Confusão dos números

A manhã chegou devagar, como se o mundo lá fora ainda não quisesse acordar.

Demorei para abrir os olhos. A cabeça latejava, o corpo parecia pesar o dobro. Cada músculo doía como se eu tivesse dançado a noite inteira — e talvez tivesse mesmo, de um jeito que nem lembrava direito.

Um feixe de luz atravessava a cortina, denunciando que o dia já tinha começado. Pisquei algumas vezes, tentando entender onde estava. Só então percebi que estava nua, coberta apenas por um lençol branco que cheirava a perfume masculino.

Foi quando tudo veio de uma vez — como um filme passando rápido demais. O elevador, a risada de Cristina, o quarto, a porta entreaberta, aquele homem…

Meu coração disparou. Sentei na cama num susto, o lençol escorregando até a cintura.

Olhei ao redor. Ele não estava mais ali. Nenhum sinal. Nenhuma camisa jogada, nenhum vestígio.

Senti um alívio estranho misturado com vergonha.

Levei as mãos ao rosto, tentando me lembrar de cada detalhe.

O que eu disse? O que eu fiz?

Meu Deus…

Levantei devagar, o corpo dolorido. Fui direto para o chuveiro. A água quente escorrendo pela pele parecia me devolver aos poucos para a realidade. Me vesti rápido, tentando ignorar o turbilhão de lembranças.

Ao sair do banheiro, meus olhos pararam no sofá.

A imagem dele sentado ali, me observando, voltou nítida à mente.

Um arrepio percorreu minhas costas.

— A Cris caprichou mesmo… — murmurei, sem conseguir evitar o comentário, meio rindo de nervoso.

Peguei minha bolsa, pronta para sair dali e nunca mais voltar. Quando abri a porta, olhei para o número do quarto — e o chão pareceu sumir sob meus pés.

108.

Não 118.

Fiquei parada, muda.

— Meu Deus… o que eu fiz? — sussurrei. — Quem era aquele homem? Onde está a Cris?

O desespero tomou conta. Peguei o celular enquanto caminhava apressada até o elevador.

— Atende, Cris… vai, atende! — repeti, chamando várias vezes.

Nada. Só o toque insistente do outro lado.

Quando cheguei à recepção, entreguei a chave tremendo.

A moça sorriu com simpatia.

— Senhorita, o quarto 108 já está pago. Ah, e o café da manhã também. Está incluso — disse ela, consultando o sistema. — Pode aproveitar, é seu aniversário, não é?

— O quê? Quem pagou? — perguntei, confusa.

Ela balançou a cabeça.

— Não sei te dizer. Está marcado como reserva restrita.

Fiquei parada, tentando processar.

— Meu aniversário… — repeti baixinho. — Foi ontem.

Agradeci, ainda zonza, e fui até o salão do café. O buffet era impecável, cheio de frutas, pães, sucos e aromas que, em qualquer outro dia, me deixariam encantada.

Mas naquele momento, tudo o que consegui fazer foi tomar um café preto forte, tentando aliviar a dor de cabeça — e, quem sabe, a vergonha também.

Enquanto olhava para a xícara fumegante, uma única pergunta ecoava na minha mente:

Quem era aquele homem?

Saí do hotel como quem foge de um sonho que deu errado.

A manhã estava fria, mas o sol já brilhava alto demais — sinal de que eu havia acordado tarde, talvez mais tarde do que deveria.

Entrei no primeiro táxi que encontrei na porta. O motorista me olhou pelo retrovisor, talvez curioso com meu silêncio e meu visual amassado, mas não disse nada.

Durante o caminho, fiquei olhando pela janela, vendo a cidade passar — os carros, as pessoas, a vida normal que continuava, enquanto a minha parecia ter virado um roteiro de comédia romântica mal ensaiada.

Quando finalmente cheguei em meu apartamento, larguei a bolsa no sofá e desabei na cama.

Meu corpo ainda doía, e minha mente girava entre o riso e o desespero.

Peguei o celular e tentei de novo.

— Atende, Cristina, por favor…

Na terceira tentativa, ela atendeu com a voz rouca, ainda sonolenta.

— Alô? Laura? Pelo amor de Deus, são dez da manhã, o que foi?

— O que foi?! — quase gritei. — Eu devia te perguntar isso!

— Ué, o que aconteceu? Você sumiu ontem! Achei que tinha subido pro quarto pra curtir o presente!

Suspirei fundo, sentado na beira da cama.

— Pois é. Eu fui… só que pro quarto errado.

Silêncio do outro lado.

— Errado… como assim errado? — perguntou, rindo nervosa.

— Errado, Cris! Era pra ser o 118. Eu entrei no 108.

Ela começou a rir. Primeiro um risinho contido, depois uma gargalhada que parecia não acabar mais.

— Ai, meu Deus… não, espera! Você tá brincando, né?

— Queria eu! — respondi. — Tinha um homem lá. Um homem de verdade, não o stripper! Eu achei que era ele!

— Não acredito! — ela gritou entre risos. — Então quer dizer que você… com um estranho hummm?!

Fiquei em silêncio.

— Ai, Laura, fala alguma coisa!

— Eu não sei o que aconteceu direito… — murmurei. — Eu bebi, a porta estava aberta, ele estava lá… e agora quero cavar um buraco e desaparecer.

Do outro lado, Cristina tentava se controlar, mas a risada voltava.

— Tá, tá bom, calma… deixa eu te contar o que aconteceu.

— Por favor, explica alguma coisa que faça sentido.

Ela pigarrou, ainda rindo.

— Eu desci pra pegar minha bolsa, lembra? Quando voltei, o stripper já tava lá, no quarto certo, te esperando. Só que você não voltava nunca!

— Porque eu tava no quarto errado, Cristina!

— Pois é! — ela continuou. — Eu esperei, esperei… e como achei que você tinha ficado tímida, acabei… bem, acabei ficando com ele.

— Você ficou com o stripper?! — exclamei, incrédula.

— Ué, alguém tinha que aproveitar o investimento, né? — disse ela, rindo. — Mas fala sério, você se superou, prima. Conseguiu transformar um presente de aniversário num mistério digno de série de TV.

Revirei os olhos, embora um sorriso teimoso tenha escapado.

— Você é impossível, Cristina.

— E você é uma lenda! — respondeu ela. — Agora me conta, pelo menos, ele era bonito?

Fechei os olhos, lembrando por um instante do olhar dele, da voz grave, do perfume..

Engoli em seco.

— Era. E muito…

— Ihhh… senti um suspiro aí — provocou. — Tá apaixonadinha pelo desconhecido, é?

— Ah, por favor, Cris… eu nem sei quem ele é.

— Pois eu digo uma coisa: quem sabe o destino não quis te dar um presente melhor que o meu?

Sorri, sem responder.

Mas lá no fundo, uma dúvida persistia.

Quem era aquele homem?

E por que, mesmo depois de tudo, eu ainda sentia o coração acelerar só de pensar nele?

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