Mundo de ficçãoIniciar sessãoLobisomens que enlouqueceram pela rejeição ou pela perda, assassinos banidos, feras sem matilha. Se eu cruzasse aquela linha, eles me rastreariam e me fariam em pedaços antes mesmo de o sol nascer.
Um destino superior a ter que acordar amanhã, olhar para a mesa do café da manhã e ver Damon assumir o posto de Alpha com Chloe sentada no colo dele.
Minha visão estava tão escura e nublada que eu mal via os troncos passando por mim. Tropecei em uma raiz coberta de musgo. Meu corpo voou para frente e eu caí, batendo o peito com força na lama, meu queixo batendo em uma pedra escondida no barro.
O gosto metálico de sangue espalhou pela minha boca, misturando-se com a lama podre e a chuva gelada. Fiquei ali, deitada de bruços, tossindo, os dedos afundados na terra molhada. Eu queria vomitar meu próprio coração para fora. A dor no meu peito parecia estar cavando um buraco pelos meus ossos.
Estava perto. O cheiro da patrulha nas árvores da frente indicava o limite da fronteira. Eu só precisava levantar. Só mais cinco metros. Dez metros, no máximo, e eu estaria fora da alcateia e livre para morrer.
Apoiei as mãos no chão lamacento, tremendo para levantar os joelhos esfolados.
Mas então, a dor no meu peito foi substituída por uma pressão.
O ar sumiu. E não como uma metáfora romântica de coração partido. O oxigênio da floresta simplesmente sumiu. A pressão atmosférica mudou e pesou tanto que meus ossos da espinha estalaram. O peso invisível me forçou de volta contra o chão. Era como se a própria noite tivesse ganhado vida e estivesse me sufocando.
A chuva continuava a cair em minhas costas, mas eu não ouvia o impacto das gotas. O som das folhas parou. O vento parou. Os insetos e predadores calaram. Toda a natureza ao redor parecia estar com medo.
Meu corpo, ferido e esgotado, começou a tremer em pânico. O cheiro não era mais o da patrulha de fronteira. E muito menos o cheiro doce e enganoso de um companheiro.
Cheirava a sangue fresco. Era o cheiro da morte. Era poder, irradiando de algo que faria meu ex-Alpha se encolher no chão como um filhote assustado.
Tentei erguer o rosto raspando a bochecha na lama, o pescoço duro protestando.
Das sombras além da linha da fronteira, a própria escuridão pareceu ganhar forma física.
Passos lentos.
O som grave de botas esmagando galhos mortos com uma calma psicopata.
A figura que emergiu era gigante. Ombros assustadoramente largos. Uma capa escura pingando água, mas foi o rosto dele, iluminado pela chuva, que me chamou atenção.
Traços rígidos esculpidos pela crueldade da guerra. Mandíbula travada, o maxilar duro. E os olhos... Olhos prateados e brilhantes. Prata líquida, varrendo meu corpo quebrado, ferido e imundo estirado na lama da fronteira.
Kael.
O Alpha Supremo.
O rei não coroado do nosso mundo. O monstro impiedoso com o qual as lunas assustavam seus filhotes para fazê-los dormir.
O que o lobisomem mais temido do continente estava fazendo na fronteira da minha alcatéia inútil?
Seus olhos desceram pelo meu rosto, deslizaram até a altura do meu coração e pararam. Seus olhos se estreitaram. Ele viu. De alguma forma aquele demônio enxergou a ferida aberta da marca da rejeição recente pulsando sob a minha pele.
Entrei em pânico. Tentei arrastar meu corpo para trás, cavando os calcanhares no barro, mas minhas costas bateram na base de um tronco. Fim da linha.
Ele parou. A ponta da sua bota militar tocou levemente o tecido encharcado do meu vestido de segunda mão. A aura dele envolvia o meu corpo como correntes de aço, cortando todas as minhas rotas de fuga.
Kael inclinou o rosto para baixo, a expressão ilegível. E então, com uma voz rouca e baixa, um rosnado humano que tremeu até as raízes da floresta, ele sentenciou:
- Você não tem permissão para morrer hoje, pequena loba. - Ele falou. - Você é minha agora.







