O relógio marcava exatamente 7h30. Eu estava impecavelmente vestida com o uniforme azul-marinho, sentindo-me mais uma hospedeira de luxo do que uma babá. Respirei fundo e me dirigi ao quarto de Lili. Bati duas vezes na porta branca e esperei um instante antes de abri-la devagar.
O quarto de Lili era enorme, parecia um showroom de loja de brinquedos caríssima. Bonecas de porcelana intocadas nas prateleiras e uma cama de dossel que mais parecia um trono. Mas, como o resto da mansão, faltava alma.
Lili estava sentada na ponta da cama, já desperta, ajeitando o cabelo escuro com uma escova pequena. Ela parecia uma miniatura de princesa, mas com uma expressão eternamente séria. Ela mal ergueu os olhos quando entrei.
"Bom dia, Lili. Meu nome é Aurora," eu disse, baixando um pouco o tom para não invadir o silêncio do lugar. Eu me aproximei lentamente, sentando-me na beirada da cama, mas mantendo uma distância respeitosa. "Então, me diz: o que você faz a manhã toda?"
Ela demorou um segundo para responder, apertando o ursinho de pelúcia contra o peito. A voz dela era baixa, quase um sussurro. "Eu... tomo café da manhã e pinto."
"Nossa, parece muito divertido," eu respondi, meu entusiasmo era genuíno. Pintar era uma forma de expressão, e eu queria encorajar isso. "Vem cá, deixa eu te ajudar a arrumar. O que você gosta de vestir quando vai pintar? Você tem um uniforme de artista?"
Lili balançou a cabeça, e finalmente, seus olhos se encontraram com os meus, cheios de curiosidade. Ela apontou para o closet com um pequeno dedo. "A Sra. Davies me diz o que vestir."
A Sra. Davies devia ser a babá anterior.
"Bom, a Sra. Davies não está aqui hoje. E eu estou. E a Aurora gosta de escolher as roupas. Que tal usarmos a imaginação? Vamos escolher uma roupa para a artista mais importante da Mansão Thorne!"
Eu abri o closet, que era maior que o meu quarto na casa da minha mãe. Estava organizado por cores e tipos de tecido. Eu ignorei o vestido de seda e puxei um conjunto mais prático.
"Olha só, um vestido que parece que foi feito para correr e brincar," eu disse, segurando um vestido de algodão amarelo. "Ele tem bolsos, para você guardar pedrinhas ou segredos. E é amarelo! É a cor do sol, e o sol combina com quem vai criar cores."
Lili observou a peça, mas não sorriu. "Está bom," ela disse, ainda com o ursinho.
"Perfeito. Vem aqui," eu a peguei no colo com cuidado e a coloquei no tapete fofo, ajudando-a a vestir o conjunto.
Enquanto eu a ajudava a fechar os botões, notei a delicadeza com que ela se movia. Ela não era desastrada ou hiperativa; ela era apenas... quieta demais, como se tivesse medo de ocupar muito espaço no mundo.
"Você vai me mostrar suas pinturas depois do café, certo? Estou ansiosa para ver o que uma artista consegue criar," eu falei, penteando seus cabelos e fazendo uma trança lateral rápida.
"O papai nunca vê," ela sussurrou, e o nome "papai" saiu com uma melancolia que me partiu o coração.
Eu me agachei para ficar na altura dela, olhando diretamente nos seus olhos. "Bom, o Papai pode estar muito ocupado com os negócios dele, mas a Aurora não está. E você vai pintar para a Aurora, combinado?"
Ela assentiu lentamente. Um pequeno, muito pequeno, sorriso quase surgiu em seus lábios, mas desapareceu rápido demais para eu ter certeza.
"Agora, vamos ao café da manhã. Estou morrendo de fome! E depois, vamos ver o que essas suas mãos criativas têm feito."
Eu a peguei pela mão, e pela primeira vez naquela manhã, senti uma conexão real. A pequena mão dela estava fria na minha, mas a leve pressão que ela fez ao segurar a minha me disse que ela estava disposta a me dar uma chance.