2 - Adrian

Há coisas que não acontecem na minha casa.

Caos, por exemplo. Ruído desnecessário. Objectos fora do lugar. A minha vida foi construída com precisão planeada, cada coisa no sítio certo, cada pessoa no papel certo, cada hora do dia com um propósito definido. Não é frieza. É eficiência. É o único modelo que conheço para manter tudo a funcionar quando "tudo" inclui uma empresa de três mil pessoas e uma criança de sete anos com mais energia do que uma central nuclear.

Clara Mendes está no meu apartamento há onze minutos e já partiu um vaso. Não um vaso qualquer. Um vaso Ming.

Autentico. Século XV. Presente de um sócio japonês que me custou uma negociação de seis meses e um jantar que durou quatro horas.

Ela está de joelhos no chão da entrada, a tentar recolher os cacos com as mãos, com a expressão de alguém que está a ter um diálogo interno muito intenso e muito pouco favorável para si própria. O cabelo castanho caiu-lhe para a frente. Há uma mancha de café no canto da sua blusa — como? não trouxe café — e um caco do vaso preso no pulso do casaco.

Olho para ela. Olho para o chão. Olho para ela.

— Miss Mendes. — Não evito o tom frio, quase furioso.

— Eu sei — diz ela, sem levantar a cabeça. — Eu sei, eu sei, eu sei. Não precisa de dizer nada. Já me estou a repreender internamente com vocabulário que não vou repetir em voz alta porque a Lily está algures nesta casa.

— Era um vaso Ming. — Digo categoricamente.

— Eu... — Levanta os olhos. Os olhos dela são verdes. Verdes com uma quantidade de alarme que eu não sabia que era possível concentrar numa expressão. — Era antigo?

— Século quinze.

Ela fecha os olhos. Abre. Fecha outra vez.

— Quanto... quanto custou? — A voz saiu tremida, quase chorosa.

— Não vou dizer esse número.

— Porque é alto. — Constatou.

— Porque é alto.

Silêncio. Ela olha para os cacos nas mãos como quem olha para as ruínas de uma civilização. Depois levanta a cabeça e há qualquer coisa na expressão dela, não é só culpa, é também aquela coisa teimosa, aquela recusa em desmoronar completamente, que me faz parar.

— Vou pagar — diz ela, um sotaque pesando, quanto mais ela falava rápido. — Não sei exactamente quando, porque se soubesse o preço provavelmente desmaiava aqui mesmo e isso seria mais um problema para si, mas vou pagar. Em prestações muito, muito pequenas. Por um período que pode chegar à casa dos decades.

— Décadas. — Corrijo.

— Isso mesmo.

Olho para ela mais um momento. Depois olho para o chão onde estava o vaso. E acontece qualquer coisa que não devia acontecer: sinto um impulso de rir. Um impulso genuíno, físico, que tenho de suprimir com esforço considerável.

— Não se mexa — digo. — Vai cortar-se.

Ela para imediatamente. Fico de cócoras à frente dela, recolho os cacos maiores com cuidado, e chamo o Thomas pelo intercomunicador para tratar do resto. Durante uns trinta segundos estamos muito perto um do outro, perto o suficiente para eu reparar que o cabelo dela cheira a algo com maçã, e ela está a olhar para mim com aquela expressão de quem está a tentar perceber como não morrer de vergonha.

— Pronto — digo, pondo-me de pé. — Como é que aconteceu?

— A minha pasta. — Ela gesticula vagamente. — A asa prendeu no casaco quando tirei e... o vaso estava muito perto da mesa.

— O vaso estava a setenta centímetros da mesa.

— Eu tenho um raio de destruição acima da média. — O tom era quase exasperado. — Me desculpe.

Desta vez não consigo conter completamente. Há uma expiração de ar pelo nariz que não chega a ser uma gargalhada, mas está perto. Clara Mendes olha para mim com uns olhos ligeiramente arregalados, como se não estivesse à espera.

