5 - Clara

Há exactamente três semanas que trabalho para Adrian Beckett, e estabeleci com sucesso as seguintes regras para a minha vida mental:

Um: o facto de o meu patrão ser indiscutivelmente bonito é uma informação irrelevante que não precisa de ocupar espaço cerebral.

Dois: quando ele aparece à porta da sala de aula no fim do dia, o que acontece com uma regularidade que nenhum dos dois comentou, estou a observar um pai envolvido na educação da filha. Nada mais.

Três: o tom da voz dele quando diz o meu nome não tem nenhuma textura específica e eu parei de reparar nisso completamente.

As três regras funcionam perfeitamente durante as horas em que não estou no apartamento Beckett. Dentro do apartamento Beckett, a situação é ligeiramente mais complicada.

Como hoje.

Hoje Adrian pediu para falar comigo sobre o "progresso educativo de Lily", palavras dele, ditas com aquela seriedade executiva que eu suspeito ser parcialmente performance, e estamos sentados na sala de reuniões, que é a mesma sala de reuniões da entrevista, com a mesma vista para Central Park.

Ele tem uma pasta à frente. Naturalmente. Adrian Beckett não vai a uma reunião sobre o progresso da filha sem uma pasta.

Dentro da pasta está, e isto é o melhor, um documento com gráficos.

Gráficos de progresso. Da Lily. De sete anos.

Mantenho a expressão neutra. Custa-me algum esforço.

— Nas últimas três semanas — começa ele, com a voz de quem está a apresentar a um conselho de administração — a Lily melhorou significativamente na leitura e na resolução de problemas matemáticos. O vocabulário expandiu-se. A concentração aumentou. — Olha para mim. — Estou satisfeito com os resultados.

— Fico feliz. — Fiz uma pausa analisando os papéis, de longe. — Fizeste um gráfico.

— Sim.

— Da evolução da tua filha de sete anos.

— É uma forma eficiente de visualizar o progresso. — Respondeu na defensiva.

Olho para ele. Ele olha para mim com aquela expressão perfeitamente neutra que começo a reconhecer como a máscara que usa quando não quer que se veja o que está a pensar.

— Adrian.

— Clara.

— É adorável.

Algo passa nos olhos dele. Não é bem surpresa. É mais... a expressão de alguém que não está habituado a ser chamado adorável por ninguém e não sabe imediatamente o que fazer com isso.

— É eficiente — corrige.

— É as duas coisas. — Sorrio. — Posso ver?

Ele passa a pasta para o meu lado da mesa. E é aqui que acontece.

Os nossos dedos não se tocam. Não exactamente. É mais, os dedos dele estão na borda da pasta, e os meus estão a pegá-la, e por uma fracção de segundo as nossas mãos estão no mesmo espaço, e há um contacto tão breve que podia ter sido imaginação.

Mas não foi.

Sei que não foi porque eu paro de respirar por dois segundos completos. E porque levanto os olhos sem querer e Adrian está a olhar para mim, não para a pasta, para mim, com uma expressão que dura exatamente o tempo de um batimento cardíaco antes de desaparecer completamente atrás da máscara neutra.

— Obrigada — digo. A voz soa normal por um triz. Milagre.

Olho para os gráficos. Não vejo os gráficos. Vejo uma série de linhas coloridas que podiam ser qualquer coisa porque a minha atenção está inteiramente ocupada em recalibrar os meus próprios pulmões.

Isto é ridículo. É um roçar de mãos acidental. Acontece a toda a gente todos os dias no metro, em filas de supermercado, em elevadores cheios. É fisiologia básica, não é nada.

— O gráfico vermelho é a leitura — diz Adrian. A voz está completamente normal. Completamente. Como se nada tivesse acontecido, porque nada aconteceu. — A linha sobe consistentemente a partir da segunda semana.

— Sim. — Tossico levemente. — Mudámos de método na segunda semana. Em vez de leitura em voz alta individual, experimentámos leitura partilhada, ela lê para mim, eu leio para ela. Cria uma dinâmica diferente.

— Explica o salto. — Assinto levemente.

— Exactamente.

Estou a falar de pedagogia. Estou completamente focada em pedagogia. O ligeiro calor que sinto nas faces é apenas a temperatura da sala.

A sala está a uma temperatura perfeitamente normal.

— E aqui — Adrian inclina-se ligeiramente para a frente para apontar algo no gráfico, o que o aproxima e traz o cheiro de sua colônia para o meu espaço de ar, que é um desenvolvimento que não precisava — o pico no dia doze?

