Mundo ficciónIniciar sesiónO comboio surgiu na estrada como uma pequena procissão de poder.
— Finalmente chegamos! – William exclama quando o comboio entra na cidade. Três Cadillacs pretos, cromados e impecáveis, cortavam o ar de Riverwood com a elegância agressiva dos milionários. Atrás deles, duas caminhonetes reforçadas com guardas, bagagens, armas. E, por último, um Buick azul-marinho trazendo Ayla e as filhas mais novas. A cidade inteira parou. Literalmente. Donas de casa largaram compras; mecânicos saíram debaixo dos carros com graxa no rosto; homens encostaram nos postes para ver melhor. Alguns tiraram o chapéu. Outros só engoliram em seco. Riverwood nunca tinha visto algo assim. E nunca esqueceu. Dentro do Cadillac principal, Serena observava tudo pela janela, as mãos geladas apoiadas no colo. A cada quilômetro que passava, o nó no estômago apertava mais. Ela estava indo ao encontro do próprio destino. Um destino que não tinha escolhido. — Respira, irmã… — murmurou Kaía ao lado, tocando a mão dela. — Se não respira, desmaia. Se desmaia, o pai mata a gente. Serena soltou uma risada fraca, mas os olhos continuavam perdidos no vidro. Ela tinha apenas uma certeza: cada prédio que passava era mais um passo rumo a um casamento arranjado com… sei lá quem. Talvez um velho barrigudo. Talvez um homem cruel. Talvez um bêbado. — Será que ele é horrível? — Serena murmurou baixinho, quase para si mesma. — Um velho babão… com cheiro de álcool e charuto… — Ei! — Kaía a cutucou. — Calma. Pode ser… menos pior. Serena a encarou com aquele olhar de “nem tenta”. Kaía suspirou. — Tá. Pode ser pior. O Cadillac virou a esquina e parou diante do hotel mais luxuoso da cidade: O Grand River Hotel. Fachada branca, colunas gregas, tapete vermelho, funcionários correndo para abrir as portas antes mesmo que o comboio freasse por completo. O gerente praticamente se jogou na entrada quando viu quem vinha. William Blackwolf desceu do primeiro carro. Terno impecável. Olhos azuis frios. Presença esmagadora. A cidade inteira conhecia o nome dele — o barão brasileiro, o homem que comprava terras, empresas, bancos e até países em crise. Ele era lenda. Um homem que colocaria reis no bolso, se quisesse. E ali estava ele, pisando em Riverwood. Um murmúrio percorreu a multidão. — É ele mesmo? — O barão? — Meu Deus… — Dizem que ele tem mais de 400 homens trabalhando pra ele… — E essas mulheres? São as filhas? — Parecem modelos… Serena sentiu o peso dos olhares antes mesmo de descer. Quando o motorista abriu a porta, ela se obrigou a sair — ereta, educada, elegante. Como sua mãe havia ensinado. Mas por dentro? Um desespero mudo. Se fosse possível correr… ela já estaria no aeroporto. Ayla foi a próxima a descer. Linda. Serena, Kaía, Nayeli… todas herdaram dela o rosto marcante e a postura de rainha. E atrás delas, vieram os guardas, a alcateia. Homens altos. Olhares alertas. A energia densa de quem poderia se transformar em lobo a qualquer segundo. Riverwood nunca vira tantos seres sobrenaturais juntos. Era uma cidade até então composta pela espécie humana,porém todos sabiam dos seres das outras espécies, alguns até passavam pela cidade mais nenhuma espécie havia se estabelecido ali. Ayla se aproximou da filha mais velha e pousou a mão de leve nas costas dela. — Mantenha a cabeça erguida, meu amor. — A voz dela era serena, mas firme. — Não deixe que ninguém veja os seus medos. — Mãe… — Serena respirou fundo, com dificuldade. — E se ele for horrível? — Horrível ou não… — Ayla disse, olhando a distância como quem enxerga além do mundo mortal — Você é uma loba, uma Blackwolf…. você dá conta. Essas palavras só apertaram mais o peito de Serena. Enquanto funcionários retiravam malas e caixas do porta-malas, os Blackwolf avançaram para o saguão do hotel. Tudo ali exalava riqueza antiga: Tapetes vermelhos. Lustres de cristal pendurados do teto. Mármore importado. Colunas douradas. Perfume caro no ar. E claro — um silêncio absoluto. Até a recepcionista segurava a respiração. — Reservamos a cobertura inteira — disse William sem olhar ninguém nos olhos. O gerente sorriu nervoso: — S-Sim, senhor Blackwolf. Está tudo pronto. Elevadores liberados. Jantar será servido às oito. O salão foi fechado exclusivamente para sua família. Kaía cochichou para Serena: — Isso aqui parece mais capital que cidadezinha de interior. — O pai transforma qualquer lugar em capital… — Serena murmurou. Mas nada tirava o medo crescendo dentro dela. A cada passo pelo corredor luxuoso do hotel, Serena pensava: “Esse é o rumo da minha vida agora.” “E se ele for velho?” “E se ele for cruel?” “E se ele me tratar como uma compra?” Entrando na suíte, Serena