Mundo de ficçãoIniciar sessãoValentina e Alexander são rivais desde a infância. Ela nunca esqueceu que ele sempre teve dinheiro, influência e oportunidades. Ele nunca perdoou o dia em que ela afirmou, diante de todos, que suas vitórias eram compradas e que sem a fortuna da família ele jamais seria alguém. Anos depois, um escândalo deixa os dois sem parceiros. Para salvar a temporada, eles são obrigados a formar uma nova dupla e fingir um relacionamento diante das câmeras. Valentina aceita para garantir o tratamento da avó. Alexander aceita por vingança. Seu plano é fazê-la se apaixonar e depois abandoná-la. Mas, entre treinos, provocações, beijos falsos e uma proximidade impossível de evitar, Alexander percebe que pode estar sentindo muito mais do que deveria. E quando Valentina descobrir a verdade, talvez nem o homem que nunca deixou uma parceira cair consiga impedir que tudo entre eles desmorone.
Ler maisValentina tinha onze anos quando descobriu que o gelo podia ser mais cruel fora da pista.
Naquela tarde, o ginásio estava lotado. Pais, treinadores e crianças se amontoavam nas arquibancadas, enquanto os alto-falantes anunciavam as notas da categoria juvenil. O cheiro de gelo, tecido novo e café barato se misturava no ar. Valentina permanecia perto da entrada dos vestiários, ainda usando o vestido azul simples que a avó havia costurado durante três noites.
As pedrarias eram poucas e algumas estavam tortas, mesmo assim, sua avó disse que ela parecia uma estrela, e bem ela queria acreditar.
Na pista, porém, estrelas não bastavam.
— Alexander Beaumont, primeiro lugar!
Os aplausos explodiram.
Alexander ergueu o queixo antes mesmo de subir ao pódio, como se já soubesse que o nome anunciado seria o dele. Tinha treze anos, cabelos escuros perfeitamente arrumados e um uniforme preto coberto por detalhes prateados que refletiam as luzes do ginásio. Atrás dele estavam o treinador particular, a mãe elegante e o pai, sempre cercado por pessoas importantes.
Valentina apertou as mãos.
Seu nome veio logo depois.
Segundo lugar.
A avó aplaudiu com toda a força, sorrindo como se aquela medalha de prata fosse feita de ouro. Valentina tentou sorrir de volta, mas a garganta estava fechada.
Ela havia treinado até os pés sangrarem.
Alexander havia cometido um erro na aterrissagem.
Todos tinham visto, inclusive ela.
Ainda assim, as notas dele foram maiores.
— Você foi maravilhosa — a avó disse quando Valentina desceu do pódio. — Não deixe essa carinha triste estragar o seu momento.
— Eu deveria ter ganhado.
A avó suspirou e ajeitou uma mecha de cabelo que escapara do coque.
— Nem sempre as coisas acontecem como esperamos.
— Porque eles são ricos.
— Valentina…
— O pai dele paga tudo. O evento, os treinadores, os melhores figurinos. Deve pagar os jurados também.
— Não diga isso.
Mas já era tarde demais.
Alexander estava a poucos passos dali.
Ele conversava com outros competidores e segurava o troféu contra o peito. Quando ouviu, virou o rosto lentamente.
— O que você disse?
Valentina deveria ter ficado em silêncio, deveria ter ouvido a avó, mas a frustração queimava forte demais.
— Você ouviu.
Os outros patinadores se calaram. Alguns se aproximaram, atraídos pela discussão. Alexander caminhou até ela, ainda sorrindo, embora seus olhos tivessem perdido qualquer traço de diversão.
— Está com raiva porque perdeu?
— Estou com raiva porque você não mereceu ganhar.
O sorriso dele vacilou.
— Os jurados discordam.
— Os jurados fazem o que sua família manda.
Um murmúrio percorreu o grupo.
Alexander olhou rapidamente para os próprios pais, que conversavam com um dos organizadores do evento. Depois voltou a encará-la.
— Você está inventando desculpas.
— Não estou.
— Então prove.
Valentina não tinha prova alguma.
Tinha apenas os comentários que ouvira de adultos. Sussurros sobre doações, favores e influência. Tinha a imagem do pai de Alexander apertando a mão de um dos jurados antes da competição. Para uma menina de onze anos, aquilo era suficiente.
— Todo mundo sabe que sua família compra suas notas.
A expressão dele endureceu.
— Cale a sua boca.
— Você não ganhou porque é o melhor. Ganhou porque tem dinheiro, e seus pais bajulam os tecnicos.
— Valentina, chega — a avó pediu, segurando seu braço.
Ela se soltou.
Alexander continuava diante dela, agora sem qualquer sinal de arrogância. Por um instante, parecia apenas um garoto tentando não demonstrar que havia sido atingido.
Valentina percebeu.
E, tomada pela raiva, decidiu atingir ainda mais fundo.
— Sem o dinheiro da sua família, você não é ninguém, nem seus giros são dignos de aplausos.
Os olhos dele escureceram.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Sei que sempre vai vencer porque eles compram tudo para você. Os melhores patins, os melhores treinadores, as melhores notas. Sua família rouba nas competições e todo mundo finge que não vê.
— Isso não é verdade.
— É, sim.
— Eu treino mais do que você.
— Duvido muito, eu treino até meus pés sangrarem, já você nem treinando o suficiente vai conseguir ganhar sem seus pais mexendo os pauzinhos.
Alexander deu um passo à frente.
— Eu sou melhor do que você.
