4 - Adrian

São onze e meia da noite e estou a trabalhar.

Isto é normal. Trabalho sempre a esta hora. O silêncio do apartamento depois de a Lily adormecer é exactamente o tipo de silêncio que eu preciso, sem interrupções, sem reuniões, sem ninguém a querer alguma coisa de mim. Só eu e os números e as decisões que ninguém mais pode tomar.

Não estou a pensar em Clara Mendes.

Abro o relatório do terceiro trimestre. Números. Bons números, na generalidade. O sector asiático precisa de atenção, mas isso é para a reunião de quinta. Fecho esse separador. Abro os contratos pendentes.

Ela disse "o meu raio de destruição está acima da média".

Fecho os contratos. Abro o email.

Há quarenta e dois emails não lidos. Respondo a seis que são urgentes. Os outros podem esperar até amanhã. Fecho o email. Fico a olhar para o ecrã em branco durante um momento.

No terceiro dia de aulas, a Lily construiu um modelo do sistema solar.

Nenhuma das professoras anteriores, e houve três, em dois anos, conseguiu que a Lily ficasse sentada mais de vinte minutos seguidos sem que ela começasse a perguntar quando acabava. Hoje ficou três horas. Três horas a trabalhar com concentração total, e no fim recitou as distâncias interplanetárias com a precisão de uma pequena enciclopédia ambulante.

Porque Clara tornou interessante.

Passo uma mão pelo cabelo. Levanto-me. Vou à janela, Nova Iorque lá fora, viva e barulhenta mesmo à meia-noite, o tipo de cidade que nunca dorme e que eu escolhi exactamente por isso, há catorze anos, quando vim com uma ideia e sem dinheiro e com a certeza de que ia funcionar.

Elena gostava da vista daqui.

O pensamento vem sempre sem avisar. Quatro anos depois, ainda vem. Não com a dor aguda do princípio, essa ficou algures nos primeiros meses, enterrada pelo trabalho e por Lily e pela necessidade de continuar a funcionar. É mais um peso surdo, uma presença periférica. A ausência de alguém que devia estar aqui.

Ela teria gostado de Clara.

A ideia aparece antes de eu poder travá-la e fico ali parado, sem saber o que fazer com ela.

Elena tinha aquela qualidade, a capacidade de encontrar graça nas coisas, de rir antes de se preocupar. Clara tem isso também. Não da mesma forma, são pessoas diferentes, completamente diferentes, mas há nela aquela coisa que é escassa no mundo que habito: a recusa em ser intimidada pelas circunstâncias. Um vaso Ming partido. Um patrão que a fita com a expressão mais seca que consegue. E ela continua ali, de pé, com aqueles olhos verdes e a teimosia de quem não está habituada a recuar.

Volto a secretária.

Não estou a pensar nela. Estou a observar uma profissional que trabalha com a minha filha. É uma distinção importante.

* * *

James liga às dez da manhã seguinte, que é a hora em que sempre liga quando quer comentar a minha vida pessoal sem avisar.

James Calloway é o meu melhor amigo desde os vinte anos, sócio minoritário na empresa, e a pessoa que mais consistentemente se recusa a comportar-se como um adulto quando a situação exige. É também, inconvenientemente, a pessoa cujo julgamento eu mais confio em quase todas as matérias.

— Então — diz, sem cumprimentos. — Já conheceste a professora nova.

— Bom dia, James.

— Como é ela?

— Competente — digo. — A Lily gosta dela. Está a trabalhar bem.

Pausa. Conheço esta pausa. Esta pausa significa que James está a sorrir do outro lado do telefone de uma forma que não me vai agradar.

— "Competente" — repete ele.

— Sim.

— É tudo?

— É o que é relevante.

— Hm. — Outra pausa. — A Rachel disse que ela é muito bonita.

— A Rachel devia ocupar-se com as suas funções.

— A Rachel também disse que tu ficas a olhar para ela durante a saída como se estivesses a tentar lembrar-te de uma coisa.

Silêncio.

— A Rachel exagera.

— Pode ser. — A voz de James tem aquele tom específico de quem está a guardar uma gargalhada para outro momento. — Então não é bonita.

— Não disse isso.

Pausa mais longa.

— Adrian.

— James.

— Quatro anos, meu. Quatro anos.

Sei o que ele quer dizer. Sei exactamente o que ele quer dizer e não preciso que ele acabe a frase.

— Ela é a professora da Lily — digo, devagar. — Isso é tudo o que é.

— Claro que sim. — A voz é suave agora. — Vemo-nos ao jantar na quinta?

— Sim.

— Óptimo. E Adrian?

— Hm.

— Nada. Até quinta.

Desligo. Fico a olhar para o telefone um momento.

A Lily aparece à porta do escritório em pijama, com o cabelo em desalinho e Saturno, o planeta de cartão, na mão.

— Papá, o Saturno perdeu um anel.

Olho para o planeta. Um dos anéis de cartão prateado está de facto a descolar.

— Podemos colar — digo.

— A Clara tem cola especial para isto. Posso perguntar-lhe amanhã?

— Podes pedir ao Thomas cola normal. Resolve o mesmo.

Lily olha para o planeta com uma expressão de quem está a considerar seriamente as implicações.

— Prefiro perguntar à Clara. Ela sabe estas coisas.

— Ela é professora de crianças, não de planetas de cartão.

— Ela sabe as duas coisas. — Pausa. — Eu gosto dela, papá.

Olho para a minha filha. Tem sete anos e uma capacidade de me desarmar com a simplicidade das suas certezas que às vezes me deixa sem palavras.

— Fico feliz, minha querida.

— Tu gostas dela?

A pergunta é inocente. Completamente inocente. Lily tem sete anos e está a fazer uma pergunta simples sobre uma pessoa que entrou na nossa casa.

— É uma boa profissional — digo.

Lily olha para mim com aquela expressão. Aquela expressão específica que herdou de alguém, não de mim, de certeza, que diz, sem palavras, "essa não foi uma resposta à pergunta que fiz".

— Vai dormir — digo. — Está quase meia-noite.

Ela vai. Paro de pé no escritório, com a cidade lá fora, e percebo que estou a sorrir.

Paro imediatamente. Volto ao trabalho.

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