Na sala de jantar da mansão Blackwolf em Costa da Lua, Serena se levantou de súbito, os punhos batendo contra a mesa com força.
— EU NÃO ACEITO ISSO!
O impacto fez as taças tremerem. O som ecoou pelo ambiente, seco, definitivo.
Serena encarou o pai com um olhar de afronta aberto, o queixo erguido, os olhos queimando de raiva e incredulidade. Pela primeira vez naquela noite, ela não desviou.
As irmãs se encolheram nos lugares. Kaía levou a mão à de Serena por instinto, tentando ancorá-la ali.
William Blackwolf permaneceu de pé, à cabeceira. Imóvel. Alfa até na respiração.
— Aceita, sim. — disse ele. — Você foi criada pra isso.
O sangue de Serena ferveu.
— Criada pra ser entregue? — a voz falhou, mas não recuou. — Pra pagar alianças com o meu corpo?
Ela virou o rosto para a mãe, o olhar já embargado, o corpo inteiro tremendo.
— Eu não quero ir pra outro país me casar com um desconhecido, mãe! — a voz saiu quebrada. — Eu não quero deixar tudo… eu não quero essa vida!
Ayla se levantou depressa, o rosto pálido.
— Serena, por favor… calma , minha filha… — tentou se aproximar.
— NÃO! — Serena puxou a mão de Kaía. — Vocês já decidiram tudo. Sempre decidem! — voltou-se para o pai, a voz mais alta. — Você já decidiu por mim antes mesmo de eu nascer!
William bateu a mão na mesa, o som seco encerrando qualquer tentativa de diálogo.
— Chega. — rosnou. — Esse casamento não é escolha. É o seu destino e ponto final!
Destino.
A palavra fechou algo dentro dela.
Serena empurrou a cadeira para trás com força, o coração disparado.
— Então vocês não precisam mais de mim aqui.
Serena ergueu o rosto e o encarou em desafio. A pele cor de canela contrastava com os cabelos longos, negros e lisos caindo pelos ombros. Os traços eram uma mistura evidente — a herança indígena da mãe marcada no rosto, equilibrada pela rigidez norte-americana do pai. Mas eram os olhos que mais gritavam: azuis, idênticos aos dele, firmes demais para alguém que se recusava a obedecer.
Virou-se antes que alguém pudesse segurá-la.
A porta do quarto bateu com força.
A noite avançou sem que Serena percebesse.
Ela não dormia.
Deitada de costas, o olhar fixo no teto escuro do quarto, contava apenas as próprias respirações. Inspirava. Expirava. Inspirava de novo. O silêncio da mansão era absoluto, quebrado apenas pelo som distante do mar e pelo respirar tranquilo de Kaía, adormecida na cama ao lado.
Kaía dormia como se o mundo estivesse em ordem.
Serena parecia calma. Por dentro, o sangue fervia.
As palavras do pai ecoavam sem parar. Destino. Tradição. Dever.
Não.
Ela não aceitava.
Virou o rosto devagar, observando a irmã. Sentiu uma pontada no peito. Não queria envolvê-la. Não queria despedidas. Não queria olhares de pena.
Foi então que a ideia veio.
Rápida. Clara. Irreversível.
Eu não vou ficar aqui parada esperando virar moeda de troca.
O corpo se moveu antes que o medo pudesse reagir. Levantou devagar, com cuidado extremo para não acordar Kaía. Pegou poucas roupas, enfiou-as numa bolsa pequena. Nenhuma lembrança. Nenhuma joia. Nada que a prendesse.
Abriu a janela.
O vento frio da madrugada tocou seu rosto como promessa.
Serena pulou.
A grama úmida amortecia os passos enquanto ela corria. O coração batia tão forte que parecia querer romper o peito. Cada metro vencido era liberdade. Cada respiração, uma vitória.
Ela já enxergava o limite da propriedade quando a noite se rasgou.
— Serena!
A voz veio da esquerda.
— Ela tá aqui! Tô vendo ela, alfa!
Lanternas se acenderam entre as árvores, cortando a escuridão.
— SERENA! — o urro do pai atravessou a mata. — Volte imediatamente para casa!
O medo virou desespero.
Ela correu.
— Em quatro patas somos mais rápidas. — a voz soou dentro dela.
Sia.
— Confia em mim.
