Capítulo 02

As grandes portas de madeira se abriram antes mesmo que ela pudesse bater. Uma mulher de meia-idade, postura ereta e expressão séria, mas agradável e um senhor usando um fraque preto impecável, aproximaram-se.

— Senhorita Maria Clara Duarte? — perguntou a governanta, inclinando a cabeça.

— Sim. — Ela sorriu, tentando disfarçar o nervosismo. 

— Sou Doralice, governanta da casa e este é Olavo o mordomo — Seu tom era firme, mas os olhos demonstravam alívio. — Estávamos esperando por você. Entre, por favor.

 — Seja bem vinda ao Solar Alencastro, senhorita. — Olavo inclinou levemente a cabeça.

Ele se aproximou para pegar a mala de Maria Clara. 

 — Irei providenciar que seja entregue a seus aposentos.

Olavo se afastou, deixando Maria Clara com a senhora Doralice.

A jovem atravessou o limiar da mansão e sentiu a temperatura cair ainda mais. O interior era majestoso, mas apesar de toda a riqueza, o ambiente parecia… vazio. Silencioso demais.

— O conde não está em casa — disse a governanta, caminhando à frente. — Ele passa a maior parte do tempo no escritório da empresa, na cidade. Deve retornar mais tarde, ou talvez amanhã. Nunca sabemos ao certo.

— Entendo. E as crianças? 

Dona Doralice hesitou. 

— São crianças boas, apenas… marcadas por tudo o que aconteceu.

Maria Clara não perguntou o que era esse "tudo". Ainda não.

— Como já deve ter sido informada, Helena tem sete anos. É uma menina muito ativa, inteligente, sensível e extremamente carente. Por isso é um pouco rebelde. — Doralice deu um suspiro. — Já Thomas tem quatro anos é um menino muito tímido, silencioso e faz tudo que a irmã manda.

Seguiram por um corredor amplo até uma sala iluminada por janelas grandes que davam para o jardim. 

— Aqui é a sala das crianças — explicou a governanta. — Elas costumam passar a tarde aqui. 

Assim que Maria Clara entrou, ouviu passos e cochichos. Um objeto rolou debaixo de uma mesa: um pequeno carrinho de madeira com um horrendo rato de borracha amarrado em cima, deslizou velozmente e passou a poucos centímetros de seus pés.

— Meu Deus! — exclamou ela, dando um pulo para o lado.

Uma gargalhada infantil e malandra ecoou pelos cantos da sala.

Doralice fechou os olhos.

— Crianças… por favor — pediu ela.

Maria Clara ergueu o rosto e encontrou dois pares de olhos fixos nela: curiosos, desconfiados… e provocadores.

Thomas e Helena.

Thomas tinha os cabelos louros escuros caindo de forma desalinhada sobre o rostinho redondo. As bochechas rosadas contrastavam com o olhar apagado demais para uma criança tão pequena. 

Helena era formosa, com longos cachos dourados que caíam pelas costas. Mantinha o queixo erguido, a postura altiva, e os olhos escuros carregados de desafio.

— Oi — disse Maria Clara, acenando.

Helena virou-se para o irmão e falou alto o suficiente para garantir que Maria Clara escutasse:

— Aposto que essa não dura uma semana.

Thomas apenas concordou com um aceno pequeno. Os dois então dispararam, suas gargalhadas ecoando pelos corredores.

— Eles… têm sido muito difíceis desde que a condessa faleceu. — Sua voz suavizou. — Nada prende a atenção deles. E já perdemos três preceptoras só este ano.

— Eu entendo — disse com serenidade. — São apenas crianças… e crianças feridas costumam chorar de jeitos diferentes.

O olhar de Doralice suavizou. 

— Venha. Ainda há muito o que mostrar. 

As duas caminharam pelos corredores, as paredes eram adornadas com quadros antigos de ancestrais de expressão severa, homens de rostos soturnos, uniformes militares e mulheres rígidas como mármore. 

— Esta ala é toda das crianças — explicou Doralice. — Aqui é a sala de estudos.

A sala era ampla, clara mas fria. Nada ali tinha cor infantil. As mesas grandes e sóbrias pareciam enormes demais para crianças pequenas. A única marca de modernidade destoante eram dois computadores.

— Eles fazem as aulas aqui — disse Doralice.

— Parece uma sala feita para oprimir e não aprender — murmurou para si mesma.

Mas Doralice ouviu.

— O conde… prefere as coisas assim. Ordem. Silêncio. Disciplina. Estes são os horários das crianças. — Doralice estendeu entregou uma pasta para Maria Clara.

Ela abriu e viu que as crianças tinham horário para tudo, desde o momento de acordar até dormir. Ela deixou de lado. Rígido demais, mas não comentou.

