Ele quer mesmo saber sobre mim...

Na terça-feira, entrei na Nexus esperando outro desastre. Para minha surpresa, o dia começou mais calmo. Andréas ainda não havia chegado. Organizei a agenda, respondi e-mails e revisei contratos. Às oito em ponto, ele apareceu, elegante como sempre. Observei de longe enquanto ele ajudava uma funcionária que havia derrubado papéis. O gesto foi simples, mas surpreendente. Quando entrou na sala, percebeu meu olhar.

— Algum problema, Ana? — perguntou com aquele tom grave e levemente provocador.

— Nenhum, senhor.

Ele deixou a pasta sobre a mesa.

— Temos uma reunião externa às dez. Já preparei os documentos.

— Como sabe?

— Você sempre deixa tudo alinhado exatamente do mesmo jeito — respondeu, com um sorriso sutil e charmoso. — Eu reparo em tudo que vale a pena.

Senti um calor subir pelo pescoço.

...

Depois da reunião externa, voltamos para a Nexus. A chuva tinha parado, mas o ar entre nós continuava carregado. Por volta das 12h30, Andréas levantou da cadeira e me olhou diretamente.

— Ana, você já almoçou?

— Ainda não, senhor.

Ele pegou o paletó.

— Então venha comigo. Vamos almoçar na cantina executiva.

Pisquei, surpresa.

— Juntos?

— Sim. A menos que você prefira comer sozinha.

O tom dele era casual, mas o olhar era intenso. Aceitei.

A cantina executiva ficava no último andar, com vista panorâmica para Nova York. Era um espaço mais reservado, com mesas elegantes e pouca gente. Escolhemos uma mesa ao lado da janela. Andréas puxou a cadeira para mim antes de sentar — um gesto simples que fez meu estômago dar um salto.

Enquanto esperávamos a comida, ele se recostou na cadeira, relaxado, mas com os olhos fixos em mim. A proximidade da mesa pequena deixava o ar mais denso.

— Me conte uma coisa que eu ainda não sei sobre você — começou ele, a voz baixa e interessada. — Além da faculdade de Direito e da habilidade impressionante de transformar qualquer bebida em arma.

Sorri, nervosa.

— O que o senhor quer saber?

— O que te faz continuar acordando cedo todo dia, mesmo depois de tudo que eu te faço passar aqui.

Hesitei um segundo, mas respondi com sinceridade:

— Minha mãe. Ela se matou de trabalhar a vida inteira pra eu ter chance de estudar. Quero fazer com que valha a pena. E… gosto de justiça. Quero poder ajudar pessoas que não têm voz.

Andréas me observava com atenção genuína, o queixo apoiado na mão.

— Você é idealista. Isso é raro hoje em dia. — Ele inclinou o corpo ligeiramente para frente, diminuindo ainda mais a distância entre nós. — E o que você faz quando não está estudando ou sobrevivendo a mim? Tem algum vício secreto? Algo que te relaxa?

Ri baixinho, sentindo o rosto esquentar.

— Leio muito. Principalmente romances e livros de mistério. E… danço sozinha no quarto quando ninguém está vendo. É ridículo, mas me faz esquecer o estresse.

O sorriso dele se abriu, charmoso e perigoso.

— Gostaria de ver isso um dia.

— Não é uma cena bonita, senhor.

O comentário pairou no ar, ambíguo. Meu coração acelerou. Ele continuou, a voz mais baixa:

— Você namora, Ana?

A pergunta foi direta. Senti um frio na barriga.

— Não. Não tenho tempo.

Ele sustentou meu olhar. Nossas mãos estavam próximas sobre a mesa. Por um segundo, achei que ele fosse tocar a minha. O ar parecia rarefeito.

— Você me deixou curioso, Ana — murmurou ele. — É desastrada, teimosa, brilhante… e impossível de ignorar.

Fiquei sem palavras. A comida chegou, mas o verdadeiro banquete era a tensão que crescia entre nós. Cada vez que nossos olhares se cruzavam. Quando terminamos, ele se levantou e puxou minha cadeira novamente. Antes de sairmos, inclinou-se perto do meu ouvido, a voz rouca:

— Obrigado pelo almoço. Foi… a melhor parte do meu dia.

Caminhamos de volta para a sala em silêncio.

...

Mais tarde, em casa, enquanto estudava, recebi uma nova mensagem.

*Andréas Albuquerque:*

“Conseguiu chegar em casa sem derrubar nada?

Estou preocupado com a integridade dos seus livros de Direito.

Se precisar de proteção contra líquidos, tenho um terno extra.

Boa noite, idealista.”

Respondi sorrindo:

*Ana Mendes:*

“Meus livros estão secos, obrigada.

Mas se eu derrubar café neles amanhã, a culpa vai ser sua por me distrair.

Boa noite, senhor charmoso.”

...

A quarta-feira começou como qualquer outra. Cheguei cedo, organizei a agenda e revisei os compromissos do dia. Quando ouvi os passos de Andréas no corredor, levantei a cabeça automaticamente.