Não estou à espera eu também, para ser honesto.

* * *

Lily aparece à volta do canto do corredor como aparece sempre, a correr e em silêncio simultâneo, o que é uma combinação que só ela consegue. Para a uns dois metros de Clara e examina-a com aquela expressão avaliativa que herdou de mim e que me enche de um orgulho que nunca vou admitir em voz alta.

— Tu és a professora? — pergunta.

— Sou. — Clara ajoelha-se para ficar ao nível dela. — Sou a Clara. E tu suponho que és a Lily.

— Como é que sabes?

— Porque tens sete anos e estás nesta casa. E porque conheço os teus desenhos. — Aponta para a parede e dá um sorriso mínimo. — Esse da árvore é meu favorito.

Lily segue o olhar dela para a parede, depois volta a olhar para Clara com uma expressão que é impossível de descrever, mas que reconheço porque claro, é a minha filha: é a expressão que ela faz quando alguém disse a coisa certa.

— Eu e o papá fomos ao parque nesse dia — diz Lily. — Ele ficou preso no banco porque o banco estava com tinta.

— Lily — digo com falsa repreensão.

— É verdade.

Clara olha para mim por cima da cabeça da Lily com os olhos a rir antes da boca.

— Ficaste mesmo preso?

— A tinta estava fresca e não havia aviso.

— Ficou mesmo — confirma Lily, com a satisfação serena de quem tem um arquivo mental de todas as situações embaraçosas do pai. — Tivemos de cortar o casaco. Era o casaco novo.

— Lily.

— O que foi? É a professora. Ela precisa de saber como somos. — minha filha riu, sapeca.

Clara está a morder o lábio inferior. Posso ver o esforço que lhe está a custar não rir. Passo-lhe os olhos rapidamente pelo rosto, os olhos verdes com aquela luz interior, a boca que se curva ligeiramente, e olho para outro lado.

— Vá buscar os teus livros, Lily — digo. — A Clara vai começar hoje.

Lily analisa Clara por mais um segundo, com aquela seriedade de júri que é simultaneamente adorável e ligeiramente perturbante.

— Está bem — diz finalmente, com um tom de quem acabou de tomar uma decisão importante. — Gosto de ti.

E desaparece pelo corredor.

Fico a ver Clara a olhar para onde Lily desapareceu, com um sorriso que não tem nada de forçado. É um daqueles sorrisos que acontecem antes de a pessoa decidir sorrir.

Algo no meu peito faz uma coisa estranha aquecer.

Ignoro.

— A sala de aula está preparada no segundo corredor à esquerda — digo. A voz soa mais seca do que pretendo, mas é preferível ao alternativo. — O Thomas pode trazer-lhe o que precisar. Os materiais que pediu chegaram ontem.

— Obrigada. — Ela levanta-se, arruma os cabelos atrás da orelha. Há ainda um caco minúsculo de porcelana preso na manga do casaco e não lho digo. — E sobre o vaso... sinto mesmo muito.

— Esqueça o vaso.

Ela pisca, incrédula.

— Tem a certeza? Porque eu não vou esquecer. Vou acordar às três da manhã durante os próximos meses a pensar—

— Clara.

Para. Olha para mim. É a segunda vez que uso o seu nome e tenho a impressão de que ela reparou, porque há uma fracção de segundo de algo nos olhos dela antes de regressar ao profissional.

— Está bem — diz. — Obrigada, Sr. Beckett.

— Adrian.

Pausa, ela estava a considerar as minhas palavras.

— Adrian — repete ela. Suave. Como se estivesse a experimentar a textura da palavra.

Vou ao meu escritório. Fecho a porta. Sento-me. Fico a olhar para o ecrã durante aproximadamente quarenta e cinco segundos sem ver nada.

Depois abro os emails e começo a trabalhar como um homem completamente normal que não está a pensar em absolutamente nada.

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