A Premiação

Havia se passado três meses desde aquela noite que eu me esforçava para esquecer — ou fingir que esquecia. O aniversário, o quarto errado, o homem desconhecido… o desejo e a vergonha misturados como um segredo que ardia só de lembrar. Eu segui minha vida, ou tentei. Mas de vez em quando lembrava daquela noite.

Cristina estava radiante naquela semana. Minha prima tinha sido indicada para um reconhecimento importante na empresa em que trabalhava, a poderosa CruzPharma Scientific. E eu, claro, fui convocada — ou melhor, arrastada — para ir com ela à festa da companhia.

Laurinha, você vai comigo, sim! — Cristina decretou ao telefone. — É uma noite especial. Não vou sozinha.

Eu não tive coragem de dizer não. Talvez porque precisava respirar novos ares… talvez porque parte de mim esperava que algo bom me acontecesse. Ou talvez porque eu simplesmente não queria ficar sozinha com meus pensamentos — pensamentos que sempre voltavam para o mesmo par de mãos, o mesmo olhar quente, a mesma voz rouca que mal lembro, mas que sinto como se fosse uma marca na pele.

Noite da Premiação

Naquela noite, coloquei meu vestido bordô. Elegante. Seguro. Daqueles que abraçam o corpo como uma armadura — perfeita para fingir controle quando, por dentro, tudo é dúvida.

O salão estava deslumbrante. Lustres de cristal refletiam luzes douradas sobre mesas impecavelmente postas. Um quarteto de cordas preenchia o ar com uma melodia suave, enquanto homens em ternos impecáveis e mulheres em vestidos de gala circulavam entre taças de champanhe e sorrisos ensaiados.

Atravessei a entrada com a postura de quem não deve nada a ninguém. Eu podia não querer estar ali, mas, já que estava, deixaria minha marca. Meu vestido bordô, profundo e marcante, delineava minhas curvas com precisão; meu perfume deixava um rastro discreto; e meu olhar… bem, meu olhar dizia que não estava impressionada com gente importante.

Assim que entrei, percebi vários olhares virando em minha direção — alguns admirados, outros curiosos. Finjo que não vejo. A verdade é que nunca gostei desse tipo de atenção.

— Nome, por favor? — perguntou a recepcionista, com um sorriso profissional.

— Laura Pérez. — respondi seca, sem devolver o sorriso.

Por dentro, respirei fundo.

Maldita hora em que aceitei vir a essa festa… gente esnobe, conversa sem graça…

— Sua mesa é por aqui, senhora Pérez.

Segui a atendente e encontrei Cristina já acomodada, linda e radiante. Me sentei ao lado dela, cruzando as pernas e apoiando o queixo na mão.

— Só você pra me arrastar pra um lugar desses — resmunguei. Mas o pequeno sorriso entregava meu afeto por ela.

Cristina riu, encantada com minha entrada teatral.

— Você entrou e todos te olharam! Arrasou como sempre, prima!

— Tenta não sumir, viu? — ela provocou. — Essa festa está cheia de homens bonitos.

Soltei uma risada curta, daquelas que a gente usa mais como escudo do que como humor.

— Homens bonitos? Não, obrigada. O último quase levou minha paz junto com a toalha do hotel.

Cristina arqueou a sobrancelha, já com aquele sorriso malicioso pronto para atacar.

— Eu sei, Laurinha… do jeito que você contou, o homem misterioso tirou foi o seu fôlego—

— Não — cortei na hora, levantando a mão. — Não gosto de ficar lembrando disso. Já superei. Superada, resolvida e vacinada.

Ela me olhou por alguns segundos, com uma sensibilidade rara até para ela. Sem provocar, sem piada. Só entendimento. Então, mudou de assunto como quem troca o curativo com cuidado.

Cristina segurou minha mão, os olhos brilhando de emoção.

— E não esquece uma coisa — disse, firme. — Você me ajudou a conquistar essa premiação. Nada disso teria acontecido sem você. Você é a melhor, Laura.

Sorri de verdade dessa vez.

Talvez eu não fosse boa em esquecer homens complicados…

mas em apoiar quem eu amava, isso eu sabia fazer como ninguém.

O jantar seguiu elegante e cheio de protocolos: taças tilintando, garçons desfilando com pratos refinados e olhares atentos. A atmosfera era de celebração contida — típica de eventos caros demais para serem espontâneos.

Logo, o apresentador subiu ao palco. Carismático, sorriso fácil, voz de quem nasceu para comandar as atenções.

— E o próximo prêmio vai para uma mulher inspiradora, peça essencial de uma descoberta científica que mudou nossa empresa… Cristina Martínez!

O salão explodiu em aplausos. Cristina se levantou com os olhos marejados. Aplaudi forte, sentindo um orgulho quente crescer no peito. Minha prima brilhava — e ver isso me fazia esquecer o tédio, a pompa, os olhares.

Por um instante, tudo era simples. Tudo era bonito.

Mas então…

Enquanto Cristina recebia aplausos, um homem surgiu ao lado do apresentador. Alto. Elegante. Terno impecável. A postura de quem domina o próprio mundo. Um olhar firme, penetrante. Um sorriso levemente calculado — o tipo de sorriso que sempre guarda um segredo.

Ele.

Alejandro Cruz González.

O CEO da empresa.

A estrela silenciosa da noite.

O tipo de homem que faz o salão inteiro mudar de temperatura só pela presença.

Ele subiu ao palco com passos firmes, impecável em seu terno escuro. As luzes refletiram nos detalhes metálicos do relógio em seu pulso, e por um instante eu senti como se o tempo tivesse parado outra vez — exatamente como naquela noite.

Fiquei olhando fixamente para ele.

Hipnotizada.

O corpo inteiro em alerta.

Mas ele não me viu.

Ou talvez… não ainda.

Meu coração disparou com tanta força que meu próprio peito pareceu ecoar. Uma mistura de choque, medo e algo que eu não queria — não podia — sentir novamente.

Não pode ser…

Mas era. Sem margem de dúvida.

O mesmo olhar que me queimou no escuro.

A mesma postura firme, segura, irresistível.

O mesmo silêncio que dizia muito mais do que palavras.

O mistério da minha noite de aniversário.

O homem desconhecido com quem eu havia dividido uma noite intensa.

Um toque.

A lembrança veio como um choque elétrico.

Senti, por um segundo, a mão dele — quente, firme — deslizando pela minha pele, traçando caminhos que meu corpo jamais esqueceu.

Mas a memória se partiu no meio, como se algo dentro de mim puxasse o freio.

Não…

Ele não podia ser apenas aquele homem misterioso do hotel.

Ele tinha que ser… casado. Noivo. Comprometido. Importante demais para se envolver com alguém como eu.

Meu estômago revirou.

Um segredo. Um pecado silencioso.

Algo que ninguém, absolutamente ninguém, poderia descobrir.

Um erro…

Ou talvez o destino escrevendo torto de propósito.

Porque, no fundo, eu sentia que minha vida não era mais apenas minha desde aquela noite.

E agora ele estava ali.

A poucos metros de mim.

Iluminado pelos holofotes.

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