Mundo ficciónIniciar sesión*Ana
A segunda-feira começou antes mesmo do nascer do sol. Eu mal tinha dormido. Passei boa parte da madrugada estudando para as provas da faculdade de Direito. Mesmo exausta, cheguei à Nexus no horário de sempre. Assim que entrei na sala, Andréas já estava de pé, andando de um lado para o outro. Era raro vê-lo assim. Ele olhava o relógio a cada poucos segundos, conferia documentos, pedia alterações e mudava a ordem das apresentações. — Ana, confirme se todos os investidores chegaram. — Sim, senhor. — O projetor foi testado? — Foi. — As pastas estão organizadas? — Estão. — A sala principal? — Pronta. Ele respirou fundo. — Não podemos errar hoje. Passei a manhã inteira correndo. Quando os investidores chegaram, tudo parecia perfeito. A reunião começou. Andréas iniciou a apresentação com sua presença magnética de sempre. Eu permaneci ao lado, anotando tudo. Depois de quase uma hora, ele fez uma pausa e olhou discretamente para mim. — Os cafés. Fui até a cantina, coloquei todos os copos em uma bandeja grande e respirei fundo. A mulher da cantina avisou que mandou quatro a mais, para caso alguém quisesse. “Dessa vez vai dar certo.” Voltei para a sala e comecei a servir calmamente. Todos receberam seus cafés sem problema. Meu coração relaxou. Restavam apenas Andréas e quatro copos extras. Aproximei-me dele. No instante em que estendi o primeiro, meu salto encontrou uma irregularidade no tapete. A bandeja inclinou. Os quatro copos deslizaram ao mesmo tempo e viraram sobre ele. Café escorria pelo cabelo, camisa, paletó, gravata e cadeira. A sala inteira ficou em silêncio absoluto. Depois, risadas começaram a escapar de alguns investidores. Andréas permaneceu imóvel por alguns segundos, incrédulo. — Quatro? — perguntou, a voz baixa e perigosa. — Você… conseguiu derramar quatro? Ele abriu os braços, olhando para a bagunça. — COMO? Tirou o paletó lentamente, com aquela elegância natural que só aumentava o ridículo da situação. — Eu realmente gostaria de entender. Você passou por todos eles. Nenhuma gota. Chega em mim e resolve despejar uma cafeteria inteira. Meu rosto queimava. — Senhor… — Não! — cortou ele. — Eu já entendi que você tem atração em me deixar molhado. Não aguentei e comecei a rir. Ele continuou, a voz mais baixa. — Eu me pergunto se contratei uma secretária ou um acidente ambulante. Larguei a bandeja e corri para o banheiro. Chorei por vários minutos, lavei o rosto e tentei me recompor. Eu sou um desastre, me admira ele ainda não ter me demitido. — Só mais um dia… Saí e fui até o bebedouro. Minhas mãos ainda tremiam quando enchi um copo de água. Andréas apareceu no corredor, já com outra camisa. Parou diante de mim. No mesmo instante, minha mão escorregou. A água caiu inteira sobre a camisa limpa dele. Andréas fechou os olhos por cinco longos segundos. — Água — murmurou, quase sem emoção. — Agora água. — Eu não… — Não fala. Por favor. Não fala. — Ele ergueu a mão, cansado, mas com um brilho debochado nos olhos. — Existe algum líquido neste planeta que você consiga manter dentro de um recipiente? — Pelo visto não... e juro que não é porque eu quero. — Sei... Volte ao trabalho. O resto do expediente foi um martírio. Quando finalmente deu o horário de ir embora, peguei minha bolsa e fui para o estacionamento. Meu carro velho se recusou a ligar. Apoiei a testa no volante, as lágrimas voltando. INFERNOOOOOOOOII Foi então que ouvi o ronco de um motor potente. Uma Ferrari vermelha parou ao lado. A janela desceu. Andréas. — Não pegou? — Não. Ele saiu do carro e tentou dar partida no meu. Nada. Fechou a porta. — A bateria morreu. Entre. O guincho busca seu carro amanhã. Hesitei. — Não precisa… — Não foi um pedido, Ana. Acabei cedendo. Entrei na Ferrari. O banco de couro era absurdamente confortável. O silêncio dentro do carro era denso. Depois de alguns minutos, ele quebrou o gelo: — Onde você mora? — Astoria, no Queens. Ele assentiu e mudou o trajeto no GPS. Alguns quarteirões depois, perguntou novamente, a voz mais suave: — Você sempre vai embora tão tarde? — Quase sempre. — Por quê? Sorri sem humor. — Porque o senhor costuma me dar trabalho suficiente para duas pessoas. Ele