Mundo ficciónIniciar sesión*Ana
A sexta-feira começou diferente. Quando entrei na sala de Andréas Albuquerque, o ambiente estava estranhamente silencioso. Ele já trabalhava diante do computador, elegante e concentrado. Sem gritos. Sem uma montanha de ordens. Levantou os olhos por um instante, e aquele olhar castanho intenso pareceu demorar um segundo a mais do que o necessário. — Bom dia. — Bom dia, senhor — respondi, sentindo um leve calor subir pelo pescoço. Sentei na minha mesa e mergulhei no trabalho: organizei a agenda, respondi e-mails, confirmei reuniões e atualizei contratos. Pela primeira vez, a manhã parecia quase normal. Meu celular vibrou. Era o grupo das minhas amigas. Lívia: "Você vai sair com a gente amanhã, nem adianta inventar desculpa." Camila: "Comemorar que você sobreviveu à primeira semana!" Bruna: "Às oito. Confirmado." Sorri. Antes que pudesse responder, a voz grave de Andréas cortou o ar. — O celular. Ele nem parou de digitar. — Costumam dizer que o celular distrai as pessoas. No seu caso, deve deixá-la ainda mais lerda do que já é. Guardei o aparelho sem retrucar, mas revirei os olhos mentalmente. Alguns minutos depois, ele fechou uma pasta. — Vou buscar meu café. Antes que pergunte... é para evitar que você derrube outro em mim. Saiu da sala. Murmurei baixinho: — Convencido... Pouco depois, peguei um copo grande de café para mim e voltei. A manhã seguiu tranquila. Até que, perto do almoço, três executivos entraram. Andréas se levantou para cumprimentá-los e me pediu para aguardar lá fora. Ao me virar com meu bloco, celular e o copo, um dos executivos esbarrou em mim. O café voou e acertou Andréas em cheio — paletó, camisa e parte da calça. — NÃO É POSSÍVEL! — explodiu ele. — Pela quarta vez! Existe algum tipo de maldição envolvendo você e café? Mesmo irritado, um sorriso debochado surgiu em seus lábios. — Se fosse uma vez, eu chamaria de acidente. Duas, de azar. Quatro... já virou comédia de baixo orçamento. E eu sou o protagonista encharcado. Senti o rosto arder, mas não segurei o riso nervoso. Ele notou e sustentou meu olhar por um segundo a mais, criando uma faísca quase palpável. — Limpe isso. Depois providencie café para os convidados. Você não vai trazer o meu — completou, com ironia. — Acho mais seguro que eu mesmo resolva essa parte. ... Assim que o expediente terminou, saí da Nexus aliviada. Algumas horas depois, encontrei minhas amigas no bar movimentado de Manhattan. Lívia me puxou para um abraço apertado assim que me viu. — Finalmente! A sobrevivente da semana do café! Caí na risada e abracei as três. — Vocês não fazem ideia do que eu passei. Juro que o universo me colocou em uma reality show só para me humilhar. Camila já batia palmas. — Conta tudo! Quantos ternos ele trocou essa semana? — Três. E olha que hoje foi sexta! — respondi, gesticulando animada. — O homem deve ter um closet só de camisas brancas de emergência. Bruna se inclinou sobre a mesa, olhos brilhando. — E ele é tão insuportável quanto bonito ou já passou para o nível “bonito, mas odeio”? Hesitei um segundo, sentindo o rosto esquentar. — As duas coisas. Ele é arrogante, sarcástico... mas tem um carisma ridículo. Quando ele faz aquele sorrisinho debochado, você quer ao mesmo tempo jogar algo na cabeça dele e... sei lá. É irritante. As meninas explodiram em “Ooooh” e risadas. Passamos uns bons minutos rindo das minhas histórias, fazendo piadas sobre “o CEO encharcado” e brindando à minha sobrevivência. Eu me sentia leve pela primeira vez em dias, contando tudo com animação e sarcasmo próprio. Estava no meio de uma imitação exagerada de Andréas quando levantei. — Vou buscar outra rodada. Caipirinha