O maldito café

*Ana

Na manhã seguinte, acordei com os olhos inchados de tanto chorar. Mesmo assim, vesti minha melhor roupa, prendi o cabelo e fui para a Nexus. Eu precisava daquele emprego. Assim que entrei no prédio, a recepcionista sorriu discretamente.

— Bom dia, Ana.

— Bom dia.

Subi até o último andar. Andréas já estava na sala, impecável como sempre. Nem levantou a cabeça quando entrei.

Ele pode ser cretino, mas é muito lindo.

— Você chegou três minutos antes do horário.

— Sim, senhor.

— O mínimo esperado — respondeu, com aquele tom seco que, de alguma forma, ainda conseguia soar elegante.

Não tive nem tempo de respirar.

— Organize minha agenda. Confirme a videoconferência com Tóquio. Ligue para o diretor financeiro. E quero os contratos revisados antes das nove.

Passei a manhã inteira correndo. Cada tarefa concluída gerava outras cinco. Quando finalmente terminei uma pilha de documentos, veio a ordem:

— Meu café.

Fechei os olhos por um segundo.

— Já trago.

Segurei a xícara com as duas mãos, como se fosse uma relíquia sagrada. “Sem acidentes hoje.” Voltei devagar, concentrada. Mas no instante em que entrei na sala, Andréas se virou abruptamente para pegar uma pasta. A xícara bateu de leve na borda da mesa e o café quente derramou novamente sobre a camisa e parte do paletó dele. O tempo parou. Ele olhou para a roupa manchada, depois para mim. Desligou o telefone devagar. Respirou fundo, mas dessa vez a calma evaporou.

— VOCÊ ESTÁ BRINCANDO COMIGO?

O grito ecoou pelo andar inteiro. Meu corpo travou.

— Senhor... eu...

— CALADA!

As pessoas do lado de fora pararam diante da parede de vidro. Andréas apontou para a camisa molhada.

— Dois dias. DOIS DIAS. Você consegue estragar exatamente a mesma coisa em menos de quarenta e oito horas.

— Foi um acidente...

Ele soltou uma risada curta, sem humor.

— Acidente? Você chama isso de competência?

Senti o nó na garganta crescer. As lágrimas ameaçavam cair.

— Me desculpe...

— Não quero desculpas. Quero alguém que consiga carregar uma xícara sem transformar isso em catástrofe nacional.

Ele deu alguns passos pela sala, a voz ainda carregada. De repente, parou, olhou para a camisa arruinada e inclinou a cabeça com um meio-sorriso sarcástico que desestabilizou ainda mais meu equilíbrio.

— Sabe o que é pior, Ana? Eu quase me acostumei com o cheiro de café queimado no meu terno. Se continuar assim, vou ter que trocar meu perfume por “Espresso Acidente”.

Apesar da humilhação, escapei um riso nervoso e baixinho. Ele ergueu uma sobrancelha, como se tivesse notado o som, e por um segundo o ar entre nós ficou carregado — uma mistura estranha de tensão, vergonha e algo perigosamente próximo de diversão.

— Desculpe... de novo — murmurei, o rosto queimando.

— Você sabe que “desculpe” já está virando o refrão dessa semana, não sabe? — respondeu ele, a voz mais baixa, enquanto me encarava com aqueles olhos intensos. — Da próxima vez, tente não mirar em mim. Tenho outros ternos, mas paciência limitada.

Baixei a cabeça, sem conseguir segurar um leve sorriso envergonhado. Ele continuou:

— Você colocou no currículo que era organizada, eficiente, que sabia trabalhar sob pressão. Até agora, só vi talento para derrubar café.

— Senhor, eu posso trocar sua camisa e imprimir os documentos novamente...

— O problema nunca foi a camisa — interrompeu ele, olhando diretamente nos meus olhos. — O problema é que você não aprende. Toda vez que entra aqui, eu fico me perguntando que desastre criativo você vai inventar.

O silêncio pesou. Respirei fundo.

— Eu vou resolver.

— Espero que resolva. Porque erros repetidos têm consequências.

Saí da sala com as mãos trêmulas e os documentos molhados. O resto do dia foi uma maratona de tarefas. Quando o expediente finalmente terminou, desci exausta, despedi-me do segurança e atravessei a rua até uma pequena cafeteria que ficava aberta até tarde. Precisava de café. E de alguns minutos longe daquele escritório.

Pedi um espresso duplo para tomar ali e outro para viagem. Sentei perto da janela, tomei o primeiro gole e tentei organizar os pensamentos. Quando terminei, peguei o copo para viagem e empurrei a porta da cafeteria, olhando rapidamente o celular.

Foi então que bati de frente com alguém que entrava. O café voou. Manchas escuras se espalharam pela camisa social escura, pelo paletó e pela gravata impecável.

Levantei os olhos lentamente.

Andréas Albuquerque.

Ah, não...

Por alguns segundos, nenhum de nós falou. Ele olhou para a própria roupa, depois para mim. A expressão endureceu. Fechei os olhos.

— Não...

Abri novamente.

— Senhor... eu...

Ele respirou fundo, visivelmente tentando se controlar.

— Você tem um irmã para me encher de café?

Algumas pessoas na cafeteria olharam. Meu rosto queimou.

— Não! Eu juro que foi sem querer. Eu não vi o senhor entrando.

— Pela terceira vez — disse ele, olhando para a camisa arruinada. — Terceira.

Passei a mão na testa, sem reação.

— Eu realmente não vi...

Andréas soltou o ar, passando a mão pela gravata molhada. Então, com um meio-sorriso irônico que contrastava com a irritação nos olhos, ele inclinou ligeiramente a cabeça e falou em tom baixo, quase conspiratório:

— Sabe, Ana... estou seriamente considerando te proibir de chegar a menos de dez metros de qualquer líquido quente. Da próxima vez, vou mandar entregar meu café por drone. Assim pelo menos sobrevivo à semana.

A frase foi tão inesperada que escapei outro riso nervoso. Ele notou e, por um breve instante, o canto de sua boca se curvou um pouco mais, como se estivesse gostando do efeito que causava em mim apesar de tudo.

— Eu pago a lavagem do terno, senhor.

Ele ergueu uma sobrancelha, o sorriso provocador ainda ali.

— Você tem ideia de quanto custa este terno?

Balancei a cabeça.

— Então não faça promessas que provavelmente não consegue cumprir.

Ele pegou os guardanapos que a atendente trouxe, secou parte da camisa e baixou a voz novamente, olhando-me fixamente:

— Amanhã. Sete horas. Não chegue um minuto atrasada. E, pelo amor de Deus, fique longe de qualquer xícara de café. Por nós dois.

Virou as costas e saiu. A porta se fechou atrás dele. Fiquei parada, o coração ainda acelerado. A atendente me ofereceu outro café.

— Você... está bem?

Respirei fundo e soltei um riso fraco.

— Acho que, a partir de hoje, café virou meu maior inimigo.

Peguei minha bolsa e saí, sentindo que o universo tinha um senso de humor particularmente cruel — e que Andréas Albuquerque, infelizmente, era tão engraçado quanto insuportável.

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