Assim que ele entrou na sala, precisei piscar duas vezes. Ele não estava de terno. Vestia uma calça social escura e uma camiseta preta justa, que marcava os ombros e o peito de forma quase injusta. No centro da camiseta, em letras brancas grandes, estava escrito:

*“RESERVADO PARA CAFÉ.”*

Fiquei encarando. Depois comecei a rir — uma gargalhada sincera, impossível de conter. Andréas cruzou os braços, fingindo seriedade, mas o canto da boca traía um sorriso.

— Terminou de rir de mim?

— Desculpa… é que… o senhor realmente mandou fazer isso?

— Mandei. O departamento de marketing disse que eu precisava “humanizar” minha imagem. Achei que essa era a forma mais honesta.

— O senhor está engraçado.— falei, ainda rindo. — E absurdamente charmoso ao mesmo tempo. Isso devia ser ilegal.

Ele ergueu uma sobrancelha, divertido.

— Charmoso, é? Tome cuidado, Ana. Posso começar a achar que você gosta de me ver molhado.

Meu rosto esquentou, mas não parei de sorrir. Ele caminhou até mim e estendeu uma sacola de papel pardo.

— Abra.

Dentro havia uma camiseta branca. Quando desdobrei, caí na gargalhada novamente.

Na frente estava escrito:

“Desculpa, derramei café de novo… e tudo o que ganhei foi esta camiseta.”

— O senhor não fez isso…

— Fiz. Mandei fazer duas. Uma pra você, outra pra mim caso eu queira combinar o look.

— Isso é a coisa mais ridícula e fofa que alguém já fez por mim. — admiti, segurando a camiseta contra o peito.

Andréas deu um passo mais perto, a voz baixa e provocadora:

— Fofa? Cuidado. Estou tentando ser engraçado, não derreter você.

Nossos olhares se prenderam. Por um segundo, o ar ficou mais quente. Ele foi o primeiro a quebrar o momento, com um sorriso torto.

— Guarde. Pode usar quando quiser me provocar de volta.

A manhã inteira foi leve e divertida. Ele fazia piadas, eu retrucava. Quando um diretor passou e viu a camiseta dele, quase engasgou.

— Isso é sério?

Andréas respondeu sem piscar:

— Equipamento de proteção. Contra acidentes líquidos nível Ana.

Eu bati de leve no braço dele com uma pasta.

— Ei! Eu estou bem aqui!

Ele riu, olhando para mim com um brilho quente nos olhos.

— Eu sei. Por isso estou sobrevivendo.

...

O expediente terminou tarde, já passava das oito. A maior parte dos funcionários tinha ido embora. Quando saí da sala, a chuva caía forte lá fora. Esqueci o guarda-chuva.

— Ótimo… — murmurei.

Andréas apareceu atrás de mim com um guarda-chuva preto grande.

— Vamos?

Não esperei ele insistir. Saímos juntos. O guarda-chuva nos obrigava a caminhar bem próximos. Nossos ombros se tocavam a cada passo. Em determinado momento, um carro passou rápido e levantou uma onda de água. Andréas reagiu rápido: passou o braço ao redor da minha cintura e me puxou contra o corpo dele, protegendo-me.

A água passou longe. Nós, no entanto, ficamos colados. Meu corpo contra o dele. A chuva caindo ao nosso redor. A mão dele firme na minha cintura. Levantei o rosto. Ele me olhava intensamente, gotas de chuva escorrendo pelo seu cabelo e pela camiseta “Reservado para Café”.

Nenhum de nós se moveu.

— Acho que finalmente consegui te salvar de um líquido. — murmurou ele, a voz rouca, quase um sussurro.

Sorri, sem fôlego.

— Você está melhorando.

Ele não tirou a mão da minha cintura. Pelo contrário, os dedos apertaram levemente, como se quisesse me manter ali. Seus olhos desceram para meus lábios. A tensão era tão forte que quase doía.

— Ana… — disse ele baixinho, o polegar fazendo um carinho quase imperceptível na minha cintura por cima da blusa molhada. — Você está tornando muito difícil manter distância.

Meu coração disparou. A chuva parecia ter silenciado o mundo inteiro.

— Estou? — respondi, quase sem voz.

Por um segundo, achei que ele fosse me beijar ali mesmo, debaixo da chuva. Seus olhos escureceram. Ele inclinou o rosto lentamente…

Mas então um trovão forte soou. O momento se quebrou. Andréas piscou, como se voltasse à realidade, e soltou um riso baixo e frustrado.

— Acho que até a chuva está contra nós hoje.

Ele me soltou devagar, mas manteve o braço ao redor dos meus ombros até chegarmos aos carros. Antes de eu entrar no meu, ele segurou minha mão por um instante.

— Amanhã use a camiseta — disse, com um sorriso charmoso e perigoso. — Quero ver se combina com você.

— Só se você usar a sua também.

— Combinado.

Entrei no carro com as pernas fracas e o coração ainda acelerado.

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