Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Alana
O som do motor do ônibus era um zumbido constante que tentava, sem sucesso, abafar os gritos de agonia da minha loba. Trancada no canto mais escuro da minha mente, ela sangrava. A rejeição de um laço de alma não era apenas uma metáfora romântica; era uma mutilação física. Cada quilômetro que nos afastava das terras do Vale Sangrento parecia esticar uma corda invisível amarrada ao meu esterno, até que ela se partiu com um estalo doloroso, deixando um vazio frio e cavernoso no lugar do meu coração.
Quando o veículo finalmente freou, os freios soltaram um suspiro hidráulico que combinava com o meu estado de espírito. Eu havia chegado à capital.
Desci os degraus do ônibus segurando a mochila velha contra o peito, como se aquela lona gasta pudesse me proteger do mundo. A rodoviária central era um monstro de concreto e metal. Milhares de humanos passavam correndo por mim, imersos em suas próprias rotinas, falando ao celular, arrastando malas de grife. Ninguém olhava para a garota de vestido azul amarrotado, com os olhos vermelhos de tanto chorar e o lábio partido pelo próprio desespero.
Eu estava completamente sozinha. A única lembrança calorosa que me restava era o abraço de despedida da tia Gabi na madrugada anterior. “Não olhe para trás, Alana. O mundo é grande demais para você se curvar ao orgulho daquele Alfa”, as palavras dela ecoavam na minha mente como um feitiço de proteção.
Saí da rodoviária sem rumo. O céu da cidade grande não tinha o azul puro das montanhas; era cinzento, pesado. Não demorou para que uma chuva fina e gélida começasse a cair, transformando o asfalto em um espelho negro que refletia as luzes dos arranha-céus. Meus sapatos velhos encharcaram em poucos minutos. Encolhi-me sob o toldo de vidro de um grande edifício comercial, abraçando meus próprios joelhos para tentar conter os tremores que sacudiam meu corpo. O cansaço, a fome e a dor do laço quebrado finalmente cobraram o preço. Fechei os olhos e permiti que as lágrimas quentes se misturassem à água da chuva que escorria pelo meu rosto.
— Você está perdida, minha jovem?
A voz era firme, madura e exalava uma autoridade natural que me fez abrir os olhos sobressaltada. Meu instinto de loba, mesmo enfraquecido, me colocou em alerta.
Parada na minha frente, protegida da chuva por um imenso guarda-chuva preto segurado por um motorista de terno escuro, estava uma senhora. Ela parecia ter saído diretamente de uma revista de alta sociedade. Usava um sobretudo de lã italiana na cor vinho, um cachecol de seda e joias discretas, mas reluzentes, de pérolas legítimas. Seus cabelos eram de um prateado impecável, moldando um rosto marcado por linhas de expressão que demonstravam uma vida de comando. Mas foram os olhos dela que me prenderam: eram castanhos-claros, perspicazes, e me encaravam com uma mistura de avaliação e profunda compaixão.
— Eu... eu não tenho para onde ir — sussurrei, minha voz saindo rouca e quase inaudível por causa do frio.
A mulher me estudou por longos e silenciosos segundos. Ela olhou para a minha mochila gasta, para o tecido simples do meu vestido e, por fim, fixou o olhar nas minhas mãos calejadas. Mais tarde, ela me confessaria que viu na minha postura desabada, mas com os olhos herdados de quem se recusava a morrer, o mesmo olhar de uma sobrinha querida que ela havia perdido tragicamente anos atrás.
— Nenhuma moça com um olhar tão resiliente deveria passar a noite no chão gelado — ela disse, estendendo uma mão coberta por uma luva de pelica fina. — Meu nome é Helena Dumont. Venha comigo. Vou te dar um lugar quente, uma refeição de verdade e roupas secas. Depois, decidimos o seu futuro.
Eu não sabia quem era aquela mulher humana, mas o restinho de intuição que me sobrava dizia que recusar aquela mão seria o meu fim. Aceitei o toque.
O carro de Helena era um sedã preto blindado que deslizava pela cidade como um fantasma luxuoso. Menos de trinta minutos depois, cruzamos os portões de ferro fundido de uma mansão espetacular em um dos bairros mais nobres da capital. O luxo ali era diferente da opulência rústica da casa do Alfa; era sofisticado, minimalista e exalava poder econômico.
Após um banho quente que finalmente tirou o cheiro de floresta e humilhação da minha pele, fui vestida com roupas confortáveis que Sophia, a filha caçula de Helena, havia separado para mim. Quando desci para a imensa sala de jantar de teto alto, o núcleo da família Dumont já me aguardava ao redor de uma mesa de mogno polido. E foi ali que compreendi que o mundo dos humanos também tinha suas próprias alcateias, seus próprios predadores e suas disputas de território.
— Mãe, isso é um absurdo completo! — a voz áspera de um rapaz ecoou assim que entrei no ambiente. Era Caio, o filho do meio. Ele usava um relógio de ouro maciço, tinha os cabelos perfeitamente penteados para trás e um olhar arrogante que me deu náuseas, pois lembrava exatamente a expressão de Vívian e dos nobres que me humilharam. — Você não pode simplesmente recolher uma mendiga da calçada e trazê-la para dentro da nossa casa. Ela pode ser uma golpista, uma criminosa! Olhe para ela, não tem classe nenhuma.
