Mundo de ficçãoIniciar sessãoEle caminhou até a mesa e fez um gesto breve, porém educado.
— Sente-se, senhorita Duarte.
Maria Clara sentou-se na poltrona de couro. As mãos repousaram no colo, tentando disfarçar o nervosismo.
Álvaro acomodou-se em sua imponente cadeira, recostando-se com naturalidade e permaneceu olhando para ela por um instante longo demais.
— Estou feliz em recebê-la — disse por fim, com a voz grave e surpreendentemente suave. — Não esperava que a madre enviasse alguém tão jovem. Mas ela me deu excelentes recomendações sobre a senhorita.
Maria Clara respirou fundo.
— Com todo respeito, senhor, eu tenho vinte e cinco anos. Trabalho com crianças desde minha adolescência.
Ele a estudou, claramente surpreso.
— Vinte e cinco? — murmurou, inclinando levemente a cabeça. — A senhorita aparenta menos. Ainda assim, é muito jovem para lidar com os meus filhos. Eles precisam mais do que uma professora… precisam de formação completa: idiomas, comportamento, disciplina. A senhorita é habilitada em espanhol, inglês, francês… e etiqueta.
— Sim, senhor. — Ela ergueu o queixo com convicção. — Tenho certeza de que darei o meu melhor para que eles tenham um aprendizado de excelência. Eu amo ensinar. E amo ainda mais crianças.
A resposta pareceu despertar nele uma reação imediata.
— Meus filhos precisam muito mais do que amor — retrucou ele, frio. — Precisam de disciplina, obediência e educação.
Maria Clara arregalou discretamente seus já grandes olhos verde esmeralda.
— Com todo respeito, senhor conde… crianças amadas aprendem melhor. Sentem-se seguras e mais receptivas.
Ele franziu o cenho, como quem ouve pela primeira vez alguém respondê-lo.
— Não precisa me chamar de “conde”. — O tom foi firme, mas sem rudeza. — Só tolero esse tratamento por insistência dos meus pais que exigem que os empregados me chame assim. Da senhorita não é necessário.
— Como desejar, senhor — respondeu ela. — Sobre a educação das crianças… eu gostaria de solicitar algumas mudanças na sala de estudo.
A expressão dele se fechou lentamente.
— Por quê? Aquele ambiente é o mesmo há décadas. Eu mesmo estudei naquela sala.
— E com todo respeito — contrapôs Maria Clara, com coragem que ela nem sabia que tinha — não é um ambiente ideal para crianças tão pequenas. Elas precisam de estímulos, de cores, de materiais próprios infantis.
Ele entrelaçou as mãos sobre a mesa, estreitando os olhos.
— Vou pensar. Por enquanto, ficará como está.
— Senhor — insistiu ela, mantendo a voz respeitosa, porém firme — eu sei que as outras professoras seguiram o que o senhor considerava adequado. Mas eu quero fazer o que é melhor para as crianças.
Álvaro a encarou como se tentasse decidir se ela estava, de fato, ousando desafiá-lo. Um sorriso leve, surgiu no canto de sua boca, o primeiro desde que ela o viu. E ela achou estranhamente charmoso.
— A senhorita já conheceu meus filhos. Eles são indisciplinados. Se não for dura com eles, nunca conseguirá controlá-los. Talvez a senhorita não saiba, mas em minha família aprendemos desde do berço a obediência e a disciplina. Que devemos manter silêncio e respeito diante dos mais velhos e que pessoas de nossa classe não correm, não gritam e nem choram em público e meus filhos fazem exatamente o contrário. Acha que consegue mudar isso sem disciplinas rígidas?
Maria Clara endireitou-se na poltrona.
— Talvez sejam justamente os métodos duros que fizeram as outras irem embora tão rápido e não conseguirem educar as crianças adequadamente .
Álvaro se inclinou um pouco para a frente, com os olhos escuros fixos nos dela, permaneceu imóvel por alguns segundos, como se precisasse processar a ousadia daquela jovem que acabara de ouvir.
O silêncio era tão intenso que Maria Clara quase pôde ouvir o próprio coração bater rápido demais, forte demais.
— Então a senhorita acredita… — disse ele lentamente, cada palavra carregada de ironia controlada — que entende meus filhos melhor do que eu?
Maria Clara respirou fundo. Sabia que qualquer palavra dita ali, naquele instante, moldaria a forma como ele a enxergaria dali em diante.
E, estranhamente, ela sentiu uma chama acesa dentro de si, uma coragem que não costumava ter, mas que aquele homem despertava de um jeito inexplicável.
— Senhor, eu jamais ousaria dizer que entendo melhor — respondeu ela, com gentileza firme. — Mas entendo crianças. É meu trabalho e minha vocação.
O olhar de Álvaro escureceu ainda mais, como se algo dentro dele tivesse sido tocado, algo que ele preferia manter enterrado.
— Vocação? — repetiu, quase num sussurro. — Acredita, então, que consegue mudar o que ninguém conseguiu?
Maria Clara sentiu um frio na espinha, mas manteve o tom tranquilo.
— Não acredito que seja impossível. Só acredito que ninguém tentou da maneira certa.
Álvaro ergueu lentamente o queixo, e por um breve instante, sua expressão endureceu para algo mais sombrio.
— A senhorita fala com muita convicção para alguém que chegou agora — disse ele, frio. — E ousa questionar métodos que funcionaram durante gerações da minha família.
— Há métodos que funcionam — respondeu ela, sem elevar a voz — mas isso não significa que são os melhores.
Ele ficou completamente imóvel, era como um lobo avaliando se aquela pequena loba diante dele era uma ameaça… ou uma criatura interessante demais para ser ignorada.
— A senhorita não tem ideia… — murmurou ele, a voz baixa, quase perigosa — de com quem está lidando.
— Sei muito bem com quem estou lidando — disse Maria Clara, com um sorriso suave que o desarmou por um segundo. — O senhor é um pai que quer o melhor para os filhos. Então, no fundo, estamos do mesmo lado.
A respiração dele falhou, imperceptivelmente, mas falhou.
Maria Clara percebeu.







