A chuva que açoitava as vidraças do apartamento de Anne em Pinheiros parecia ecoar o caos que se instalara em sua vida profissional. Ela estava sentada no chão da sala, com as costas apoiadas no sofá, as luzes apagadas e apenas o brilho intermitente dos relâmpagos iluminando as dezenas de certificações emolduradas na parede — símbolos de uma carreira que parecia estar se desintegrando sob o peso de um escrutínio implacável. O interrogatório do Dr. Arnaldo ainda ressoava em sua mente como um zumbido de alta frequência: anomalias térmicas, padrões de horários, privilégios atípicos.
Quando o som da chave girando na fechadura interrompeu o silêncio, Anne não se moveu. Ela sabia que era Nicholas. Ele era o único que possuía a chave e a audácia de burlar a vigilância de sua própria diretoria para estar ali às três da manhã.
Ele entrou em silêncio, o terno molhado pela chuva e os olhos refletindo uma exaustão que ia além do físico. Ao vê-la ali, tão pequena e vulnerável em meio à penumbra, N