Desastre favorito

Na manhã seguinte, cheguei à Nexus carregando um pacote. Assim que entrei na sala, Andréas levantou os olhos do notebook.

— O que é isso?

Coloquei o pacote sobre minha mesa, tentando disfarçar o sorriso.

— Descubra. E não, não tem café dentro.

Ele arqueou uma sobrancelha, claramente desconfiado.

— Você prometeu a mesma coisa no dia em que derramou água em mim.

— Dessa vez é sério.

Ele abriu o embrulho com cuidado. Dentro havia uma caneca de porcelana preta com letras douradas: “Sobrevivi a mais uma semana com minha secretária.”

Andréas ficou olhando em silêncio. Depois veio a risada — genuína, baixa, gostosa. Eu nunca tinha ouvido ele rir daquele jeito. Foi… perigoso.

Ele virou a caneca e leu o verso:

“Recorde atual: 7 banhos involuntários.”

— Você contou?

— Fiz uma planilha com data, horário e tipo de líquido. Sou organizada, senhor.

Ele balançou a cabeça, ainda sorrindo.

— Claro que fez. Você é a única pessoa no mundo capaz de transformar meus ternos arruinados em estatística.

— E ainda assim você continua me contratando.

— Estou começando a suspeitar que gosto do perigo.

O olhar que ele me lançou durou um segundo a mais do que o necessário. Meu estômago revirou.

...

No horário do almoço, ele saiu e voltou minutos depois com uma sacola. Colocou sobre minha mesa.

— Agora é minha vez.

Abri. Dentro havia uma garrafa térmica rosa com a frase: “Este recipiente foi aprovado pelo CEO. Conteúdo não garantido.”

Comecei a rir alto.

— O senhor mandou personalizar outra?

— Achei justo. Se vamos continuar nessa guerra, pelo menos que seja elegante.

— Então agora estamos em guerra?

Ele se inclinou um pouco sobre a mesa, a voz mais baixa e provocadora:

— Não. Estamos empatados. E eu estou gostando demais desse empate.

...

Durante a tarde, o clima na empresa mudou. Os funcionários começaram a reparar. Um diretor entrou, olhou para as duas canecas e depois para nós.

— Posso fazer uma pergunta?

— Não — respondeu Andréas, sem levantar os olhos.

O homem ignorou.

— Vocês dois estão brigando ou… viraram amigos?

Olhamos um para o outro ao mesmo tempo.

— Não sei — falamos juntos.

E rimos. O diretor saiu confuso. Eu fiquei com o rosto quente.

...

No final do expediente, Andréas fechou o notebook.

— Preciso passar no supermercado. Acredite ou não, bilionários também ficam sem papel higiênico.

— Essa informação destruiu minha visão de mundo.

— Eu sabia que ia.

Ele pegou as chaves.

— Seu carro ainda está na oficina. Venha.

No mercado, peguei um carrinho. Ele tentou protestar, mas desistiu quando viu que eu já estava empurrando. Era estranho e… bom. Vê-lo em um lugar comum, escolhendo tomates, franzindo a testa para o rótulo de molho.

— O senhor não sabe cozinhar. — constatei.

— Nunca precisei. Sempre teve alguém.

Peguei outro pacote de macarrão e coloquei no carrinho.

— Esse aqui é melhor. Confie em mim. Pelo menos nisso eu não derrubo nada.

Ele soltou uma risada baixa.

— Vou anotar isso.

Quando chegamos no corredor de limpeza, peguei três detergentes diferentes e levantei na frente dele.

— Qual tira melhor mancha de café?

Andréas olhou para mim, depois para os produtos, e começou a rir tão alto que algumas pessoas viraram.

— Você não perde uma oportunidade, não é?

— Nunca. É uma questão de sobrevivência profissional.

No caixa, a atendente reconheceu Andréas e ficou nervosa.

— O senhor… é o Andréas Albuquerque?

— Sou.

Ela olhou para mim e depois para ele.

— Sua esposa?

Nós dois respondemos ao mesmo tempo, um pouco alto demais:

— Não.

A moça ficou vermelha. Andréas sorriu de lado, olhando para mim.

— Ainda não.

A frase ficou no ar. Meu coração deu um salto ridículo.

...

Já era noite quando ele colocou as compras no porta-malas. Eu o observava, encostada na Ferrari.