Olho para o ponto que ele está a indicar. Sorrio.

— Esse dia fizemos um concurso. Ela contra mim. Quem lesse mais rápido sem errar escolhia o projecto da semana seguinte.

— Quem ganhou?

— Ela. Por uma margem considerável. — Gesticulo, meio animada. Eram óptimos resultados. — Não dei por perder de propósito, só para constar. A miúda é rápida a sério.

Adrian olha para o gráfico. Mas há um sorriso a tentar acontecer, consigo ver no canto da boca, na forma como a mandíbula se suaviza ligeiramente.

— Ela é — concorda. Baixo. Como se fosse uma coisa só para ele.

* * *

Estamos na sala mais quarenta minutos. Falamos sobre Lily, os pontos fortes, as áreas a desenvolver, as estratégias para as próximas semanas. Adrian faz perguntas boas, o tipo de perguntas que mostra que ouviu tudo o que eu disse nas semanas anteriores. Toma notas. Numa pasta. Com uma caneta de tinta.

Quem usa caneta de tinta em 2025?

Adrian Beckett, aparentemente.

— Há uma coisa — digo, quando estamos quase a terminar. — A Lily mencionou que gostava de aprender a tocar piano. Não insistiu, foi uma coisa de passagem, mas menciono porque—

— Ela disse isso? — Algo na voz muda. Não é surpresa exactamente. É mais atenção redobrada.

— Sim. Quando ouviu música num vídeo que estávamos a ver sobre baleia...— Paro. — Não é relevante o contexto. O ponto é que ela mencionou.

Adrian fica quieto um momento. Olha para a janela.

— A Elena tocava piano — diz. Calmo. O tipo de calmo que é construído, não natural. — Não tínhamos falado disso desde...

Para.

Suponho que Elena seja a mãe de Lily.

Não digo nada. Há momentos em que a coisa certa a fazer é não dizer nada, e este é um deles. Fico quieta e deixo o silêncio existir sem o preencher.

— Posso arranjar um professor — diz ele, eventualmente. — Se ela quer.

— Acho que ela ia adorar.

Ele acena com a cabeça. Olha para mim, um olhar diferente de todos os outros que me deu até agora. Mais aberto. Menos controlado.

— Obrigado — diz. — Por teres reparado.

— É o meu trabalho reparar nas coisas. — Aceno e sorrio tranquilizando-o. — Senão não seria professora.

— Não exactamente nesta coisa.

Tem razão. Não é exactamente. Mas há coisas que se reparam porque se repara, não porque se é pago para isso.

Dobro os meus papéis. Ponho-os na pasta. Levanto-me. E é neste momento que acontece a segunda coisa.

Levanto-me ao mesmo tempo que ele, e o apartamento Beckett, que parece enorme quando o percorro sozinha, revela-se de dimensões inesperadamente compactas quando Adrian Beckett também se levanta do mesmo lado da mesa porque se tinha deslocado para me mostrar o gráfico melhor, e de repente estamos a uma distância que não é profissional.

Não é próxima. Mas não é profissional.

Ele é muito alto. Já sabia isso, mas de perto é um facto que o corpo recebe de forma diferente do que a vista. Os olhos dele estão escuros e estão em mim.

— Com licença — digo. A voz soa surpreendentemente estável.

Ele recua um passo.

— Claro. — O tom soou como um rouco.

Passo por ele. E porque o universo tem um sentido de humor específico para comigo, a asa da minha pasta roça no pulso dele ao passar.

Não paro. Não olho para trás. Vou directa ao corredor.

Na sala de aula, a Lily está a desenhar e levanta os olhos quando entro.

— Está tudo bem? — pergunta me analisando cuidadosamente. Tem sete anos e a perspicácia de uma criança que cresceu a observar adultos.

— Está tudo óptimo. — Sento-me. Abro o livro de matemática. — Continuamos nos quebra-cabeças?

Lily observa-me por um segundo. Depois olha para a porta.

— O meu pai estava lá? — pergunta.

— Tivemos uma reunião sobre o teu progresso.

— E?

— E está muito contente contigo. — Sorrio. — Como toda a gente que te conhece.

Lily sorri, aquele sorriso real, o que vai até aos olhos, e pega no lápis.

Fico a olhar para o livro aberto à minha frente durante dois segundos. No pulso, onde a asa da pasta roçou a pele dele, sinto ainda o eco de qualquer coisa que não sei nomear.

Viro a página.

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