pra todo mundo? — Segura firme, Ana! — alertou Lívia. — E olha pros lados! — completou Bruna. — Sem bilionários no caminho! — gritou Camila. Balancei a cabeça, rindo enquanto ia até o balcão. Peguei as duas caipirinhas e voltei para a mesa. Foi quando uma mulher de vestido vermelho esbarrou em mim. Os copos voaram. Uma bebida acertou em cheio um paletó preto, a outra encharcou a camisa branca da mesma pessoa. Fechei os olhos. — Não pode ser... Abri. Andréas Albuquerque estava parado à minha frente, ao lado de uma mulher elegante. O tempo pareceu congelar. Ele olhou para as manchas em sua roupa, depois ergueu o olhar lentamente até encontrar o meu. Seus olhos escuros me prenderam. Ele era absurdamente atraente mesmo encharcado, com a camisa colando no peito e aquele maxilar tenso. A mulher ao lado dele perguntou, confusa: — Andréas... você conhece ela? — Conheço — respondeu ele, sem desviar o olhar de mim. A voz saiu baixa, grave, quase íntima. — Ela é a única pessoa no mundo capaz de transformar qualquer líquido em arma contra mim. Minhas amigas reconheceram a cena e explodiram em risadas. Andréas sustentou meu olhar por mais um instante, um brilho provocador e quente aparecendo no fundo dos olhos. — Segunda a quinta: café. Sexta: caipirinha. Ela está diversificando o arsenal — disse ele, com deboche afiado, mas a voz carregada de uma rouquidão que me desestabilizou. Senti o rosto queimar, não consegui desviar. Havia algo no jeito como ele me olhava — como se estivesse vendo além dessa bagunça. — Eu juro que foi um acidente — murmurei. Ele soltou uma risada baixa, sexy e debochada. — Essa frase já devia estar registrada em cartório com o seu nome em destaque, Ana. Enquanto pegava guardanapos, murmurou, ainda me encarando: — Segunda-feira vou mandar retirar todas as máquinas de café da empresa... e talvez proibir bebidas num raio de cinquenta metros da minha sala. Principalmente quando você estiver por perto. O olhar que ele me deu antes de se virar foi demorado, quase uma carícia. ... Cheguei ao meu pequeno apartamento no Queens pouco depois da meia-noite, ainda com um sorriso bobo no rosto. Tirei os sapatos, vesti uma camiseta larga e me sentei na mesa da sala com os livros de Direito abertos. Mesmo cansada, abri o material e mergulhei nos resumos. Faltava pouco para a formatura. Não podia deixar o caos da Nexus atrapalhar isso. Por volta das duas da manhã, meu celular vibrou sobre a mesa. Era uma notificação do I*******m. Franzi a testa ao ver o nome. *andreas.albuquerque* começou a seguir você. Meu coração deu um salto. Aceitei o pedido quase sem pensar. Segundos depois, chegou uma mensagem direta. *Andréas Albuquerque:* “Vi que você chegou em casa inteira e sem causar enchente. Parabéns. Só queria confirmar: devo proibir também sucos, refrigerantes e água? Ou você faz exceção para bebidas alcoólicas? 😏” Não consegui segurar a risada. Mordi o lábio, pensando na resposta. Digitei rápido, com um sorriso travesso: *Ana Mendes:* “Boa noite, senhor. Estou considerando criar um seguro de responsabilidade civil só para trabalhar perto do senhor. E, para constar, a caipirinha foi um erro de casting. Meu próximo alvo é chá gelado. Boa sorte na segunda-feira.” Enviei e encostei na cadeira, o coração batendo mais rápido do que deveria. A resposta dele não demorou: *Andréas Albuquerque:* “Chá gelado também está na lista de ameaças. Tente dormir, Ana. Amanhã você vai precisar de energia para carregar copos vazios.” Soltei uma gargalhada baixa no silêncio do apartamento. Balancei a cabeça e voltei para os livros, mas agora com um calor insistente no peito. Esse homem era perigoso de muitas formas diferentes.






