Aurora
Eu estava no meu limite. Literalmente, sentada no chão da lavanderia apertada do nosso apartamento minúsculo, encarando o último aviso de cobrança da faculdade. Se eu não pagasse até o final da semana, adeus sonhos. E adeus a chance de dar à minha mãe um pouco de paz.
"Você vai furar esse papel se continuar encarando assim," a voz animada de Bia invadiu a cozinha, seguida por uma explosão de risadas.
Bia era o meu sol particular, sempre otimista, uma amiga que conseguia fazer um copo vazio parecer meio cheio. Ela se sentou em cima da máquina de lavar, ignorando minhas pilhas de roupas.
"Pare de drama, loira. Eu tenho a solução dos seus problemas," ela disse, piscando o olho.
Eu soltei o papel amassado. "A única solução é um milagre, Bia. E milagres não pagam mensalidades, nem o aluguel atrasado."
Bia balançou a cabeça, e o cheiro do seu perfume floral preencheu o ar. Ela era o meu oposto em muitos sentidos. Eu era a responsável, a sobrecarregada. E, claro, fisicamente, éramos o contraste perfeito.
Eu me sentia desconfortável no meu próprio corpo ultimamente. Meus cabelos longos, loiros e ondulados sempre chamavam atenção, e meus traços eram... digamos que eu tinha herdado a generosidade da natureza nos lugares errados. Era difícil passar despercebida, mas tudo que eu queria era ser apenas a Aurora que se esconde atrás de livros.
E havia um segredo que eu guardava sob minhas roupas: na lateral da minha coluna, do lado esquerdo, eu tinha uma tatuagem delicada que dizia: Eu Te Escolho. Era a minha promessa de sempre escolher o caminho certo.
Bia me cutucou, tirando-me dos meus pensamentos de auto-piedade.
"Esquece essa história de telemarketing, Au. Eu estava no fórum da faculdade, sabe, naquele grupo de empregos premium? Apareceu uma vaga que é a sua cara."
"Premium? Com a minha sorte, deve ser para limpar o iate de algum russo", murmurei.
"É melhor do que isso, gata. É para Babá Residente. E não é para qualquer um. É para a filha de um dos homens mais ricos e importantes do país. O tal de Nicholas."
Meu estômago gelou. Bilionário. Isso soava como um mundo que não me pertencia, um lugar onde a minha ingenuidade seria esmagada.
"Babá? Eu? Bia, eu mal consigo cuidar das minhas plantas. E 'residente'? Significa morar lá?"
"Exatamente! Salário estratosférico, cobertura de despesas, e sim, você mora na mansão. Eles estão procurando alguém com 'boa índole', 'inteligência' e que tenha uma energia tranquila para lidar com a criança. Uma menina de cinco anos, quietinha, chamada Lili."
Bia começou a folhear as informações no celular, os olhos brilhando. "Pelo que li, a mãe... bem, o bilionário é viúvo. E ele é muito exigente. Já passaram várias babás por lá. Ele é conhecido por ser um gênio frio dos negócios, um ogro, mas paga o triplo do mercado."
O ogro não me assustava tanto quanto o dinheiro. O triplo do mercado significava pagar a faculdade da minha vida inteira e ainda sobrar para a minha família.
"Como eu sequer conseguiria uma entrevista em um lugar assim? Eu sou uma universitária desempregada. Não tenho diploma em babá."
"Não precisa. O anúncio disse que eles valorizam 'caráter acima de currículo'. E amiga, se tem uma coisa que você tem de sobra é caráter. Eu enviei seu currículo. Não perdi tempo. Eles pediram para você ligar em menos de uma hora para agendar." Bia sorriu vitoriosa. "Agora vá, use essa inteligência para conseguir a entrevista. Pense na Lili, na bondade que você pode dar a ela, e no que esse dinheiro pode fazer por nós."
Eu olhei para o aviso de cobrança e depois para a Bia. Engoli o medo.
Nicholas. Bilionário. Arrogante, talvez. Mas a única chance.
Peguei meu celular, minhas mãos tremendo levemente. Estava prestes a dar o primeiro passo para o mundo de vidro e aço que prometia salvar minha vida.