia... isso me enoja.

— Mas eu preciso, Apolo. E você tem que me ajudar.

— Por que não aceita vir morar comigo? Pior do que ser vendida pra um velho não pode ser.

— Porque você tem sentimentos por mim que eu não posso retribuir. Isso só iria nos destruir. E eu não quero ser egoísta a esse ponto.

— Então aceita, pelo menos, minha ajuda financeira. Eu sei que você acha meu dinheiro sujo, mas o de um pedófilo seria melhor?

— Agora não vai me adiantar. O problema é o tempo. O prazo da matrícula termina trinta e dois dias antes de eu fazer dezoito.

— E por que não espera o próximo semestre?

— Porque eu não quero. Cansei de ser a boazinha, Apolo. Quero dar o troco na minha mãe por todas as frustrações dela que descontou em mim. Vou dar a volta por cima, me formar, e esquecer tudo isso.

Contei pra ele cada detalhe do plano dos próximos vinte dias, e Apolo acabou admitindo que era um plano perfeito — mas pra alguém como a Brenda, não pra mim.

— Marjorie, você não é esse tipo de pessoa. Tá perdendo sua essência.

— Não ligo. Gentileza só gera gente folgada. É ótimo perder a essência. Não quero mais ser a mocinha, a que tudo suporta. Não sou um poema de Camões. Tenho um lugar no mundo, e se o preço for o meu selo, que seja. Talvez eu até goste.

— Tá, mas em nome da nossa amizade... não faz isso. Não leiloa sua virgindade.

— E como eu resolvo isso deixando minha mãe ganhar?

— Quanto você pretende pedir?

— Não sei. Quanto você acha que vale?

— Não tem preço, Marjorie.

— Preço tem. O que não tem é valor.

— Já vi casos de vinte, trinta mil... mas fora do país chega a cem, duzentos mil.

— Duzentos mil reais? Com esse dinheiro eu compro um lugar pra morar e me sustento durante a faculdade.

— Então você vai mesmo fazer isso, sem pensar mais?

— Vou. Dá um jeito de arranjar um comprador estrangeiro. E quando for a hora, você me ensina o que fazer?

— Eu te ofereço quinhentos mil. Me deixa ser o primeiro. E te ensinar.

— Por que, Apolo? Fazer isso com você vai te desestruturar, criar expectativas...

— Que isso, novinha? Eu sou bandido, meu codinome é Bradock. Não vou me iludir.

— Até o Superman tinha uma fraqueza.

— Tá, você é a minha criptonita. Mas se não aceitar, eu entro no leilão e não paro até dar o último lance. Você tá vendendo, e eu vou comprar. E comigo o dinheiro fica limpo, sem atravessadores.

— Está bem, Apolo. E obrigada. Assim vai ser mais fácil.

— Ótimo. Agora eu vou dar um jeito da sua mãe permitir e marcar o dia. Mas posso sugerir como investir esse dinheiro? Se topar, começo a te pagar hoje.

— Claro que pode. Mas vai pagar antes do serviço prestado?

— Marjorie, eu te amo. E você não faz ideia do quanto. Aceito ser seu amigo porque é o que você me permite. Finjo ser malvado quando preciso, mas perto de você, eu me controlo. Há muito tempo quero te tirar de perto dela, cuidar de você. Agora que me deixou ajudar, eu não vou desperdiçar.

— Já tá criando expectativas...

— Não tô. Só tô fazendo do jeito que você quer.

— Tá bom. Quais são seus planos pro meu dinheiro?

— Primeiro, comprar uma casa perto da universidade. Sei que você vai se sujeitar a morar com o velho, mas é bom ter um porto seguro. Depois, comprar um carro. E o que sobrar, eu guardo até você fazer dezoito.

— Perfeito. Tudo isso só por dar o corpo? Aqui na quebrada tem muita que faz só pelo prazer.

— E pra tomar uns t***s depois, não esquece.

A gente riu. Ficamos conversando sobre um monte de coisas, até eu conseguir respirar mais leve. No fim, Apolo decidiu que o melhor seria não me ver até minha mãe marcar o encontro com o tal noivo. Eu estava uma pilha — e ainda assim, certa de que ia conseguir colocar meu plano em prática.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App