Mundo de ficçãoIniciar sessãoA caneta parecia pesada demais entre os dedos de Maytê, ridiculamente pesada, como se aquele simples objeto tivesse consciência de que estava prestes a destruir sua vida.
Ela encarava a assinatura vazia no final do contrato enquanto o silêncio dominava o escritório de Gustavo Ferraresi. Um ano. Doze meses fingindo amar um homem incapaz de demonstrar sentimentos de verdade. Brilhante ideia. Maytê levantou os olhos lentamente. — Ainda dá tempo de eu fugir pela janela? Gustavo permaneceu encostado na mesa, observando-a. — Estamos no quadragésimo andar. — Então seria uma fuga dramática. Algo quase divertido atravessou o olhar dele outra vez, aquilo estava começando a incomodá-la. Porque Gustavo Ferraresi não deveria ter expressões humanas ocasionais. Ele parecia o tipo de homem criado em laboratório para destruir emocionalmente qualquer pessoa próxima. — Você faz piadas quando está nervosa. — ele comentou. Maytê estreitou os olhos. — E você analisa as pessoas como se fossem relatórios financeiros. — Funciona na maioria das vezes. — Que assustador. Silêncio. Ela voltou a olhar para o contrato, o valor continuava ali. Tentador, surreal, salvador. Ela pensou nas cobranças, no aluguel atrasado, nas noites sem dormir contando moedas, pensou em como sua vida tinha virado um ciclo infinito de sobrevivência. Então assinou. O som da caneta deslizando pelo papel pareceu alto e definitivo demais. Quando terminou, o ar pareceu diferente, mais pesado. Gustavo observou a assinatura em silêncio antes de pegar o contrato, calmo, controlado. Mas Maytê percebeu a mudança discreta em seus ombros, alívio, pequeno. Quase invisível, ainda assim, ali. — Parabéns! — ela murmurou sem humor — Agora você tem uma esposa de aluguel. Os olhos dele encontraram os dela imediatamente, intensos. — E você acabou de vender um ano da sua vida pra um desconhecido. A sinceridade brutal daquela frase atravessou Maytê como uma lâmina, porque era verdade. Ela desviou o olhar primeiro, odiando isso instantaneamente. Gustavo fechou a pasta devagar. — Algumas coisas vão mudar a partir de agora. — Imagino. — Você vai sair daquele apartamento hoje. — O quê? — perguntou, arregalando os olhos. — A cobertura possui segurança adequada, seu prédio não. — Você mandou investigar onde eu moro? — Sim. — Isso é psicopata em muitos níveis. — Isso é precaução. Maytê levantou da cadeira imediatamente. — Escuta aqui, senhor controle excessivo... — Gustavo. — Ainda odeio esse nome na minha boca. O canto da boca dele quase se moveu, quase. — Você não pode simplesmente decidir tudo sozinho. — Posso quando envolve segurança. — Eu não preciso ser salva. A resposta saiu rápida demais, forte demais. Porque aquilo tocava em alguma coisa antiga dentro dela. Gustavo percebeu, e sua expressão mudou ligeiramente, menos fria. — Não disse que precisa ser salva. — Então para de agir como se eu fosse um problema seu. O silêncio caiu pesado entre os dois. Maytê respirava rápido agora, irritada, defensiva e pela primeira vez, Gustavo pareceu medir cuidadosamente as palavras antes de falar. — A partir do momento em que assinou esse contrato, você se tornou problema meu. Ela odiou o jeito como aquilo afetou seu peito, porque a frase deveria soar controladora, talvez soasse. Mas também carregava outra coisa, responsabilidade, proteção e Maytê estava perigosamente cansada de enfrentar tudo sozinha. — Você percebe que fala como vilão de livro, né? — Já ouvi coisa pior. Ela soltou o ar lentamente, então voltou a sentar, porque fugir não resolveria nada. Infelizmente. Gustavo pegou outro documento e deslizou até ela. — Regras. Maytê pegou a folha desconfiada, então começou a ler em voz alta. — “Não discutir diante da imprensa.” Nossa, muito romântico. — Continue. — “Eventos sociais obrigatórios.” Credo. — Maytê. — “Evitar escândalos.” Isso aqui claramente vai falhar. Os olhos dele escureceram levemente. — Você pretende causar