Silêncio quebrado

Eu conduzi Lili para a imensa sala de jantar, que parecia um mausoléu de mármore e madeira escura. A mesa de café da manhã estava posta com talheres de prata e porcelanas finas, mas era estranhamente silenciosa. Só havia dois lugares marcados: o meu e o de Lili.

Ajudei-a a subir na cadeira que parecia grande demais para o seu pequeno corpo.

"O que você gostaria de comer, Lili? Gosta de suco de laranja?" perguntei, tentando ignorar a formalidade sufocante do ambiente.

Ela acenou com a cabeça. Seus olhos ainda estavam um pouco vazios, mas ela estava seguindo meu comando, o que já era um avanço. Peguei uma das jarras prateadas e coloquei um pouco de suco no copo dela, servindo também algumas torradas e frutas que pareciam obras de arte culinárias.

"Quero doce," ela disse de repente, e ela sorriu.

Era um sorriso pequeno, rápido, mas tão genuíno que iluminou a mesa. Meu coração deu um salto de alegria por vê-lo, mas eu sabia que precisava estabelecer limites.

"Talvez depois do almoço, pequena," eu respondi, com a voz suave, mas firme. "Agora, você, como uma artista que precisa de muita energia para criar, deve comer algo que te dê força. Algumas frutas, quem sabe um pãozinho."

O sorriso desapareceu tão rápido quanto veio. "Mas eu não gosto," ela disse, e o tom era de súplica infantil.

Neste exato momento, senti a presença dele. A porta da sala de jantar rangeu levemente, e Nicholas entrou. Ele estava impecável em um terno que não era o de ontem, com a mesma expressão fria e imponente. Ele nem olhou para mim; seus olhos estavam fixos na Lili e na bagunça que eu estava prestes a fazer em sua rotina.

Senti o calor da observação dele nas minhas costas. Se eu cedesse, ele me veria como fraca. Se eu brigasse com Lili, ele me veria como inadequada. Eu precisava ser firme, mas carinhosa.

Olhei para Lili e, ignorando a pressão silenciosa de Nicholas, fiz minha proposta.

"Tudo bem. Eu entendi. Você não gosta, mas é importante. Então, vamos fazer um acordo de artista," eu me inclinei, fazendo dela minha cúmplice. "Se você comer essas três moranguinhos e um pedaço daquela banana de manhã, eu prometo que faço um bolo de chocolate só para você. Um bem grande, cheio de cobertura. Mas você só pode comer um pedaço depois do almoço, combinado?"

Lili acenou empolgada, os olhos arregalados com a promessa de chocolate. O sorriso retornou, ainda maior. "Combinado!"

Eu sorri, feliz por ter conquistado a primeira pequena vitória com ela, pegando um garfo e cortando as frutas em pedacinhos. Eu estava prestes a colocar o primeiro morango no prato dela, quando a voz profunda de Nicholas quebrou o silêncio.

"Não lembro de ter autorizado a culinária caseira ou subornos, Senhorita Aurora. E minha filha não come açúcar refinado."

Senti o rosto queimar, mas não recuei. Olhei para ele, que agora estava sentado na cabeceira da mesa, longe de nós, mas próximo o suficiente para que sua desaprovação fosse esmagadora.

"Bom dia, Sr. Nicholas. Eu li o contrato; ele diz 'babá', não 'nutricionista'," eu disse, mantendo meu tom respeitoso, mas firme. "A Lili precisava de um incentivo, e um pedacinho de bolo uma vez não fará mal. E sobre cozinhar, eu nunca faria nada sem sua permissão senhor. Mas, Sr. Nicholas, ela sorriu. E comeu o primeiro morango. É um avanço que talvez compense o risco."

Ele não respondeu imediatamente. Apenas me encarou, os olhos azuis faiscando entre a raiva por ser contrariado e uma ponta de interesse por eu ter mantido a calma. Ele olhou para Lili, que estava mastigando o morango com uma seriedade concentrada, algo que ele provavelmente não via há anos.

Ele soltou o ar em um suspiro seco. "Continue com as frutas, Senhorita Aurora. Mas qualquer promessa de bolo está suspensa até minha aprovação."

"Entendido, Sr. Nicholas. Morangos primeiro, negociação do bolo depois," eu respondi, voltando minha atenção para Lili.

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