Depois as duas seguiram para outra sala.

— Aqui é a sala de música das crianças.

A sala era espaçosa com pé direito alto e grandes janelas que davam para o jardim. A mobília era escura e fria, mas no centro havia um belo piano de cauda preto.

— A senhorita veio recomendada porque também é professora de música.

— As crianças tocam?

Doralice deu um suspiro.

— Helena tem talento. A mãe dela tocava muito bem e a iniciou no piano, mas depois da morte da mãe ela perdeu o interesse.

— Entendo. — Murmurou Maria Clara.

— Mas, senhorita, preciso alertá-la. — Doralice a olhou nervosa. — Evite dar as aulas quando o conde estiver em casa, ele não gosta de ouvir o piano. Há outro salão de música, mas está lacrado, ninguém entra lá sem a permissão do conde.

— Parece que o conde é um homem muito severo.

— Ele é um bom homem, mas infelizmente a tragédia se abateu sobre ele. Venha, tenho algo para mostrar para a senhorita que tenho certeza que irá gostar.

Maria Clara seguiu Doralice até uma porta de folha dupla ricamente ornamentada com entalhes florais e símbolos sacros.

Assim que abriram, os olhos de Maria Clara brilharam.

A pequena capela do Solar Alencastro parecia um relicário preservado no tempo. Toda em madeira nobre com entalhes de colunas retorcidas, arabescos e frisos de ouro. 

No altar elevado, um grande crucifixo. Ao lado, uma bela e antiga imagem de Nossa Senhora de Fátima, vinda de Portugal, nichos abrigavam imagens de santos. A luz entrava por dois vitrais e bancos de madeira maciça.

O lugar era um convite imediato à oração.

— Quando a mãe do conde morava aqui — disse Doralice em voz baixa — essas portas ficavam sempre abertas. Mas acredito que o conde não se importe que a senhorita faça suas orações aqui, desde que as mantenha assim, fechadas.

Doralice fechou as portas com cuidado.

— Ainda há muito para lhe mostrar, mas a senhorita deve estar cansada. Talvez queira tomar um banho e se trocar.

Fez um gesto para que Maria Clara a acompanhasse.

— Venha, vou levá-la aos seus aposentos.

Apesar da beleza tudo era frio demais.

Elas retornaram ao saguão principal, Doralice a guiou até o andar superior pela escada de madeira de lei majestosa.

— Os aposentos do conde ficam do lado oposto aos das crianças.

No final do corredor, uma grande porta de madeira de folha dupla com o brasão da família. Provavelmente o quarto do conde.

Elas seguiram pelo grande corredor repleto de móveis que deveriam ser de séculos e quadros antigos.

— Aqui é o quarto das crianças.

Doralice entrou e deu espaço para Maria Clara que não ficou surpresa ao ver a mobília escura e as duas camas em dossel, a única coisa que poderia dizer que aquele quarto era de duas crianças era a cor da roupa de cama e das almofadas. Uma cama era toda em rosa e a outra em azul.

Doralice caminhou pelo grande quarto acarpetado até uma porta de madeira trabalhada. 

— Está porta dá acesso ao seu quarto. 

Ao porta, Maria Clara se viu em um belo quarto decorado com luxo e no mesmo estilo aristocrático.

— Sugiro que a senhorita mantenha a porta de comunicação fechada durante a noite.

— Entendi. 

Maria Clara suspeitava que tinha a ver com a recepção que tivera.

— Bom, vou deixá-la para se acomodar. O jantar é servido às vinte horas. — Prosseguiu Doralice. — A senhorita irá fazer as refeições na sala de jantar dos empregados. As crianças fazem as refeições no salão junto com o conde, mas o conde é muito ocupado e nem sempre está presente, então as crianças fazem as refeições na pequena sala de jantar e a senhorita que os acompanhará.

Maria clara ouvia tudo e imaginava que aquelas crianças não precisavam de disciplina e sim de atenção e afeto.

— Obrigada. — Disse apenas sem externar seus pensamentos.

Assim que Doralice saiu, Maria Clara não viu sua mala, abriu o grande guarda roupas de madeira de lei e alguém já havia arrumado cuidadosamente seus pertences.

Ela caminhou até a varanda e olhou em volta. 

O solar ficava num lugar mais elevado e o grande jardim convidava para um passeio. Foi quando viu um homem alto indo em direção à entrada principal do solar. Ela só viu suas costas, e não pode deixar de notar seu porte altivo e elegante.

Imaginou que seria o conde chegando e aguardou que alguém iria chamá-la, esperou algum tempo, mas ninguém apareceu.

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