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Capítulo 2 - A herança de sangue

Na sala de jantar da mansão Blackwolf em Costa da Lua, Serena se levantou de súbito, os punhos batendo contra a mesa com força.

— EU NÃO ACEITO ISSO!

O impacto fez as taças tremerem. O som ecoou pelo ambiente, seco, definitivo.

Serena encarou o pai com um olhar de afronta aberto, o queixo erguido, os olhos queimando de raiva e incredulidade. Pela primeira vez naquela noite, ela não desviou.

As irmãs se encolheram nos lugares. Kaía levou a mão à de Serena por instinto, tentando ancorá-la ali.

William Blackwolf permaneceu de pé, à cabeceira. Imóvel. Alfa até na respiração.

— Aceita, sim. — disse ele. — Você foi criada pra isso.

O sangue de Serena ferveu.

— Criada pra ser entregue? — a voz falhou, mas não recuou. — Pra pagar alianças com o meu corpo?

Ela virou o rosto para a mãe, o olhar já embargado, o corpo inteiro tremendo.

— Eu não quero ir pra outro país me casar com um desconhecido, mãe! — a voz saiu quebrada. — Eu não quero deixar tudo… eu não quero essa vida!

Ayla se levantou depressa, o rosto pálido.

— Serena, por favor… calma , minha filha… — tentou se aproximar.

— NÃO! — Serena puxou a mão de Kaía. — Vocês já decidiram tudo. Sempre decidem! — voltou-se para o pai, a voz mais alta. — Você já decidiu por mim antes mesmo de eu nascer!

William bateu a mão na mesa, o som seco encerrando qualquer tentativa de diálogo.

— Chega. — rosnou. — Esse casamento não é escolha. É o seu destino e ponto final!

Destino.

A palavra fechou algo dentro dela.

Serena empurrou a cadeira para trás com força, o coração disparado.

— Então vocês não precisam mais de mim aqui.

Serena ergueu o rosto e o encarou em desafio. A pele cor de canela contrastava com os cabelos longos, negros e lisos caindo pelos ombros. Os traços eram uma mistura evidente — a herança indígena da mãe marcada no rosto, equilibrada pela rigidez norte-americana do pai. Mas eram os olhos que mais gritavam: azuis, idênticos aos dele, firmes demais para alguém que se recusava a obedecer.

Virou-se antes que alguém pudesse segurá-la.

A porta do quarto bateu com força.

A noite avançou sem que Serena percebesse.

Ela não dormia.

Deitada de costas, o olhar fixo no teto escuro do quarto, contava apenas as próprias respirações. Inspirava. Expirava. Inspirava de novo. O silêncio da mansão era absoluto, quebrado apenas pelo som distante do mar e pelo respirar tranquilo de Kaía, adormecida na cama ao lado.

Kaía dormia como se o mundo estivesse em ordem.

Serena parecia calma. Por dentro, o sangue fervia.

As palavras do pai ecoavam sem parar. Destino. Tradição. Dever.

Não.

Ela não aceitava.

Virou o rosto devagar, observando a irmã. Sentiu uma pontada no peito. Não queria envolvê-la. Não queria despedidas. Não queria olhares de pena.

Foi então que a ideia veio.

Rápida. Clara. Irreversível.

Eu não vou ficar aqui parada esperando virar moeda de troca.

O corpo se moveu antes que o medo pudesse reagir. Levantou devagar, com cuidado extremo para não acordar Kaía. Pegou poucas roupas, enfiou-as numa bolsa pequena. Nenhuma lembrança. Nenhuma joia. Nada que a prendesse.

Abriu a janela.

O vento frio da madrugada tocou seu rosto como promessa.

Serena pulou.

A grama úmida amortecia os passos enquanto ela corria. O coração batia tão forte que parecia querer romper o peito. Cada metro vencido era liberdade. Cada respiração, uma vitória.

Ela já enxergava o limite da propriedade quando a noite se rasgou.

— Serena!

A voz veio da esquerda.

— Ela tá aqui! Tô vendo ela, alfa!

Lanternas se acenderam entre as árvores, cortando a escuridão.

— SERENA! — o urro do pai atravessou a mata. — Volte imediatamente para casa!

O medo virou desespero.

Ela correu.

— Em quatro patas somos mais rápidas. — a voz soou dentro dela.

Sia.

