🌑 PRÓLOGO: POR QUE A LUA A ESCOLHEU
Antes que o primeiro uivo rasgasse a garganta de um predador, o mundo conheceu o silêncio absoluto. Não era o silêncio da paz, mas o da expectativa o vácuo que precede a tempestade. E no centro desse vazio, uma pergunta ecoava sem palavras: qual alma teria a têmpera necessária para suportar dois ventos opostos no mesmo peito sem se despedaçar? Qual osso seria forte o suficiente para carregar o peso de dois clãs sem ceder à pressão?
Naquela noite, a mais gélida do ciclo, a própria floresta pareceu paralisada. A neve descia em flocos densos, pesados, caindo sem o auxílio do vento, como se cada partícula de gelo temesse profanar o solo com um ruído sequer. As sombras se aglutinavam nas bordas da clareira sagrada; não recuavam por medo, mas por reverência. E a Lua... a Deusa Prateada manifestou-se em sua plenitude antes do tempo previsto, uma sentinela circular e impiedosa, lembrando à criação de uma promessa que o tempo tentara sepultar.
Isara não veio ao mundo para pedir permissão. Ela nasceu com os punhos cerrados e o queixo erguido contra o destino, um uivo seco e ancestral travado na garganta antes mesmo de seus pulmões conhecerem o ar. Sua mãe, uma loba do Norte de linhagem pura, entregou-se ao parto em um silêncio absoluto, as garras cravadas na terra gelada enquanto dava à luz não a uma simples cria, mas à própria personificação da guerra. Sobre o pai, o nome era um tabu guardado sob sete chaves. Em terras dominadas por Alfas, a árvore genealógica importa menos que o fogo que corre nas veias. E o que Isara trazia em seu âmago era um incêndio.
Ela trouxe a Marca.
Não era um estigma qualquer, uma cicatriz comum para ilustrar contos de ninar. Era uma marca viva, pulsante, que parecia arder antes mesmo de tocar a derme. Sob a luz lunar, ela se tornava prata líquida, serpenteando entre suas omoplatas como um aviso de que o destino não estava apenas próximo ele estava nela. A cada respiração, a marca respondia com um lampejo teimoso, um clarão de autoridade que dizia ao mundo: "Eu não sou uma seguidora; eu sou o caminho".
A menina cresceu à margem do que era considerado normal. Seus olhos possuíam uma claridade glacial, destoante das sombras do Norte, e sua temperatura corporal desafiava a neve que a cercava. Seus sentidos eram aguçados a um nível perturbador: ela ouvia o lamento das raízes, o sussurro dos rios e o pacto de sobrevivência das presas. Enquanto as outras fêmeas eram moldadas para a diplomacia, para a cura e para a costura de alianças frágeis, Isara era forjada no aço. Ela não pedia; ela tomava. Ela não curava com ervas; ela purificava com a verdade, por mais que essa verdade rasgasse a carne.
Foi na transição de uma lua minguante que a anciã Sora, guardiã dos segredos do Círculo da Lua, decretou o fim das suposições. O mistério precisava ser confrontado. Levaram a jovem Isara ao Poço Lunar, uma fenda nascente onde as águas parecem aprisionar o próprio firmamento. Mirla, a curandeira, traçou os limites sagrados; Iane, a rastreadora de passos invisíveis, garantiu a segurança do perímetro; e Tarek, o General da Matilha, permaneceu como uma estátua de músculos e cicatrizes, observando com o rigor de quem sabe que a força sem propósito é apenas selvageria.
Isara mergulhou. O frio das águas era cortante, mas ela não tremeu. Ela não recuou. Ela enfrentou o gelo com a mesma ferocidade com que um lobo encara sua presa. No instante em que seu corpo foi submerso, a marca em suas costas brilhou com uma intensidade ofuscante, e o poço reagiu com ondulações rítmicas, como se a própria terra estivesse despertando de um longo sono. Sora entoou o dialeto arcaico — a língua das eras — e a pressão do ar tornou-se quase insuportável. Então, a Lua falou.
Não foram sons audíveis por ouvidos humanos, mas vibrações que reverberaram no âmago de cada osso. A luz desceu como uma lança, atingindo a testa da jovem, e o veredito foi proclamado:
— "Eu a escolhi."
A anciã Sora, mantendo a dignidade de quem fala com divindades, questionou com a autoridade de sua posição: "Por que ela, Grande Mãe? Por que esta órfã de dois mundos?"
A resposta veio em sentenças definitivas, como leis gravadas em granito:
— "Eu a escolhi porque ela é a Herdeira de Dois Ventos. O Norte lhe concede o fôlego da resistência, e o Leste lhe entrega o faro da estratégia. O sangue que corre nela não reconhece fronteiras ou mapas; ela é o território unificado."
— "Eu a escolhi porque ela domina o Silêncio da Observação. Ela não se deixa levar pelo clamor dos tolos ou pela encenação dos covardes. Ela escuta a verdade que o mundo sussurra quando ninguém está tentando parecer heroico."
— "Eu a escolhi porque seu ouvido é Triplo. Ela discerne o clamor da floresta, a necessidade da matilha e a voz de sua própria alma. Ela possui a sabedoria para decidir qual dessas vozes deve prevalecer no momento da execução."