— O quê? — perguntou.

— O senhor é diferente daqui de fora.

— Melhor ou pior?

— Mais ser humano.

Ele encostou no carro, os olhos verdes iluminados pelos postes.

— Você também. No escritório fica o tempo todo preocupada em acertar. Aqui… você ri de qualquer bobagem. E eu acho que gosto mais dessa versão.

O ar entre nós ficou denso. Um vento frio passou. Sem pensar muito, ele tirou o próprio casaco e colocou sobre meus ombros. Os dedos dele roçaram meu pescoço. Ficamos próximos demais. Eu sentia o calor do corpo dele e o cheiro da colônia misturado com a noite.

— Ana… — murmurou, a voz baixa.

Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele ouvia. Por um segundo, o mundo inteiro pareceu parar. Ele se inclinou um centímetro… Um carro buzinou atrás. Nós nos afastamos ao mesmo tempo, rindo nervosos.

Ele abriu a porta para mim.

— Vamos. Antes que eu faça alguma besteira no estacionamento de um supermercado.

Durante o caminho até minha casa, nenhum de nós falou sobre o quase. Mas os dois sabiam. Aquela distância de chefe e secretária estava desaparecendo, devagar e perigosamente.

...

Mais tarde, em casa, depois de guardar as coisas e me sentar com os livros, o celular vibrou.

*andreas.albuquerque:*

“Chegou em casa sem derramar nada?

Estou genuinamente preocupado com a integridade dos meus ternos amanhã.

Caso precise de treinamento noturno de equilíbrio, avise.

Tenho disponibilidade… e casacos extras.

Boa noite, desastre favorito.”

Sorri sozinha e respondi:

*Ana Mendes:*

“Cheguei seca, obrigada.

Mas se eu derramar café amanhã, a culpa vai ser do casaco.

Ele me distraiu demais.

Boa noite, senhor à prova d’água (quase).”

Deixei o celular de lado, ainda sorrindo. A guerra de canecas e detergentes estava se tornando a melhor parte dos meus dias.

...

A quinta-feira começou tranquila.

Pela primeira vez desde que fui contratada, entrei na sala de Andréas sem a sensação de que alguma tragédia aconteceria nos próximos cinco minutos.

Deixei a agenda sobre a mesa.

— Reunião às nove. Conferência com Londres às dez. Almoço com o conselho ao meio-dia.

Ele assentiu, sem levantar os olhos do computador.

— Obrigado.

Pisquei.

— O senhor… disse “obrigado”?

Andréas ergueu o olhar lentamente, com uma expressão de quem estava sendo acusado de um crime.

— Eu disse.

— Está doente? Posso chamar um médico. Ou um exorcista.

Ele soltou uma risada baixa.

— Ainda não. Mas continue provocando e quem sabe.

Abri uma gaveta e peguei uma caneta.

— Anotei. Dia histórico: Andréas Albuquerque agradece. Vou emoldurar.

Ele abriu outra gaveta e tirou uma folha impressa.

— Antes de emoldurar qualquer coisa, avalie isto.

Recebi o papel. No topo, em letras grandes e oficiais:

PROTOCOLO DE PREVENÇÃO DE ACIDENTES LÍQUIDOS

Olhei para ele. Depois para a folha. Depois para ele de novo.

— O senhor perdeu completamente a noção da realidade.

— Leia.

Comecei:

*Item 1:*A secretária deverá permanecer a uma distância mínima de dois metros do CEO quando estiver carregando qualquer líquido.

Levantei os olhos.

— Dois metros? O senhor quer que eu grite as informações daqui?

— É uma margem de segurança. Estatística a meu favor.

*Item 2:* É proibido correr segurando café.

— Justo. Eu mesma apoiei esse.

*Item 3:* Antes de entrar na sala, a secretária deverá anunciar: “Estou entrando com líquido.”

Não consegui continuar. Caí na gargalhada.

— Isso é ridículo.

Ele manteve a cara séria, mas o canto da boca já tremia.

— Ainda não terminou.

*Item 4:* Em caso de acidente, manter a calma.

*Item 5:* Nunca dizer “Foi sem querer”, pois essa informação já é de conhecimento geral.

Levei a mão ao rosto.

— Eu odeio o senhor.

Ele sorriu, aquele sorriso lento e perigoso.

— Não odeia. Você só está ofendida porque o protocolo é justo.