Serena não hesitou.
A transformação veio em dor e instinto. Ossos se rearranjando, músculos queimando, sentidos explodindo. O lobo irrompeu e disparou pela floresta.
— Ela se transformou! — alguém gritou. — Transformem-se! Alcançem-na!
A caçada começou.
Serena disparou pela floresta até o corpo implorar por ar, até o mundo virar apenas cheiro, som e dor. Quando alcançou a clareira, o coração saltou e então afundou.
Lobos surgiram de todos os lados, fechando o círculo. Silenciosos. Precisos.
No centro deles, o lobo negro avançou.
O pai.
Não havia mais para onde correr.
A transformação se desfez sob o peso do cansaço e do medo.
Quando voltou à forma humana, Serena já estava sendo levada de volta.
Descalça. Suja de terra. O corpo tremendo não apenas de frio, mas da revolta crua de quem sentiu a liberdade escapar por entre os dedos. Os braços presos pelos antebraços fortes de dois homens da alcateia, como uma criminosa capturada na noite.
O pai caminhava ao lado, em silêncio. O lobo negro havia recuado, mas a presença dele ainda dominava o ar — inquestionável.
Cada passo até a mansão soava como uma sentença sendo lida em voz baixa.
Ao chegarem à varanda, Serena ergueu o rosto.
Ayla a esperava ali.
Vestia uma camisola clara, os pés descalços sobre a madeira fria. Os braços cruzados junto ao corpo não em acolhimento, mas em firmeza. O vento noturno balançava seus cabelos, e o olhar que lançou à filha não era de raiva.
Era de reprovação contida.
E de medo.
— Mãe… — Serena tentou, a voz quebrada, fraca demais para ser desafio.
Os homens a soltaram apenas quando William fez um gesto curto com a mão.
Serena quase caiu ao pisar sozinha. As pernas falharam. As lágrimas vieram fortes, quentes, incontroláveis. Não era só choro — era a frustração de quem quase tocou a liberdade.
Ayla desceu um degrau da varanda.
— Você tentou fugir. — disse, em tom baixo. Sem acusação. Sem suavidade.
Serena assentiu, soluçando.
— Eu não posso… — balançou a cabeça, o peito doendo. — Eu não posso viver assim.
Por um instante, Ayla pareceu vacilar.
Mas então respirou fundo.
E quando voltou a falar, a mãe deu lugar à mulher que carregava a verdade antiga.
— Você deve viver assim. — respondeu, firme. — É o seu destino. Esse casamento vai te salvar.
Serena ergueu o rosto, os olhos vermelhos, confusos.
— Como esse casamento vai me salvar, mãe? — a voz saiu trêmula.
— Vai te salvar da maldição que corre no nosso sangue. — Ayla respondeu, curta. Irredutível.
Serena a encarou, as lágrimas ainda escorrendo, a testa franzida enquanto perguntas se atropelavam na mente.
Ayla sustentou o olhar da filha por um instante longo demais — tempo suficiente para Serena entender que havia verdades que não seriam ditas naquela noite.
— Não temos tempo agora para falar sobre isso. — disse, cortando. — Vá para o seu quarto.
Serena obedeceu.
Subiu as escadas com o corpo pesado, cada degrau uma derrota.
Quando entrou no quarto, Kaía pulou da cama no mesmo instante.
— Serena! — correu até ela, envolvendo-a num abraço apertado. — Meu Deus, o que fizeram com você?
Serena se deixou cair nos braços da irmã.
— Eu quase consegui, Kaía… — chorou. — Eu quase consegui fugir.
Kaía a apertou com mais força, como se pudesse protegê-la do mundo inteiro.
A porta se abriu.
Ayla entrou.
O olhar percorreu as duas irmãs, detendo-se em Serena.
— Já que você não consegue aceitar o seu destino — disse, com a voz firme como sentença — não podemos mais esperar.
Serena levantou o rosto, o coração despencando.
— Mãe…
— Amanhã cedo partiremos. — Ayla interrompeu. — Preparem-se para a viagem.
O silêncio caiu pesado no quarto.
Ayla saiu.
Serena ficou ali, abraçada à irmã, entendendo tarde demais que não adiantava correr.
Ela tinha tentado.
Tinha lutado.
E mesmo assim… o destino havia sido mais rápido.