A humilhação tentou erguer a cabeça novamente no meu peito, mas antes que eu pudesse recuar, outra voz, muito mais grave e imponente, cortou o ar.
— Meça as suas palavras, Caio. Você está na casa da nossa mãe, e a arrogância não combina com o sobrenome Dumont — interveio Arthur, o irmão mais velho. Ele era alto, de ombros largos, com a postura firme de quem já comandava grande parte dos negócios da família. Ele se levantou, caminhou até mim e me estendeu a mão com um sorriso genuinamente caloroso. — Seja bem-vinda, Alana. Se minha mãe viu valor em você, você tem o meu total respeito.
— E ela é linda! Olha a cor desses olhos, parecem duas esmeraldas — completou Sophia, a caçula, surgindo ao meu lado e entrelaçando o braço no meu com uma energia vibrante. Sophia exalava o perfume das passarelas de moda e tinha um sorriso que derreteria qualquer gelo. — Não liga para o Caio, Alana. Ele é ranzinza porque sabe que a inteligência da família ficou comigo e com o Arthur. Você vai amar o quarto que preparei para você!
Helena Dumont bateu levemente com o cabo de prata do seu garfo contra a taça de cristal, produzindo um som agudo que silenciou a mesa instantaneamente. Ela olhou para Caio com uma frieza que faria qualquer Alfa recuar, e depois olhou para mim, amolecendo a expressão.
— A partir de hoje, Alana viverá sob a minha proteção, como uma sobrinha legítima desta família. E amanhã mesmo, ela começará a frequentar a Dumont Holding como minha assistente pessoal — declarou Helena, a voz firme como um decreto real. — Eu passei a vida inteira identificando talentos ocultos no mercado financeiro, e eu garanto a vocês: esta menina tem a mente de uma vencedora. Eu vou ensiná-la a andar entre os tubarões.
Nos meses e anos que se seguiram, a promessa de Helena transformou-se na minha realidade. Eu não recebi apenas um teto; recebi uma armadura banhada a ouro. Sob a tutela implacável de Helena, aprendi a analisar gráficos complexos, a entender os meandros do mercado de ações e a falar a língua dos bilionários. Arthur se tornou meu mentor nos negócios e meu maior aliado, protegendo-me de cada tentativa sórdida de Caio de sabotar meus relatórios na empresa. Sophia me ensinou a usar saltos altos como se fossem extensões do meu próprio corpo, a me vestir com a elegância das mulheres mais poderosas do país e a transformar a minha beleza em uma arma de intimidação.
Eu estudava dezesseis horas por dia. Lia balanços financeiros até meus olhos arderem. Minha loba, outrora ferida, entendeu que nossa sobrevivência não dependia mais de garras, mas de conhecimento. Ela adormeceu em paz, sabendo que eu estava construindo algo indestrutível.
Em pouco tempo, minha mente ágil e minha frieza calculista chamaram a atenção de todo o conselho da holding. Onde Caio falhava por pura soberba, eu vencia pela preparação meticulosa.
Três anos se passaram em um sopro de determinação.
A Dumont Holding expandiu seus lucros de forma inédita sob a minha gestão direta. Helena, com lágrimas de orgulho nos olhos, assinou o documento que me nomeava Vice-CEO e sua sucessora lega, juntamente com os filhos delal. Eu não era mais a ômega humilhada. Eu era a nova soberana do mundo corporativo.
Caio me olhava nos corredores com um ódio que prometia vingança, mas eu já havia aprendido a esmagar cobras com o salto do meu sapato de grife.
Até que, em uma manhã nublada de outono, Arthur entrou no meu escritório particular de paredes de vidro. Ele trazia uma pasta de couro preto e uma expressão de profunda estranheza no rosto.
— Alana, recebemos um pedido emergencial de aporte financeiro e fusão de ativos de um conglomerado do interior que cuida de mineração e exportação de madeira — Arthur explicou, colocando a pasta sobre a minha mesa de mogno. — Eles estão praticamente falidos devido a uma administração catastrófica dos líderes locais. Mas as terras deles valem bilhões. É o contrato do século, mas eles exigem uma reunião presencial com a presidência hoje à tarde.
Puxei a pasta e a abri devagar. Meus olhos humanos correram pelas linhas do documento timbrado, mas quando leram as assinaturas no rodapé da página, o sangue nas minhas veias pareceu se transformar em nitrogênio líquido.
Propriedade: Terras do Vale Sangrento.
Representantes Legais: Hunter Collins e sua noiva e conselheira, Vívian Miller.
Um arrepio elétrico, o primeiro em três anos, percorreu a minha espinha. Minha loba abriu os olhos na escuridão da minha mente, soltando um rosnado gelado e poderoso.
Fechei a pasta sem pressa. Alisei as lapelas do meu terno branco impecável, ajeitei o relógio de luxo no pulso e olhei para Arthur. Um sorriso lento, magnético e perfeitamente impiedoso surgiu nos meus lábios.
O passado estava batendo à minha porta, falido e desesperado. Hunter Collins achou que havia me jogado no lixo. Ele não fazia ideia de que, hoje, o lixo era dono do império que decidiria se a alcateia dele iria sobreviver ou morrer.