— "Eu a escolhi porque ela morde com propósito e guarda com honra. Ela possui a coragem de ferir para evitar um mal maior e a grandeza de proteger aqueles que um dia foram seus adversários. Ela não confunde sede de sangue com justiça."
— "Eu a escolhi porque ela caminha pelo Caminho do Gelo. Ela escolhe a trilha árdua, a água profunda e a pedra escorregadia. Aqueles que não temem o frio chegam ao topo sem dívidas morais, com o espírito forjado no sacrifício."
— "E, acima de tudo, eu a escolhi porque ela me escolheu primeiro. Antes mesmo desta marca ser imposta, sua postura já era uma afirmação de lealdade à verdade. Ela não dobra o joelho diante da mentira, e eu, a Lua, não estabeleço pactos com os fracos de espírito."
A água estabilizou-se. O brilho prateado assentou-se como mercúrio domado sobre a pele da jovem. Isara emergiu da fonte, os cabelos colados ao rosto e o olhar fixo no horizonte, transbordando uma confiança silenciosa que não precisava de validação externa. Tarek, o mestre de armas, sentiu o peso daquela presença e soube, naquele instante, que seu papel mudaria de protetor para mentor de uma futura lenda.
Os anos que se seguiram foram de uma disciplina espartana. Tarek submeteu Isara a provações que quebrariam lobos experientes. Ele a ensinou que a força bruta sem precisão é apenas desperdício de energia. Ela subia picos escarpados carregando o peso da responsabilidade nos ombros, transformando o cansaço em combustível. A loba que habitava sob sua pele não era um monstro descontrolado; era uma extensão de sua vontade.
Mirla a instruiu nas artes da anatomia e da sobrevivência, alertando-a de que um líder que não sabe curar seus guerreiros está apenas liderando um cemitério. Isara absorveu cada lição com uma voracidade lupina. Iane a ensinou a arte da invisibilidade, a técnica de mover-se sem despertar a suspeita das folhas secas. Cada queda era uma lição de resiliência.
Sua transformação era um espetáculo de poder controlado. Isara não se transformava por fúria cega, mas por necessidade estratégica. Sua forma lupina era imponente: pelagem cinza como o aço das tempestades, uma listra prateada que cortava seu corpo da fronte à cauda e olhos que refletiam a frieza de um lago glacial. Seu aroma não era apenas de fêmea ou de caçadora; era o aroma do comando.
A matilha, como é de costume na natureza dos lobos, tentou testar sua autoridade antes mesmo dela ser oficializada. Atribuíam a ela as tarefas mais inglórias, os conflitos mais insolúveis e as patrulhas mais perigosas. Isara aceitou cada desafio com uma frieza calculada. Ela distribuía as provisões com uma equidade que calava os descontentes, protegia os vulneráveis com uma ferocidade maternal e nunca, sob hipótese alguma, aceitava atalhos que comprometessem sua integridade. Ela não buscava um trono; ela buscava a excelência do dever.
O evento que consolidou sua lenda ocorreu durante o grande degelo. O rio Cobalto transformou-se em uma torrente impiedosa, isolando membros da matilha em rochas cercadas pela destruição. Enquanto os Alfas mais jovens hesitavam diante da força das águas, Isara ordenou o silêncio, leu o fluxo da correnteza e proclamou: "Iremos pelo frio". Ela mergulhou onde a pressão era maior, pois sabia que era ali que o caminho era mais direto. Sua coragem serviu de âncora para todos. O resgate foi um sucesso absoluto e, a partir de então, "ir pelo frio" tornou-se o mantra de sua existência: escolher a verdade difícil em detrimento da mentira confortável.
Aos dezessete anos, na Noite da Revelação, a clareira dos anciãos estava repleta. Lideranças do Norte, observadores do Leste e os patriarcas da história estavam presentes. Isara entrou no recinto desprovida de adornos, carregando apenas a autoridade de sua presença. Quando a luz lunar incidiu sobre sua marca, o ar pareceu se cristalizar. O decreto divino foi ouvido por todos: Isara era a ponte entre as linhagens, a guardiã do equilíbrio.
Os Alfas gananciosos, que viam na jovem uma oportunidade de expandir seus domínios, tentaram cortejá-la com promessas vazias e propostas de união por conveniência. Isara os desarmou com um único olhar um olhar que carregava a profundidade de mil invernos. Ela não era uma peça no tabuleiro deles; ela era a própria jogadora.
No entanto, na véspera da grande celebração de sua ascensão, o presságio se manifestou. Em um sonho vívido, Isara viu a neve tornar-se negra como fuligem, o ar adquirir um sabor metálico de sangue antigo e as árvores transformarem-se em sentinelas de olhos rubros. Ela acordou com sua loba interior rosnando em um estado de alerta máximo. Não era medo. Era a premonição de que o destino exigiria um tributo de sangue.
O cenário estava posto. A herdeira de dois ventos estava pronta. A marca prateada ardia como um chamado irrevogável. Se a Lua a escolhera, era porque somente ela poderia enfrentar a escuridão que se aproximava com os dentes à mostra.