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Capítulo 4 — Eu não sou propriedade sua, Hunter. Eu não sou mais da sua alcateia

POV Alana

Assim que as assinaturas foram registradas e o contrato digital foi validado, o silêncio que se instalou na sala de reuniões era espesso o suficiente para ser cortado com uma faca. Vívian Miller recolheu sua bolsa de grife com tanta violência que uma das alças estalou. Ela me encarou com um olhar que misturava puro ódio e um terror mal disfarçado, antes de marchar em direção à saída, batendo os saltos com fúria. O advogado humano da comitiva deles a seguiu às pressas, parecendo aliviado por escapar daquela masmorra de vidro e poder econômico.

Hunter, no entanto, não se moveu de imediato. Ele permaneceu sentado, encarando o papel digital onde acabara de abrir mão de setenta por cento de tudo o que sua família construíra.

— Excelente trabalho, senhores. Clara guiará os assessores para os trâmites de transferência bancária — a voz de Dorian ecoou, calma e cirúrgica.

Meu advogado pessoal e melhor amigo ajeitou os óculos de armação fina e me deu um olhar cúmplice. Dorian havia entrado na minha vida seis meses após a minha chegada à capital. Ele já trabalhava para a holding Dumont e, sendo um híbrido — metade humano, metade lobo, mas sem pertencer a nenhuma alcateia —, ele foi o primeiro a perceber a energia reprimida em mim. Dorian não apenas guardou meu segredo, como se tornou meu porto seguro no escritório, ajudando-me a blindar a empresa contra as investidas de Caio.

Hunter finalmente se levantou. Ele guardou a caneta de ouro no bolso do paletó, fixou os olhos castanhos nos meus por um segundo eterno e, sem dizer uma única palavra, saiu da sala com passos pesados.

— Você está bem? — Dorian se aproximou, sua voz descendo a um tom que apenas meus ouvidos podiam captar. — O cheiro dele mudou no final. O lobo dele está em frenesi, Alana. O laço quebrado está cobrando o preço agora que ele viu o que perdeu.

— Estou perfeitamente bem, Dorian — respondi, respirando fundo e alisando as lapelas do meu terno branco. — O que ele sente não é problema meu. Monitore os fundos que enviaremos para a conta do Vale Sangrento. Quero cada centavo rastreado.

— Considere feito. Vou organizar os arquivos no andar de baixo.

Despedi-me de Dorian e caminhei em direção ao corredor privativo da diretoria. Aquele era um setor restrito, acessível apenas por cartões magnéticos de alta segurança, que levava diretamente ao meu escritório e ao elevador executivo. Eu precisava de um minuto de silêncio. Minha mente humana estava exausta de manter a máscara de gelo, e dentro de mim, a tensão era palpável.

“Você mentiu para o híbrido” — a voz de Aisha ressoou na minha cabeça, suas fendas douradas brilhando na escuridão da minha mente. “Você não está bem. O cheiro daquele Alfa acordou cada terminação nervosa do nosso corpo. Você sente como eu sinto.”

Cale-se, Aisha. Nós vencemos. Nós pegamos a empresa dele — retruquei mentalmente, apertando os passos pelo corredor silencioso e acarpetado.

“Pegamos o papel, Alana. Mas o lobo dele quer a fêmea. E ele está perto. Muito perto.”

Antes que eu pudesse processar o aviso de Aisha, uma sombra imensa cruzou o final do corredor privativo.

Meu coração deu um solavanco. Hunter estava ali. Ele não deveria ter acesso àquela área, mas um Alfa com sentidos aguçados e desespero o suficiente sempre encontrava uma brecha, ou simplesmente passava por cima das regras humanas.

Tentei manter a postura e continuar caminhando, mas antes que eu pudesse alcançar a porta do meu escritório, Hunter se moveu com a velocidade borrada de um predador. Em um piscar de olhos, ele bloqueou meu caminho. Suas mãos espalmaram-se na parede atrás de mim, uma de cada lado dos meus ombros, prendendo-me contra o painel de madeira nobre.

Ele não me tocou, mas sua proximidade era sufocante. O perfume de tempestade, carvalho e hortelã me inundou por completo, colidindo com o meu aroma amadeirado.

— Como você entrou aqui, senhor Collins? — perguntei, minha voz saindo incrivelmente firme, embora meu peito subisse e descesse rapidamente. Ergui o queixo, encarando-o de frente. — Afaste-se imediatamente ou acionarei a segurança armada.

Hunter não recuou. Ele se inclinou para a frente, o rosto a centímetros do meu. Seus olhos castanhos estavam injetados de sangue, as pupilas lutando entre o homem e o lobo. Eu podia ouvir a respiração pesada dele, o som do seu coração batendo como um tambor desgovernado no peito largo.

— Alana... — ele pronunciou meu nome como se fosse uma prece ou uma maldição, a voz rouca e trêmula. — Olhe para mim. Por favor, olhe para mim de verdade. Não como aquela executiva fria. É você... a minha parceira. Você está viva.

