Mundo de ficçãoIniciar sessãoAs grandes portas de madeira se abriram antes mesmo que ela pudesse bater. Uma mulher de meia-idade, postura ereta e expressão séria, mas agradável e um senhor usando um fraque preto impecável, aproximaram-se.
— Senhorita Maria Clara Duarte? — perguntou a governanta, inclinando a cabeça.
— Sim. — Ela sorriu, tentando disfarçar o nervosismo.
— Sou Doralice, governanta da casa e este é Olavo o mordomo — Seu tom era firme, mas os olhos demonstravam alívio. — Estávamos esperando por você. Entre, por favor.
— Seja bem vinda ao Solar Alencastro, senhorita. — Olavo inclinou levemente a cabeça.
Ele se aproximou para pegar a mala de Maria Clara.
— Irei providenciar que seja entregue a seus aposentos.
Olavo se afastou, deixando Maria Clara com a senhora Doralice.
A jovem atravessou o limiar da mansão e sentiu a temperatura cair ainda mais. O interior era majestoso, mas apesar de toda a riqueza, o ambiente parecia… vazio. Silencioso demais.
— O conde não está em casa — disse a governanta, caminhando à frente. — Ele passa a maior parte do tempo no escritório da empresa, na cidade. Deve retornar mais tarde, ou talvez amanhã. Nunca sabemos ao certo.
— Entendo. E as crianças?
Dona Doralice hesitou.
— São crianças boas, apenas… marcadas por tudo o que aconteceu.
Maria Clara não perguntou o que era esse "tudo". Ainda não.
— Como já deve ter sido informada, Helena tem sete anos. É uma menina muito ativa, inteligente, sensível e extremamente carente. Por isso é um pouco rebelde. — Doralice deu um suspiro. — Já Thomas tem quatro anos é um menino muito tímido, silencioso e faz tudo que a irmã manda.
Seguiram por um corredor amplo até uma sala iluminada por janelas grandes que davam para o jardim.
— Aqui é a sala das crianças — explicou a governanta. — Elas costumam passar a tarde aqui.
Assim que Maria Clara entrou, ouviu passos e cochichos. Um objeto rolou debaixo de uma mesa: um pequeno carrinho de madeira com um horrendo rato de borracha amarrado em cima, deslizou velozmente e passou a poucos centímetros de seus pés.
— Meu Deus! — exclamou ela, dando um pulo para o lado.
Uma gargalhada infantil e malandra ecoou pelos cantos da sala.
Doralice fechou os olhos.
— Crianças… por favor — pediu ela.
Maria Clara ergueu o rosto e encontrou dois pares de olhos fixos nela: curiosos, desconfiados… e provocadores.
Thomas e Helena.
Thomas tinha os cabelos louros escuros caindo de forma desalinhada sobre o rostinho redondo. As bochechas rosadas contrastavam com o olhar apagado demais para uma criança tão pequena.
Helena era formosa, com longos cachos dourados que caíam pelas costas. Mantinha o queixo erguido, a postura altiva, e os olhos escuros carregados de desafio.
— Oi — disse Maria Clara, acenando.
Helena virou-se para o irmão e falou alto o suficiente para garantir que Maria Clara escutasse:
— Aposto que essa não dura uma semana.
Thomas apenas concordou com um aceno pequeno. Os dois então dispararam, suas gargalhadas ecoando pelos corredores.
— Eles… têm sido muito difíceis desde que a condessa faleceu. — Sua voz suavizou. — Nada prende a atenção deles. E já perdemos três preceptoras só este ano.
— Eu entendo — disse com serenidade. — São apenas crianças… e crianças feridas costumam chorar de jeitos diferentes.
O olhar de Doralice suavizou.
— Venha. Ainda há muito o que mostrar.
As duas caminharam pelos corredores, as paredes eram adornadas com quadros antigos de ancestrais de expressão severa, homens de rostos soturnos, uniformes militares e mulheres rígidas como mármore.
— Esta ala é toda das crianças — explicou Doralice. — Aqui é a sala de estudos.
A sala era ampla, clara mas fria. Nada ali tinha cor infantil. As mesas grandes e sóbrias pareciam enormes demais para crianças pequenas. A única marca de modernidade destoante eram dois computadores.
— Eles fazem as aulas aqui — disse Doralice.
— Parece uma sala feita para oprimir e não aprender — murmurou para si mesma.
Mas Doralice ouviu.
— O conde… prefere as coisas assim. Ordem. Silêncio. Disciplina. Estes são os horários das crianças. — Doralice estendeu entregou uma pasta para Maria Clara.
Ela abriu e viu que as crianças tinham horário para tudo, desde o momento de acordar até dormir. Ela deixou de lado. Rígido demais, mas não comentou.
