Mundo de ficçãoIniciar sessãoA Calmaria Antes da Tempestade
A manhã, apesar do confronto tenso com Nicholas, foi um sucesso. Lili comeu as frutas, e eu ganhei a primeira batalha. A tarde foi ainda melhor. Fomos para uma sala de ateliê que parecia ter todos os materiais de arte do mundo. Eu a encorajei a pintar o que quisesse, sem regras. No início, ela pintou apenas preto e cinza. Figuras borradas e pesadas. "O que é isso, Lili?" perguntei, sentada ao lado dela, misturando tinta em uma paleta. "É a casa," ela respondeu, a voz fraca. Eu entendi. Aquela mansão fria era o reflexo da dor que ela sentia. Em vez de criticar ou tentar animá-la demais, eu comecei a pintar cores ao redor do cinza dela. Pintei um grande sol amarelo forte no canto. "Olha só, a casa precisa de amigos. O Sol é muito amigo, ele dá calor. E a Aurora, ela é meio verde, não é? A cor da esperança," eu disse, desenhando uma forma divertida. Lili não falou mais, mas ela pegou o azul-claro e começou a pintar o céu, cobrindo o preto com a calma. Era um sinal minúsculo, mas um sinal de que ela estava me deixando entrar. O resto da tarde foi dedicado à criação, e pela primeira vez, vi a tensão deixar os ombros da menina. O jantar foi uma experiência estranha e silenciosa. Nicholas estava presente, na cabeceira da mesa, lendo documentos enquanto comia, mal interagindo. Lili e eu conversamos sobre nossas pinturas, mantendo a conversa leve. Ele era uma presença de gelo, mas eu me concentrei em Lili, recusando-me a deixar a frieza dele nos atingir. Às oito e meia, a rotina sagrada de dormir chegou. Ajudei Lili a se preparar. Ela estava mais falante, me contando sobre seu ursinho. "Vamos ler hoje a história da menina que morava na floresta?" ela me pediu, apontando para um livro na estante. "Claro que sim," eu disse, pegando o livro. Eu me deitei ao lado dela na cama enorme, e comecei a ler a história com vozes e emoção. Ela se aconchegou contra mim, e eu me permiti o conforto daquele pequeno contato. O corpo de Lili era quente e leve, e a necessidade dela me ancorava no propósito. A voz da história acalmou sua respiração. Em menos de dez minutos, seus olhos se fecharam. Eu esperei um pouco, observando o rosto sereno de Lili, sentindo uma satisfação profunda. Eu estava fazendo a diferença. Eu beijei sua testa e saí do quarto no silêncio, fechando a porta com cuidado. Eu estava aliviada por ter encerrado o meu primeiro dia com sucesso. Troquei o uniforme formal por um pijama confortável e estava prestes a pegar meu livro no criado-mudo quando o interfone tocou, um bipe discreto e gelado. Eu o atendi, o coração já disparado. Era Patrick. "Senhorita Aurora," a voz dele era plana como sempre. "O Sr. Nicholas solicita sua presença imediata no escritório principal. Por favor, venha o mais rápido possível." Minhas mãos tremeram. Nicholas. O escritório principal. Aquele era o domínio dele, o lugar onde ele fazia negócios de milhões e destruía carreiras. Ele queria falar sobre o "suborno" do bolo? Ou seria sobre o meu desafio na mesa de jantar? Coloquei meu roupão de seda, cobrindo o máximo que podia. Meu pijama não era apropriado para o escritório de um bilionário. Olhei para o relógio: já passava das nove da noite. Minha hora de folga havia começado. Caminhei pelos corredores silenciosos, o mármore frio sob meus pés descalços. A cada passo, a sensação de estar entrando em território proibido aumentava. A porta do escritório de Nicholas era de madeira maciça, imponente. Bati levemente e a voz dele, baixa e grave, ecoou: "Entre." Eu girei a maçaneta. O escritório era escuro, iluminado apenas pelo brilho suave de uma luminária e pela luz distante da cidade. Nicholas estava em pé, de frente para a janela, olhando para a noite. Ele havia tirado o paletó, e a camisa social branca delineava o corpo musculoso, tornando-o ainda mais... real. "Patrick disse que o senhor queria me ver," eu disse, minha voz parecendo um sussurro na vastidão da sala. Ele se virou lentamente, e o olhar intenso dele me atingiu. Era um olhar que não continha raiva, mas sim uma curiosidade profunda e algo mais, algo que me fez lembrar da regra que eu tinha assinado: proibido qualquer relacionamento. "Sente-se, Aurora. Temos que falar sobre o futuro da minha filha. E sobre as suas promessas." Eu engoli em seco e me sentei, sentindo-me pequena diante de sua aura.






