Existe, na minha experiência de professora, um tipo específico de criança que não faz perguntas por acidente.São as crianças que observam primeiro. Que ficam quietas, acumulam informação, constroem um modelo mental completo da situação, e só então, com uma precisão surpreendente que devia ser ilegal em menores de dez anos, fazem a pergunta que vai directamente ao centro de tudo.Lily Beckett é esse tipo de criança.Estamos a fazer um exercício de escrita criativa. Pedi-lhe que inventasse um personagem, nome, idade, o que gosta, o que não gosta, um sonho. É um exercício simples que me diz imenso sobre como uma criança pensa e organiza o mundo.Lily escreve durante doze minutos sem parar, sem hesitar, com aquela concentração total que me faz o coração crescer um bocadinho cada vez que a vejo. Depois pousa o lápis, dobra as mãos em cima do caderno, e olha para mim.— Clara.— Hm? — Estou a escrever notas. Não olho para cima imediatamente.— Achas o meu pai bonito?O lápis para.
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