Capítulo 78LunaA madrugada passou lenta.Tentei dormir. Não consegui.Fiquei deitada na cama, mãos no ventre, olhos presos ao teto, ouvindo os sons abafados da mansão respirando ao meu redor. Cada passo no corredor, cada porta se abrindo ou fechando, cada suspiro do vento contra as janelas... tudo me parecia ampliado.Talvez fosse o instinto.Ou talvez fosse o medo.Por volta das sete da manhã, levantei. Tomei um banho morno, vesti uma roupa limpa e, pela primeira vez em semanas, me olhei no espelho tentando enxergar outra coisa além da guerreira exausta.Talvez estivesse ali. A mulher por trás da armadura. A mãe.A porta do quarto se abriu devagar. Não precisei olhar para saber quem era.Chiara sempre foi sutil como uma brisa que anuncia tempestade.— Você saiu ontem sem dizer nada. — Sua voz era firme, mas baixa. Ela entrou, fechou a porta atrás de si. — E voltou com uma expressão que eu não via desde… bom, desde o dia em que conheceu o Dante.Assenti em silêncio, sentando-me na b
Capítulo 79LunaO dia começou como os outros: céu cinzento, nuvens paradas, ar pesado. Mas algo dentro de mim sabia, hoje não seria como os outros.Mariana entrou no quarto por volta das oito, os passos rápidos, a expressão mais tensa do que o habitual. Vi no brilho dos olhos dela que algo grave havia acontecido.— Ele está aqui — disse, sem preâmbulos.Meu sangue congelou.— Quem?— Marcelo Rivas.O nome bateu em mim como um soco seco. Não porque eu não estivesse esperando, mas porque agora... tudo era diferente. Eu não era mais a assistente dele. Nem a protegida de Dante. Nem mesmo a mulher em guerra.Eu era mãe.Mesmo que ainda em silêncio, a vida dentro de mim pulsava com mais força do que qualquer exército armado.— Onde ele está?— Na Zona Leste. Conseguiu reunir alguns antigos aliados. Está tentando se reorganizar. Espalhou rumores de que quer te capturar viva. — Mariana pausou. — Para negociar com o Conselho. E fazer você... pagar por “trair o seu verdadeiro lugar”.Soltei um
Capítulo 80LunaO corredor do hospital tinha o cheiro agridoce de desinfetante e saudade. Cada passo ecoava como se eu caminhasse sobre gelo fino — não pelo medo de cair, mas pelo peso do que estava prestes a dizer. Havia dias em que o silêncio no quarto de Dante me feria mais do que qualquer palavra maldita de Marcelo. Hoje, no entanto, algo em mim parecia diferente.Eu não vinha buscar consolo. Vinha trazer uma notícia.Abri a porta devagar, quase com reverência. Ele estava ali, como sempre, deitado, preso entre máquinas e esperanças. Os batimentos cardíacos marcavam o tempo como um metrônomo impessoal. A luz do fim de tarde invadia o ambiente pelas persianas entreabertas, tingindo a pele dele com um tom dourado e pálido.Fechei a porta atrás de mim. Sentei na poltrona ao lado da cama. Toquei a mão dele — fria, ainda, mas firme. Como se, mesmo dormindo, ele resistisse a ceder.— Dante... — minha voz saiu baixa, um sussurro mais para mim do que para ele. — Acabou.Fechei os olhos po
Capítulo 81DanteA luz me incomodava. Mesmo com os olhos fechados, eu sentia. Algo quente, filtrado, pulsando atrás das minhas pálpebras como se o sol estivesse apenas esperando que eu abrisse os olhos. A consciência voltava em ondas, cada uma trazendo um pouco mais de dor e de memória.Fragmentos.Tiros. O nome dela. O gosto de sangue na boca. E, depois, o silêncio.Minha cabeça parecia pesada demais para o corpo. Minha garganta seca, como se eu tivesse passado dias no deserto. Mas havia outra coisa. Um cheiro. Algo familiar. Doce. Calmo. Vida.Luna.Não era só uma lembrança. Era presença.Senti sua mão segurando a minha. Era firme, mas suave. A pele dela sempre teve esse contraste — quente, viva, determinada. Havia algo de reconfortante nesse toque, como se meu corpo finalmente tivesse reencontrado o eixo.Tentei mexer os dedos. Uma reação mínima, mas ela notou. Sempre nota.— Dante?A voz dela quebrou o silêncio com delicadeza, quase como uma súplica. E, ao mesmo tempo, uma afirma