Peguei a caneta e escrevi no final:

*Item 6:* O CEO deve parar de comprar camisas brancas. É tentação desnecessária.

Entreguei a folha. Ele leu, pegou a caneta e escreveu embaixo:

*Item recusado. Camisas brancas são direitos humanos.*

— Ditadura corporativa.

— Exatamente. E você ainda está de aviso prévio por insubordinação.

...

Mais tarde, um diretor entrou na sala pedindo assinaturas. Antes de sair, viu o formulário sobre a mesa e leu o título.

— Isso… existe mesmo?

Respondemos ao mesmo tempo:

— Existe porque alguém é dramático.

— Existe porque alguém é desastrada.

O homem olhou para nós dois, confuso.

— Vocês parecem um casal de idosos discutindo sobre o controle remoto.

O silêncio foi instantâneo.

Eu e Andréas nos encaramos. Depois olhamos lentamente para o diretor.

Ele percebeu o que tinha dito.

— Eu… vou embora agora mesmo.

Saiu quase correndo. Assim que a porta fechou, os dois começamos a rir.

— Casal de idosos? — perguntei, ainda rindo.

— Acho ofensivo.

— Pela idade ou pelo casal?

Ele me olhou de cima a baixo, demorado.

— Pelos dois. Mas principalmente porque idosos não têm a química que a gente tem.

Meu estômago deu um salto.

Ele percebeu e apenas sorriu de lado, como se tivesse ganhado o ponto.

...

No fim da tarde, eu organizava contratos na estante mais alta. Subi na escadinha, estiquei o braço…

— Quase…

Meu pé escorregou.

— Ai!

Antes que eu caísse, duas mãos firmes seguraram minha cintura. Olhei para baixo. Andréas estava bem ali, o rosto quase na altura do meu peito, os olhos verdes fixos nos meus.

— Você realmente gosta de desafiar a gravidade — murmurou, a voz baixa e rouca.

— Acho que ela gosta de me desafiar primeiro.

Ele não me soltou. Os dedos apertaram levemente minha cintura.

— Já terminou de guardar?

— Ainda não.

— Então termine. Prefiro te segurar a preencher um relatório de acidente de trabalho… ou pior, ter que comprar outra camisa.

Guardei a pasta. Quando meus pés tocaram o chão, continuamos próximos demais. O perfume dele invadiu meus sentidos. Eu podia sentir o calor das mãos dele ainda na minha cintura.

— Obrigada — falei, quase sem voz.

Ele sorriu de canto, sem se afastar.

— Está vendo? Hoje salvei você duas vezes.

— Duas?

— A primeira foi da queda. A segunda… — olhou para a caneca de café na minha mesa — foi de você mesma.

Caí na gargalhada. Ele riu junto, a mão ainda descansando na minha cintura por mais alguns segundos.

— Ana… — disse ele, sério de repente.

— Hum?

— Se um dia eu chegar aos oitenta anos…

— Sim?

— Ainda vou desconfiar de qualquer pessoa se aproximando de mim com uma xícara.

Sorri, inclinando a cabeça.

— Prometo que, quando o senhor tiver oitenta… eu derramo chá. Café pode ser forte demais nessa idade.

Ele ficou em silêncio por dois segundos. Depois começou a rir — alto, sincero, impossível de conter. Eu ri junto.

Do lado de fora, duas analistas se entreolharam.

— Você ouviu isso?

— O Andréas… rindo.

— Deve ser inteligência artificial. Ou o apocalipse.

Dentro da sala, nós nem percebemos. Continuávamos rindo como duas pessoas que, sem notar, já tinham transformado uma sequência absurda de acidentes na melhor piada particular do mundo.

...

Mais tarde, em casa, o celular vibrou enquanto eu estudava.

*andreas.albuquerque:*

“Protocolo atualizado:

Item 7 – É proibido cair de escadas perto do CEO.

Motivo: risco de ele não querer mais te soltar.

Boa noite, ameaça à gravidade.

(E às minhas camisas.)”

Sorri sozinha e respondi:

*Ana Mendes:*

“Anotado.

Mas aviso: se o senhor continuar me segurando assim, o protocolo vai precisar de um item 8.

Algo como ‘proibido corações acelerados durante horário comercial’.

Boa noite, ditador de camisas brancas.”

Deixei o celular de lado.

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