Capítulo 03

Maria Clara olhou para o relógio. Ainda faltava muito para o jantar e ninguém havia lhe dito que não poderia explorar o solar ou o jardim. 

Saiu do quarto devagar, o corredor estava silencioso e imaginou onde estariam as crianças… talvez escondidas aprontando alguma travessura.

Quando desceu a majestosa escadaria, e então, como numa coincidência, o homem que ela tinha visto da varanda surgiu no hall.

Ele parou imediatamente, com expressão surpresa e agradavelmente intrigada.

— Você deve ser a nova babá?

A suavidade da voz o tornava ainda mais simpático.

Maria Clara piscou, igualmente surpresa. Seu rosto esquentou um pouco. O homem era bonito, tinha porte atlético, cabelos levemente bagunçados, olhos castanhos acolhedores e um sorriso espontâneo.

Com tudo que haviam dito sobre o conde como um homem severo, reservado e de modos rígidos, ela esperava encontrar alguém totalmente diferente e também mais velho, o conde devia ter trinta e cinco anos. Mas aquele ali parecia não ter mais de trinta anos e ar tão descontraído que não parecia carregar  um título de nobreza.

— Sim, senhor — confirmou.

Ele riu levemente, como se a resposta dela o divertisse.

— Sinceramente, não esperava que fosse tão jovem… e bonita.

Antes que ela pudesse reagir, ele estendeu a mão. Quando ela tocou na dele, ele inclinou-se e beijou delicadamente como um cavalheiro à moda antiga.

— É um prazer conhecê-la, senhorita. Seja muito bem-vinda ao Solar Alencastro.

Maria Clara sentiu as faces queimarem. Não sabia se pelo gesto, pelo tom gentil ou pelo olhar que ele mantinha sobre ela.

— Muito obrigada, senhor. A casa é… magnífica.

— Já conheceu as crianças? — perguntou ele, com um brilho divertido nos olhos.

— Sim. E… bem, elas são adoráveis. Só precisam de atenção.

Ele ergueu as sobrancelhas, divertido.

— Adoráveis! Espero que permaneça aqui, então. As anteriores eram senhoras rabugentas… e muito chatas. — Sorriu, abrindo o gesto com as mãos. — As crianças merecem alguém como você.

Maria Clara sentiu o coração acelerar. 

— Já que tocamos no assunto das crianças — começou ela, reunindo coragem — gostaria de conversar sobre meu método de ensino.

O sorriso dele se desfez num instante, mas não de forma grosseira, apenas surpresa.

— Senhorita… eu não entendo nada de crianças. — Ele riu, sincero. — Esse assunto deve ser discutido com meu primo.

Maria Clara piscou, confusa.

— Seu primo?

Ele pareceu achar graça.

— Acho que a senhorita está me confundindo com Álvaro. — E, com uma leve reverência, apresentou-se: — Eu sou Roberto Alencastro.

O coração dela afundou. O homem gentil, belo e simpático não era o conde.

Antes que pudesse reagir, a porta principal se abriu e um homem entrou e o ar do saguão mudou completamente.

Álvaro Alencastro surgiu com a imponência de alguém acostumado a comandar. Alto, de postura impecavelmente ereta, vestindo um terno preto que parecia feito sob medida para ressaltar a força dos ombros e a elegância fria de sua presença.

Não tinha a leveza de Roberto. Sua beleza era austera. Aristocrática. Máscula. Marcada por linhas firmes no rosto, sobrancelhas espessas, olhos escuros como a noite e uma forma de olhar que fez Maria Clara sentir como se estivesse sendo atravessada.

Sim... Aquele era o conde.

— Chegou cedo hoje, Álvaro — disse Roberto com naturalidade. — Acabei de conhecer a senhorita Duarte. Ela disse que as crianças são adoráveis e espero que fique conosco por muito tempo.

Álvaro lançou um olhar rápido para o primo e depois para Maria Clara, estudando-a com uma certa frieza. 

Roberto se virou para ela mais uma vez, inclinando ligeiramente a cabeça, mas dessa vez sem esconder a admiração em seu olhar.

— Vejo que você fez o favor de lhe dar as boas-vindas — disse o conde, com uma expressão perceptivelmente reprovadora.

— Na sua ausência, considerei meu dever. — Roberto sorriu. — E foi um grande prazer. Com licença, senhorita.

Com mais um olhar de admiração para Maria Clara, Roberto deixou o saguão.

Álvaro então voltou-se totalmente para ela. Sua presença parecia ocupar todo o espaço.

— Espero que meu primo não tenha sido inconveniente, senhorita Duarte.

Maria Clara engoliu em seco.

— O senhor Roberto… foi muito gentil.

— Naturalmente. — O conde ajeitou o paletó, sem desviar os olhos dela. — Eu deveria tê-la recebido, mas assuntos urgentes me prenderam na empresa.

— Compreendo, senhor.

Ele não estendeu a mão. Não sorriu. Apenas a observava, como se tentasse decifrá-la.

Maria Clara sentiu que estava sendo avaliada, mas algo nela fez encarar os olhos escuros dele, não como desafio, mas como alguém que não se deixava intimidar, mas com olhos gentis e sinceros.

— Acompanhe-me, senhorita — disse finalmente — É melhor conversarmos no meu escritório.

E, sem esperar resposta, virou-se e começou a andar.

Maria Clara respirou fundo e o seguiu, os passos dele firmes e silenciosos, os dela um pouco hesitantes. Sentia mais forte o peso daquele encontro e do homem que caminhava à sua frente, tão imponente quanto o solar inteiro.

Eles pararam diante de uma porta de madeira maciça, entalhada com o brasão da família Alencastro. Álvaro abriu a porta e segurou-a para que ela entrasse primeiro.

Ao entrar, Maria Clara prendeu a respiração. O escritório não era apenas um cômodo: era uma declaração. 

Móveis clássicos de madeira escura, poltronas de couro, uma estante imensa ocupando toda a parede lateral. Atrás da imponente mesa ricamente trabalhada a mão, havia um enorme quadro a óleo representando uma batalha naval do período imperial: caravelas em confronto, ondas revoltas, céu tempestuoso. Era tão grandioso quanto perturbador e de certa forma parecia ser o próprio conde.

A luz que entrava pelas janelas com vitrais coloridos. Tudo ali exalava poder, disciplina e tradição.

Tudo ali exalava Álvaro Alencastro.

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