soltou uma risada baixa. — Justo. — Fez uma pausa curta. — E quando não está aqui? O que você faz da vida, Ana? Olhei para ele, surpresa com o interesse genuíno. — Estudo. — Faculdade de Direito? — perguntou, virando o rosto brevemente na minha direção. — Sim. Último semestre... estou no último mês na verdade. Seus olhos se demoraram um segundo a mais em mim antes de voltar para a rua. — Por que Direito? — Porque eu quero fazer diferença. Quero trabalhar com justiça de verdade… talvez como promotora ou defensora pública. Ele ficou em silêncio por um momento, como se estivesse absorvendo. — Então ser minha secretária nunca foi o plano. — Nem de longe. — respondi, rindo baixinho. Andréas sorriu de lado, um sorriso raro e charmoso que fez algo apertar no meu peito. — E como você consegue conciliar tudo? Faculdade, trabalho… parece exaustivo. — É. Meu pai morreu quando eu era adolescente. Minha mãe faz faxina até hoje. Eu pago a faculdade sozinha: mensalidade, livros, transporte. Às vezes sobra, às vezes não. Mas estou quase lá. Ele apertou o volante levemente, a voz mais baixa: — Você é mais forte do que demonstra, não é? O tom dele, combinado com o olhar rápido que me lançou, criou uma onda de calor dentro do carro. Estávamos próximos no espaço confinado da Ferrari. O ar parecia rarefeito. — E você? — devolvi a pergunta, tentando disfarçar o nervosismo. — O que faz quando não está comandando o mundo? Ele riu suavemente. — Trabalho quase sempre. Meu pai morreu há dois anos. Só tenho a minha minha mãe, mas não somos tão próximos. Basicamente a empresa virou minha vida. — Não tem ninguém? Família, amigos… namorada? Ele negou com a cabeça. — Poucos amigos. E namorada… nunca foi prioridade. Virou o rosto para mim novamente. Nossos olhares se encontraram por vários segundos. A intensidade era palpável. Meu coração batia forte. — Deve ser solitário. — murmurei. — Às vezes é — admitiu ele, a voz rouca. — Mas ultimamente tenho tido… distrações interessantes. O duplo sentido pairou no ar. Senti meu rosto esquentar. Ele sorriu de leve, quase provocador, antes de voltar os olhos para a rua. Quando paramos em frente ao meu prédio, o clima dentro do carro estava carregado. Andréas desligou o motor. Nenhum de nós se moveu. — Obrigada pela carona — falei baixinho — Agora tenho mais uma batalha espiritual na faculdade e uma prova maldita. Ele virou o corpo na minha direção e sorriu. Estávamos muito próximos. Ele esticou a mão e, com o polegar, limpou gentilmente uma lágrima seca da minha bochecha. O toque foi quente, lento. Meu corpo inteiro reagiu. — Ana boa prova e… — murmurou, a voz grave. Seus olhos desceram até meus lábios por um instante antes de voltarem aos meus. — Durma mais. Chegar exausta não ajuda ninguém. Nem você… nem meus ternos. Sorri, ainda sentindo o calor do toque. — Vou tentar. Boa noite, senhor. — Boa noite, Ana. Saí da Ferrari. Enquanto caminhava até o prédio, senti o carro parado, os faróis ainda iluminando minhas costas. Só quando entrei no edifício ele arrancou devagar. ... Cheguei ao apartamento, ainda com o coração acelerado e o toque dele queimando na pele. Tomei um banho rápido, vesti uma camiseta larga e me sentei à mesa com os livros de Direito abertos. Eram quase duas da manhã, mas eu precisava revisar mais um capítulo. Meu celular vibrou. I*******m. *andreas.albuquerque* enviou uma mensagem. Abri com um sorriso inevitável. *Andréas Albuquerque:* “Chegou em casa sem derrubar nada no caminho? Estou genuinamente impressionado. Caso sinta vontade de praticar, tenho uma garrafa de água na minha mesa amanhã. Pode treinar mira em mim de novo. Prometo não reclamar… muito. Boa noite, desastre.” Ri sozinha no silêncio do apartamento e respondi: *Ana Mendes:* “Pode deixar a garrafa. Vou treinar a noite inteira só para te surpreender amanhã. Dica: use roupa escura. Esconde melhor as manchas. Boa noite, chefe à prova d’água.” Deixei o celular de lado, ainda sorrindo, e voltei para os livros. O cansaço continuava, mas pela primeira vez em muito tempo, estudar não parecia tão solitário. Andréas Albuquerque estava oficialmente invadindo meus pensamentos... e não era de um jeito ruim.