Capítulo 82DanteO ar da manhã parecia mais fresco do que eu lembrava. Ou talvez fosse eu, diferente. Desacostumado a sentir o mundo de verdade, depois de tanto tempo entre a vida e o quase. A cadeira de rodas avançava devagar pela rampa do hospital, empurrada por um dos enfermeiros. Ao meu lado, Luna caminhava em silêncio. Mãos firmes no encosto, coração palpitando como se ela estivesse empurrando não só meu corpo, mas todo o peso do que atravessamos até ali.Ela sorriu quando nossos olhos se encontraram. E eu soube que não importava o tempo que levaria, ela estaria ali. Até eu ficar de pé de novo. Até voltarmos a ser algo mais do que sobreviventes.— Está pronto para voltar pra casa? — ela perguntou.Assenti. E mesmo com o corpo ainda frágil, a mente cansada e os músculos endurecidos pelo coma, aquela palavra — casa — teve um sabor doce e cheio de possibilidades.***A mansão estava diferente.Mais leve, talvez. Ou só mais viva.As flores do jardim estavam bem cuidadas. Os portões
Capítulo 83LunaMeses depoisA madrugada chegou com um silêncio estranho.Não era o silêncio tenso dos dias em que vivíamos à sombra da guerra. Era outro tipo. Um silêncio cheio de expectativa. Como o momento que antecede um trovão — você sente antes mesmo de ouvir.Acordei com uma pressão na barriga. Não era só desconforto. Era diferente. Um aperto profundo, como se meu corpo tivesse despertado junto com a criança dentro de mim, e ele dissesse: “É agora.”Sentei na cama devagar. Dante dormia ao meu lado, o braço estendido em minha direção, como se mesmo dormindo quisesse me proteger.— Amor… — toquei seu ombro, tentando não transparecer o medo que começava a crescer. — Dante, eu acho que tá começando.Ele abriu os olhos no mesmo instante. Os instintos dele eram tão afiados que às vezes eu me esquecia do quanto ainda estava aprendendo a me sentir segura. Mas com ele, eu sempre soube que podia.— Agora? — ele se ergueu, completamente alerta. — Tem certeza?Respondi com um olhar e outr
EpílogoLunaO sol começava a se pôr quando vi meu reflexo no espelho.O vestido era simples. Branco, de tecido leve, moldando meu corpo com a delicadeza que eu jamais imaginei merecer. As alças finas expunham meus ombros e as cicatrizes suaves que a vida me deixara. Eu não as escondi. Pelo contrário. Elas estavam ali como parte do que me trouxe até este dia.Mariana prendeu os últimos fios do meu cabelo em um coque baixo e elegante, deixando algumas mechas soltas ao redor do rosto. Chiara entrou no quarto com um sorriso discreto, segurando um pequeno buquê de lavandas — as flores que Dante havia plantado para mim no jardim da casa.— Ele está lá embaixo — disse Chiara. — Esperando por você. Com cara de quem vai desmaiar.— Ele sempre foi mais forte na guerra do que em cerimônias — sorri, mas a garganta apertou. — Meu Deus… estou mesmo casando com ele?— Está. Com o homem que você salvou — disse Mariana, se aproximando. — E que também te salvou.— Que sorte a de vocês dois — acrescent
Capítulo 1MarianaEra uma manhã comum, ou pelo menos parecia. O sol teimava em surgir entre as nuvens de uma primavera indecisa, e o cheiro de café fresco preenchia o ar da casa onde Luna morava agora. Eu não a via há semanas, não por falta de saudade, mas por medo. Medo de encarar tudo o que havíamos vivido. Medo de ver nos olhos dela a lembrança viva da guerra que quase nos matou.Mas naquele dia, eu fui. De táxi, olhando pela janela o tempo todo, como se a cidade também tivesse mudado, como se cada prédio novo apagasse um pouco do passado que insistia em me acompanhar. O motorista mal falou comigo, e eu agradeci por isso. Não queria falar. Queria chegar. Só isso.Luna me recebeu com um sorriso contido, mas caloroso. Seu ventre já exibia o desenho discreto da vida crescendo, e isso me emocionou mais do que eu esperava. Ela estava bem. Vitoriosa. Não sem marcas, claro, mas viva. Fortalecida.— Entra — disse ela, abrindo espaço para mim. A casa estava mais aconchegante do que me lemb