escândalos? — Ainda não decidi. Pela primeira vez, Gustavo soltou uma respiração que parecia quase uma risada contida. Aquilo pegou Maytê desprevenida, porque tornava ele humano e homens como Gustavo Ferraresi eram mais perigosos quando pareciam humanos. Ela continuou lendo, até parar abruptamente. — Espera. “Dormir juntos quando necessário”? — Sim. — Necessário pra quem exatamente? — Para fotógrafos, eventos, viagens. — Ah, claro. Porque bilionários aparentemente precisam sofrer invasões da própria privacidade vinte e quatro horas por dia. — Você vai se acostumar. — Não quero me acostumar. O olhar dele ficou fixo nela por alguns segundos, longos demais. Então respondeu calmamente: — Nem eu. Um silêncio estranho e pesado se formou entre eles. Maytê desviou os olhos para o contrato novamente só para evitar encará-lo daquele jeito. — Tem mais regras? — perguntou. — Algumas importantes. — Estou com medo. — Não se apaixone por mim. Ela levantou a cabeça tão rápido que quase sentiu dor no pescoço. Então encarou Gustavo por alguns segundos e começou a rir. Rir de verdade. — Meu Deus, você acabou de dizer isso sem nenhuma ironia. Ele permaneceu sério. — Estou falando sério. Aquilo só piorou a situação. Maytê pressionou a mão contra a boca tentando conter o riso. — Você realmente se acha irresistível, né? — Não. Mas situações assim confundem pessoas. Ela finalmente conseguiu parar de rir, então cruzou os braços. — Relaxa, Ferraresi. Meu maior talento atualmente é tomar decisões ruins, mas me apaixonar por você exigiria um colapso psicológico completo. O silêncio durou exatamente dois segundos antes de Gustavo responder: — Ótimo. Estamos alinhados então. Ela estreitou os olhos. — Espera. Isso foi um insulto? — Tire suas próprias conclusões. Maytê ficou encarando aquele homem absurdamente irritante por alguns segundos. Então percebeu. Ele estava provocando ela de propósito. A descoberta foi tão inesperada que quase a fez perder o raciocínio. — Você é impossível. — Já me disseram isso. — Aposto que muitas vezes. — Principalmente por mulheres. Ela revirou os olhos imediatamente. Claro, óbvio. Homens ricos sempre tinham histórico emocional desastroso. Mas antes que pudesse responder, alguém bateu na porta. Elisa entrou discretamente. — Senhor Ferraresi, a coletiva foi confirmada para amanhã às dezenove horas. Maytê congelou. — Coletiva? Gustavo assentiu calmamente, como se anunciar um casamento falso para o país inteiro fosse equivalente a pedir café. — Amanhã apresentaremos oficialmente nosso noivado. O sangue sumiu do rosto dela. — Amanhã?! — Sim. — Você enlouqueceu completamente. — Tecnicamente, agora enlouquecemos juntos. Maytê ficou olhando para ele em choque: a respiração presa e o coração acelerado. Porque aquilo estava ficando real rápido demais. Muito rápido. Ela ainda estava tentando processar a insanidade daquele contrato e agora teria que sorrir diante de câmeras fingindo amar um homem emocionalmente inacessível. Perfeito. Absolutamente perfeito. Gustavo observou silenciosamente o desespero estampado no rosto dela. Então, inesperadamente, aproximou-se devagar. Muito perto. Perto o suficiente para Maytê perceber o perfume amadeirado. O cansaço escondido no olhar dele, a tensão constante sob a postura impecável. — Respira. — ele disse baixo. A voz grave atravessou o corpo dela de um jeito irritante. — Não manda em mim. — Você está hiperventilando. Droga. Ela estava mesmo. Maytê desviou o olhar rapidamente. — Isso é loucura. — Concordo. — Então por que parece tão calmo? Pela primeira vez, alguma coisa verdadeiramente triste atravessou os olhos de Gustavo Ferraresi. Rápido. Profundo. Devastador. — Porque minha vida inteira sempre foi uma negociação, Maytê. A frase atingiu ela sem aviso, forte demais. E naquele instante, olhando aquele homem tão absurdamente controlado… Maytê percebeu uma coisa perigosa: talvez Gustavo Ferraresi não soubesse viver de nenhuma outra forma.






