O beijo da discórdia

Átila começa a se aproximar, seus passos são medidos, controlados, como os de um predador que sabe que a presa não tem para onde correr. Ele para a pouquíssimos centímetros de mim, e eu posso sentir o calor intenso que emana de seu corpo, o cheiro de sândalo e pele que me deixa tonta. É uma proximidade perigosa que me deixa em frangalhos, mas eu não recuo nem um milímetro. Não posso permitir que ele veja qualquer sinal de fraqueza.

— Eu quero que sejamos uma família de verdade — ele diz, sua voz grave vibrando no ar entre nós. — E não estou falando apenas de sexo, Sasha, embora isso faça parte. Estou falando de construir algo sólido juntos, de criar um ambiente de estabilidade e amor para o Leo. Quero que tentemos fazer isso funcionar, de verdade, sem máscaras.

Eu respiro fundo, tentando processar o que ele está me pedindo. Ele está sugerindo algo que parece uma utopia impossível no momento, mas há uma sinceridade crua em seu olhar que é terrivelmente difícil de ignorar. A intensidade daqueles olhos cinzentos é quase hipnotizante, e por um milésimo de segundo, sinto uma pequena e perigosa fagulha de esperança brilhar no fundo da minha mente.

— Eu... eu não sei se consigo fazer isso — admito, e a verdade das minhas palavras sai sem filtro, vulnerável.

— Eu sei que é difícil — ele interrompe, sua voz suavizando um pouco. — Mas não podemos deixar que o passado nos destrua. Precisamos ser fortes, por ele. E talvez, com o tempo e a convivência, nós possamos encontrar uma maneira de superar toda essa dor.

Há uma vulnerabilidade inesperada em suas palavras, uma honestidade que tenta derrubar minha última linha de defesa. Mas então eu me lembro de quem ele é. Eu conheço essa linhagem muito bem. São manipuladores profissionais! Eles usam a verdade para contar mentiras.

Eu o encaro por um longo momento, sentindo a raiva e a tristeza lutarem dentro de mim por espaço.

— Não vai ser tão simples assim, Átila. Há uma lata de lixo imensa na minha memória com relação à sua família e ao que vocês fizeram com a Elena. Eu não vou me desfazer dela tão facilmente só porque você tem olhos bonitos e uma voz firme — digo, dando um passo para trás para recuperar meu oxigênio.

Ele suspira, e por um momento ele parece realmente ponderar o peso das minhas palavras.

— Eu entendo perfeitamente, Sasha. Sei que minha família cometeu erros imperdoáveis e que você tem todos os motivos do mundo para desconfiar de cada gesto meu. Eu não estou pedindo que você esqueça ou perdoe agora o que o Ícaro ou o Petros causaram. Mas nós precisamos encontrar uma maneira de conviver sob este teto sem nos matarmos — Ele dá um passo à frente, encurtando novamente a distância que eu tentei criar.

Respiro fundo, tentando controlar a turbulência de emoções que ameaça me afogar. É isso? Essa família destruiu a vida da minha irmã e agora eles vencem assim, com palavras bonitas e proximidade física? Eu vou aceitar tudo de mão beijada, como se nada tivesse acontecido?

Não! Absolutamente não!

Encaro Átila com toda a seriedade que consigo reunir, vendo o brilho de determinação em seus olhos, mas sentindo o abismo que ainda nos separa.

— Boa noite, Átila — digo, minha voz saindo firme apesar do tremor interno. — Por favor, saia.

Dou as costas para ele, tentando encerrar o assunto, e caminho até minha mala aberta sobre o suporte. Com mãos trêmulas que se recusam a obedecer, abro o zíper e procuro meu pijama de bolinhas vermelhas, qualquer coisa que me faça sentir segura e comum novamente. Cada movimento é uma pequena batalha contra o meu próprio corpo. Quando finalmente encontro a peça e me viro, meu coração para. Ele ainda está no meu quarto. E ele está tirando a camisa.

O quê? O que ele pensa que está fazendo?

Ele me lança um sorriso torto ao perceber que estou olhando para ele com a expressão de um coelho asfixiado. Meu coração martela contra o peito com tanta força que chega a doer, e minhas pernas ameaçam ceder sob o peso dessa nova tensão. Só consigo pensar em como o tronco dele é perfeito, em como ele é a personificação de tudo o que é masculino e perigoso. Esse homem é o cromossomo Y esculpido em carne e osso.

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