Um riso anasalado, desprovido de qualquer humor, escapou dos meus lábios perfeitamente pintados.

— Sua parceira? Acho que o senhor está sofrendo de amnésia corporativa, senhor Collins — ironizei, sustentando o olhar dele com uma frieza cortante. — A sua parceira era aquela ômega órfã e simples que você rejeitou no altar, diante de centenas de pessoas, chamando-a de inútil. Eu sou Alana Dumont, Vice-CEO desta holding. E a única ligação que temos hoje é aquele contrato assinado na mesa ali atrás.

Vi o maxilar de Hunter travar. Uma expressão de dor genuína cruzou suas feições robustas, e ele fechou os olhos por um segundo, encostando a testa de leve na parede, logo acima da minha cabeça.

— Eu errei. Deusa da Lua, eu cometi o pior erro da minha vida — ele sussurrou, a voz embargada por um desespero que eu nunca julguei ver no grande Alfa Supremo. — Eu era jovem, Alana. Fui pressionado pelo conselho, pela ambição de manter o bando seguro... Vivian e o pai dela me cercaram. Eu achei que sentimentos eram uma fraqueza. Mas desde a noite em que você sumiu, o meu lobo adoeceu. Eu adoeci. Há três anos eu não sei o que é ter paz.

“Ele está sofrendo, Alana” — Aisha choramingou na minha mente, arranhando minha consciência, movida pelo instinto do laço. “O lobo dele está chorando por nós. Deixe-me assumir. Deixe-me lamber as feridas dele.”

Fique quieta, Aisha! — ordenei mentalmente, sentindo o suor frio descer pelas minhas costas. Ele nos destruiu. Ele escolheu o poder. Agora ele vai ter o poder, mas sem nós.

— Suas desculpas não têm valor de mercado na Dumont Holding, Hunter — usei o primeiro nome dele de propósito, fazendo-o abrir os olhos rapidamente. Meu olhar era puro gelo. — Você escolheu o trono. Escolheu a linhagem pura da Vívian Miller. O que aconteceu com o seu lobo não é problema meu. Agora, tire as mãos da minha parede.

Hunter abriu os olhos, e a dor neles transformou-se em algo muito mais perigoso: uma determinação possessiva, a faísca da obsessão que a minha transformação havia acendido. Ele aproximou o nariz do meu pescoço, aspirando o meu perfume com força, soltando um suspiro trêmulo.

— Você mudou, Alana. Está mais linda, mais forte... exala um poder que eu nunca imaginei — ele sibilou, os olhos fixos na minha boca. — Mas o laço ainda está aqui. Eu sinto ele queimar no meu peito cada vez que você respira. Você pode usar o terno que quiser, pode ter o sobrenome dos humanos, mas você ainda é minha. E eu não vou assinar a falência do meu coração. Eu vou te ter de volta.

A arrogância dele, mesmo na derrota, acendeu a minha fúria. Coloquei minhas mãos espalmadas contra o peito dele e o empurrei com toda a força que o meu corpo humano e o apoio silencioso de Aisha podiam reunir. Hunter cambaleou um passo para trás, surpreso com a minha reação.

Ajeitei a gola do meu terno branco, recuperando o controle absoluto da minha postura. Olhei para ele de cima a baixo com o mais profundo desprezo.

— Eu não sou propriedade sua, Hunter. Eu não sou mais da sua alcateia. Se você tentar me encurralar ou me tocar novamente, eu cancelo o aporte financeiro. Eu deixo o banco leiloar as suas montanhas sagradas e assisto a Vívian Miller usar roupas de brechó — dei um passo à frente, batendo o dedo indicador no peito dele. — Você assinou o contrato. Eu sou a dona de setenta por cento da Collins. Eu sou a sua chefe. Entendeu bem? Agora, saia do meu andar antes que eu chame a polícia humana para te arrastar daqui.

Hunter me encarou por mais alguns segundos. O choque, o arrependimento e a óbvia obsessão selvagem dançavam em suas pupilas negras. Ele percebeu que a garota ingênua havia sumido para sempre, e que para ter qualquer chance com a mulher diante dele, ele teria que rastejar muito mais do que seu orgulho de Alfa jamais permitira.

Ele deu um passo para trás, curvando levemente a cabeça em um sinal involuntário de submissão.

— Isso não acabou, Alana Dumont — ele disse, a voz rouca prometendo uma guerra silenciosa. — Nos vemos na auditoria das terras na próxima semana.

Ele se virou e caminhou em direção ao elevador. Assim que as portas de metal se fecharam, minhas pernas finalmente fraquejaram. Apoiei-me na porta do meu escritório, respirando arfante, enquanto Aisha uivava de frustração na minha mente.

O primeiro embate havia terminado. Eu havia vencido no papel, mas a obsessão do Alfa estava apenas começando a despertar.

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