O portão não abre.
Ricardo
O portão não abre.
É um detalhe técnico, uma falha de engrenagem, penso eu nos primeiros segundos. O carro está posicionado, o vidro abaixado, o gesto automático de espera… mas o ferro permanece imóvel.
O porteiro me encara. Ele me conhece há anos. Sabe meu nome, meu cargo, o som do meu motor. Mas sua mão não se move em direção ao botão.
— Bom dia, doutor Ricardo.
— Bom dia — respondo, a impaciência já começando a vibrar no tom de voz. — O portão está com problema?
Ele pigarreia, endireitando a postura. Não há o nervosismo habitual de quem lida com um morador influente. Há uma firmeza nova, quase solene.
— Dona Natália deixou ordens expressas, doutor. O senhor não tem autorização para entrar.
A frase bate no para-brisa e ricocheteia. Eu a ouço, mas meu cérebro se recusa a processar a semântica.
— Como assim, não tenho autorização? Eu moro aqui.
— Ela solicitou o bloqueio total do acesso do senhor. Garagem, portaria, elevadores. Tudo.
A lista de proibições soa como uma barreira