Depois as duas seguiram para outra sala.
— Aqui é a sala de música das crianças.
A sala era espaçosa com pé direito alto e grandes janelas que davam para o jardim. A mobília era escura e fria, mas no centro havia um belo piano de cauda preto.
— A senhorita veio recomendada porque também é professora de música.
— As crianças tocam?
Doralice deu um suspiro.
— Helena tem talento. A mãe dela tocava muito bem e a iniciou no piano, mas depois da morte da mãe ela perdeu o interesse.
— Entendo. — Murmurou Maria Clara.
— Mas, senhorita, preciso alertá-la. — Doralice a olhou nervosa. — Evite dar as aulas quando o conde estiver em casa, ele não gosta de ouvir o piano. Há outro salão de música, mas está lacrado, ninguém entra lá sem a permissão do conde.
— Parece que o conde é um homem muito severo.
— Ele é um bom homem, mas infelizmente a tragédia se abateu sobre ele. Venha, tenho algo para mostrar para a senhorita que tenho certeza que irá gostar.
Maria Clara seguiu Doralice até uma porta de folha dupla ricamente ornamentada com entalhes florais e símbolos sacros.
Assim que abriram, os olhos de Maria Clara brilharam.
A pequena capela do Solar Alencastro parecia um relicário preservado no tempo. Toda em madeira nobre com entalhes de colunas retorcidas, arabescos e frisos de ouro.
No altar elevado, um grande crucifixo. Ao lado, uma bela e antiga imagem de Nossa Senhora de Fátima, vinda de Portugal, nichos abrigavam imagens de santos. A luz entrava por dois vitrais e bancos de madeira maciça.
O lugar era um convite imediato à oração.
— Quando a mãe do conde morava aqui — disse Doralice em voz baixa — essas portas ficavam sempre abertas. Mas acredito que o conde não se importe que a senhorita faça suas orações aqui, desde que as mantenha assim, fechadas.
Doralice fechou as portas com cuidado.
— Ainda há muito para lhe mostrar, mas a senhorita deve estar cansada. Talvez queira tomar um banho e se trocar.
Fez um gesto para que Maria Clara a acompanhasse.
— Venha, vou levá-la aos seus aposentos.
Apesar da beleza tudo era frio demais.
Elas retornaram ao saguão principal, Doralice a guiou até o andar superior pela escada de madeira de lei majestosa.
— Os aposentos do conde ficam do lado oposto aos das crianças.
No final do corredor, uma grande porta de madeira de folha dupla com o brasão da família. Provavelmente o quarto do conde.
Elas seguiram pelo grande corredor repleto de móveis que deveriam ser de séculos e quadros antigos.
— Aqui é o quarto das crianças.
Doralice entrou e deu espaço para Maria Clara que não ficou surpresa ao ver a mobília escura e as duas camas em dossel, a única coisa que poderia dizer que aquele quarto era de duas crianças era a cor da roupa de cama e das almofadas. Uma cama era toda em rosa e a outra em azul.
Doralice caminhou pelo grande quarto acarpetado até uma porta de madeira trabalhada.
— Está porta dá acesso ao seu quarto.
Ao porta, Maria Clara se viu em um belo quarto decorado com luxo e no mesmo estilo aristocrático.
— Sugiro que a senhorita mantenha a porta de comunicação fechada durante a noite.
— Entendi.
Maria Clara suspeitava que tinha a ver com a recepção que tivera.
— Bom, vou deixá-la para se acomodar. O jantar é servido às vinte horas. — Prosseguiu Doralice. — A senhorita irá fazer as refeições na sala de jantar dos empregados. As crianças fazem as refeições no salão junto com o conde, mas o conde é muito ocupado e nem sempre está presente, então as crianças fazem as refeições na pequena sala de jantar e a senhorita que os acompanhará.
Maria clara ouvia tudo e imaginava que aquelas crianças não precisavam de disciplina e sim de atenção e afeto.
— Obrigada. — Disse apenas sem externar seus pensamentos.
Assim que Doralice saiu, Maria Clara não viu sua mala, abriu o grande guarda roupas de madeira de lei e alguém já havia arrumado cuidadosamente seus pertences.
Ela caminhou até a varanda e olhou em volta.
O solar ficava num lugar mais elevado e o grande jardim convidava para um passeio. Foi quando viu um homem alto indo em direção à entrada principal do solar. Ela só viu suas costas, e não pode deixar de notar seu porte altivo e elegante.
Imaginou que seria o conde chegando e aguardou que alguém iria chamá-la, esperou algum tempo, mas ninguém apareceu.







