Natália
Eu acordo no dia seguinte com a sensação de que minhas pálpebras foram coladas. Meus olhos ardem, uma queimação persistente que me lembra de cada lágrima derramada na noite anterior. Não lembro de ter dormido de verdade; o que tenho é um estado de exaustão profunda, onde o cansaço físico finalmente vence o choro compulsivo em algum momento cinzento da madrugada. O travesseiro ainda está úmido, um mapa de sal e desilusão. Meu rosto parece estranho ao toque, inchado e quente, e minha cabeça pesa como se eu tivesse passado a noite inteira tentando sustentar o teto daquela cobertura sobre os meus próprios ombros.
Eu fico ali, imóvel, por longos minutos, apenas observando o teto de gesso perfeitamente liso.
Não penso em Ricardo de imediato. O primeiro pensamento que me atinge é o silêncio.
A casa está quieta demais. É um silêncio denso, quase sólido, que parece ter uma textura própria. Não ouço o som abafado dos passos dele no corredor, nem o clique das portas, nem o murmúrio dista