Valentina sentiu os olhos arderem.
— Você nunca vai saber se é realmente bom.
O silêncio ao redor deles se tornou sufocante.
Ela podia ter parado.
Mas não parou.
— Você nunca vai ser um campeão de verdade, Alexander. Vai ser apenas o garoto rico que precisou comprar o próprio talento.
Por alguns segundos, ele não respondeu.
Seu rosto permaneceu imóvel, mas os dedos apertaram o troféu com tanta força que os nós ficaram brancos.
Então Alexander sorriu.
Não era o sorriso bonito que usava diante das câmeras.
Era frio.
— Um dia, você vai se arrepender de ter dito isso.
Valentina ergueu o queixo, mesmo com o coração acelerado.
— Duvido.
— Eu não.
Ele se aproximou o bastante para que apenas ela pudesse ouvir.
— Quando eu me tornar o melhor, vou garantir que você esteja perto para assistir.
Alexander se afastou sem olhar para trás.
Valentina tentou convencer a si mesma de que havia vencido aquela discussão.
Mas, quando viu a avó decepcionada e os outros competidores cochichando, sentiu o primeiro peso do arrependimento.
Ela ainda não sabia que algumas palavras permaneciam congeladas por anos.
Nem que Alexander Beaumont passaria o resto da vida tentando provar que ela estava errada.
Valentina permaneceu no rinque mesmo depois que Alexander foi embora.A porta se fechou atrás dele com força, deixando um silêncio estranho no lugar. Marcelo continuava perto da lateral, os braços cruzados e a expressão séria. A fisioterapeuta havia se afastado alguns metros, fingindo organizar os equipamentos para dar espaço aos dois.Valentina deslizou até a grade.— Podemos continuar sem ele — disse.Marcelo não respondeu imediatamente.— Não podemos?— Não.Ela soltou o ar, irritada.— Foi só um levantamento.— Não foi só um levantamento.Valentina desviou o olhar.Marcelo abriu a porta da pista e entrou no rinque sem patins, caminhando com cuidado até ficar perto dela.— Está tudo bem mesmo?— Está.— Não parece.— Eu só hesitei.— Você nunca hesita.A frase veio simples, mas atingiu um ponto que Valentina vinha evitando desde o acidente.Marcelo apontou para o centro da pista.— Eu vi você fazer levantamentos mais difíceis do que esse dezenas de vezes. Já vi você subir machucada
No segundo dia de ensaio, Valentina entrou na sala com uma confiança que não sentia na manhã anterior.A lembrança da dança vendada ainda permanecia viva demais em sua mente. A música, as mãos de Alexander, a forma como seus corpos haviam encontrado o mesmo ritmo sem esforço. Ela não queria pensar muito sobre aquilo, mas era impossível negar que algo havia mudado.Pela primeira vez, não sentia vontade de recuar antes mesmo de ele se aproximar.Alexander percebeu assim que ela entrou.— Está diferente hoje.Valentina deixou a bolsa no banco.— Talvez você esteja menos irritante.— Impossível.Marcelo surgiu com folhas nas mãos e interrompeu antes que começassem.— Hoje vamos montar a coreografia definitiva.Ele explicou que a apresentação seria simples, curta e voltada para a conexão entre os dois. Nada de saltos arriscados. A intenção era impressionar pelo romantismo, não pela dificuldade técnica.Primeiro, passaram tudo no chão.A coreografia começava com Valentina sozinha, de costas
Durante alguns segundos, Valentina e Alexander permaneceram em silêncio no centro da sala.Marcelo havia saído, mas seu ultimato continuava pairando entre eles. Restavam três dias para a apresentação, e Valentina ainda não conseguia suportar a proximidade necessária para convencer alguém de que existia paixão entre os dois.Alexander foi o primeiro a se mover.— Você está com medo de mim?Valentina franziu o cenho.— Não seja ridículo.— Então por que se afasta toda vez que eu chego perto?— Porque você transforma cada movimento em uma provocação.— Não estou tentando fazer nada com você.— Suas mãos discordam.Alexander soltou o ar, controlando a irritação.— Escuta. Eu não vou beijar você, não vou tentar levá-la para a cama e não vou usar a coreografia como desculpa para ultrapassar seus limites.Valentina cruzou os braços.— Que reconfortante.— Estou falando sério.O tom dele fez com que ela erguesse os olhos. Alexander não sorria.— Se tem medo de que eu tente alguma coisa além d
Marcelo entregou a eles três dias.No primeiro, Valentina descobriu que dois minutos de coreografia poderiam ser mais difíceis do que uma competição inteira.Quando chegou à sala de ensaio, encontrou Alexander sentado no chão, alongando as pernas, enquanto Marcelo ajustava as caixas de som. Não havia gelo, patins ou figurinos. Apenas um espaço amplo cercado por espelhos, luz branca e marcas feitas no piso.— Pensei que começaríamos na pista — comentou Valentina, deixando a bolsa perto da parede.— Mais tarde — respondeu Marcelo. — Antes de patinar, vocês precisam entender a música.Alexander ergueu os olhos para ela.— Preparada para demonstrar toda aquela paixão escondida?— Se depender da paixão que sinto por você, a apresentação vai parecer uma cena de assassinato.Ele sorriu.— Desde que pareça intensa.Marcelo ignorou os dois e apertou o controle. Os primeiros acordes de Dusk Till Dawn preencheram a sala.Valentina reconheceu a música imediatamente. Era romântica, dramática e int
Último capítulo