— Confia em mim.

Serena não hesitou.

A transformação veio em dor e instinto. Ossos se rearranjando, músculos queimando, sentidos explodindo. O lobo irrompeu e disparou pela floresta.

— Ela se transformou! — alguém gritou. — Transformem-se! Alcançem-na!

A caçada começou.

Serena disparou pela floresta até o corpo implorar por ar, até o mundo virar apenas cheiro, som e dor. Quando alcançou a clareira, o coração saltou e então afundou.

Lobos surgiram de todos os lados, fechando o círculo. Silenciosos. Precisos.

No centro deles, o lobo negro avançou.

O pai.

Não havia mais para onde correr.

A transformação se desfez sob o peso do cansaço e do medo.

Quando voltou à forma humana, Serena já estava sendo levada de volta.

Descalça. Suja de terra. O corpo tremendo não apenas de frio, mas da revolta crua de quem sentiu a liberdade escapar por entre os dedos. Os braços presos pelos antebraços fortes de dois homens da alcateia, como uma criminosa capturada na noite.

O pai caminhava ao lado, em silêncio. O lobo negro havia recuado, mas a presença dele ainda dominava o ar — inquestionável.

Cada passo até a mansão soava como uma sentença sendo lida em voz baixa.

Ao chegarem à varanda, Serena ergueu o rosto.

Ayla a esperava ali.

Vestia uma camisola clara, os pés descalços sobre a madeira fria. Os braços cruzados junto ao corpo não em acolhimento, mas em firmeza. O vento noturno balançava seus cabelos, e o olhar que lançou à filha não era de raiva.

Era de reprovação contida.

E de medo.

— Mãe… — Serena tentou, a voz quebrada, fraca demais para ser desafio.

Os homens a soltaram apenas quando William fez um gesto curto com a mão.

Serena quase caiu ao pisar sozinha. As pernas falharam. As lágrimas vieram fortes, quentes, incontroláveis. Não era só choro — era a frustração de quem quase tocou a liberdade.

Ayla desceu um degrau da varanda.

— Você tentou fugir. — disse, em tom baixo. Sem acusação. Sem suavidade.

Serena assentiu, soluçando.

— Eu não posso… — balançou a cabeça, o peito doendo. — Eu não posso viver assim.

Por um instante, Ayla pareceu vacilar.

Mas então respirou fundo.

E quando voltou a falar, a mãe deu lugar à mulher que carregava a verdade antiga.

— Você deve viver assim. — respondeu, firme. — É o seu destino. Esse casamento vai te salvar.

Serena ergueu o rosto, os olhos vermelhos, confusos.

— Como esse casamento vai me salvar, mãe? — a voz saiu trêmula.

— Vai te salvar da maldição que corre no nosso sangue. — Ayla respondeu, curta. Irredutível.

Serena a encarou, as lágrimas ainda escorrendo, a testa franzida enquanto perguntas se atropelavam na mente.

Ayla sustentou o olhar da filha por um instante longo demais — tempo suficiente para Serena entender que havia verdades que não seriam ditas naquela noite.

— Não temos tempo agora para falar sobre isso. — disse, cortando. — Vá para o seu quarto.

Serena obedeceu.

Subiu as escadas com o corpo pesado, cada degrau uma derrota.

Quando entrou no quarto, Kaía pulou da cama no mesmo instante.

— Serena! — correu até ela, envolvendo-a num abraço apertado. — Meu Deus, o que fizeram com você?

Serena se deixou cair nos braços da irmã.

— Eu quase consegui, Kaía… — chorou. — Eu quase consegui fugir.

Kaía a apertou com mais força, como se pudesse protegê-la do mundo inteiro.

A porta se abriu.

Ayla entrou.

O olhar percorreu as duas irmãs, detendo-se em Serena.

— Já que você não consegue aceitar o seu destino — disse, com a voz firme como sentença — não podemos mais esperar.

Serena levantou o rosto, o coração despencando.

— Mãe…

— Amanhã cedo partiremos. — Ayla interrompeu. — Preparem-se para a viagem.

O silêncio caiu pesado no quarto.

Ayla saiu.

Serena ficou ali, abraçada à irmã, entendendo tarde demais que não adiantava correr.

Ela tinha tentado.

Tinha lutado.

E mesmo assim… o destino havia sido mais rápido.

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