finalmente respirou fundo. Mas não adiantou. A vista deslumbrante da cidade, o quarto enorme, a cama king-size, as cortinas pesadas… Nada tirava a sensação sufocante dentro dela. Ela tocou o próprio peito, tentando estabilizar a respiração. Kaía, sempre mais ousada, largou as malas no chão e se jogou na poltrona. — Ok, pode falar. O que tá rolando nessa sua cabecinha? Serena se sentou na cama, os ombros caídos. — Eu só… — Ela hesitou. — Eu só queria viver. Escolher. Conhecer alguém. Amar de verdade… e não ser vendida como se fosse parte de um acordo. Kaía ficou em silêncio por alguns segundos, o rosto mais sério do que o normal. — Serena… — ela começou devagar. — Você não foi vendida. Você foi escolhida porque é a mais forte. A mais calma. A mais estável. É a mais preparada. Serena riu sem humor. — Isso não me conforta em nada. A porta bateu atrás delas — alguém colocando malas para dentro. Ayla entrou então. O olhar dela pousou nas filhas, suave, porém carregado de mistérios antigos. — Vocês têm algumas horas antes do jantar com a família Grimwood. — Ela se aproximou de Serena, segurando seu rosto entre as mãos. — Eu sei que seu coração dói agora… mas algumas dores são o anúncio de destinos maiores. Serena desviou o olhar. — Mãe… ele vai ser velho? Ayla sorriu — triste, compreensivo, quase cruel em sua verdade. — Não, meu amor, ele é jovem , é o filho deles. — Então ele vira para o jantar? — Não está noite será para seu pai alinhar o acordo com o Elijah Grimwood. — E se a família dele me odiar? — Isso… jamais aconteceria minha filha. Serena fechou os olhos, sentindo o peso de tudo. Ayla então acariciou seus cabelos e sussurrou: — Lembre-se: o que é seu… ninguém toma. Nem a lua. Nem um homem. Nem o destino. E saiu, deixando a porta se fechar devagar. Serena encarou o próprio reflexo no espelho enorme da suíte. Pele morena. Olhos azuis flamejando medo. Cabelos soltos pelos ombros. Uma garota que deveria estar vivendo. Mas estava prestes a ser entregue. Uma lágrima desceu, silenciosa. E ela sussurrou para si mesma: — Por favor Selene… que ele não seja um monstro. Eu não sobrevivo a mais um. A noite caiu rapidamente sobre Riverwood. O jantar aconteceu como sempre acontecia quando William Blackwolf estava presente: formal, tenso e silencioso. Serena mal provou a comida. O pai falava com Elijah Grimwood como quem decide preços de gado e não o destino da própria filha. Quando tudo terminou, cada um voltou para seus quartos. O hotel-mansão silenciou. O corredor apagou. A cidade adormeceu. Até que… Serena levantou. O quarto estava escuro, iluminado apenas pelo brilho da lua entrando pela cortina. O coração dela parecia correr sem sair do lugar. Ela sentou-se na cama. Respirou fundo. E soube, na hora: Ela não ia ficar presa ali naquela madrugada. Levantou-se devagar. — Serena…? — Kaía murmurou, sonolenta. — Tá tudo bem? Serena já estava calçando a sandália quando respondeu sem olhar pra trás: — Eu vou sair. Só por algumas horas antes de ... ela não disse mais pensou “ antes da minha vida acabar” Kaía sentou na cama, cabelos bagunçados, olhos arregalados. Ela vira para Serena e fala: — Sair? Agora? — sussurrou. — Tá maluca? O pai colocou dois Deltas nos corredores! Serena amarrou o cabelo num rabo rápido, a respiração inquieta. — Eu preciso respirar, Kaía. Só isso. Se eu ficar aqui, eu sufoco. — Respirar… no meio da madrugada? — Kaía ergueu uma sobrancelha. — É isso mesmo que eu ouvi? Serena pegou a jaqueta. — Vou naquele bar que vimos chegando… o da estrada. Lembra? Kaía piscou, horrorizada. — Aquele bar? O que parecia um celeiro? Que tinha motoqueiro saindo com garrafa na mão? Serena abriu a porta só uma fresta, espiando o corredor silencioso. — É minha última noite livre. Vou usá-la. Kaía se levantou num pulo. — Nem pensar que você vai sozinha. Se você vai se encrencar, eu vou junto! Serena reprimiu um sorriso nervoso. — Anda, então. Não faz barulho. As duas caminharam pelo corredor como fugitivas profissionais: passos leves, respiração presa, olhares rápidos pros lados. Elas chegaram ao elevador. Fechado. Sem vigias. Kaía apertou o botão e sussurrou: — Se nos pegarem, a gente vai se ferrar bonito. Serena riu baixinho, pela primeira vez naquela noite. — A lua vai ter que nos salvar, então. As portas se abriram. Elas entraram. Kaía apertou o térreo. O elevador desceu suave. Quando as portas se abriram no saguão vazio, Serena sentiu um arrepio correr pela espinha — uma mistura de medo, adrenalina e libertação. Kaía puxou a irmã pela mão. — Vamos, rápido! E as duas saíram pela porta principal, engolidas pela noite quente de Riverwood. Rumo ao bar. Rumo ao destino. Rumo a noite incerta.






