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Capítulo 5 — “Nós vamos voltar para a nossa antiga casa, Alana”

POV Alana

O trajeto de volta para a mansão Dumont foi feito em um silêncio denso. No banco de trás do sedã blindado, encostei a cabeça no vidro frio, observando os borrões dourados que os postes da avenida formavam na noite paulistana. Minha mente era um campo de batalha. Por fora, eu mantinha a respiração compassada, mas por dentro, Aisha andava em círculos na escuridão, inquietas garras arranhando minha sanidade.

“O cheiro dele ainda está impregnado nas nossas roupas”, Aisha sibilou, sua voz mística ecoando com uma ponta de frustração. “Ele estava tão perto, Alana... O lobo dele está doente de arrependimento. Você viu os olhos dele? Ele está desesperado por nós.”

Ele que fique desesperado até sangrar, Aisha, respondi mentalmente, endurecendo meus pensamentos. Não fomos nós que quebramos o laço. Ele escolheu o poder. Agora, aguente as consequências.

Aisha soltou um bufo baixo, mas recolheu-se, respeitando o meu cansaço. Ela sabia que, por mais que o instinto animal clamasse pelo parceiro, o meu orgulho humano era o que nos mantinha vivas.

Quando o carro finalmente cruzou os portões de ferro e estacionou na fachada da mansão, senti um peso imediato sair dos meus ombros. Aquela casa não tinha o cheiro de mofo, medo e opressão dos alojamentos dos servos do Vale Sangrento. Tinha cheiro de lar.

Assim que empurrei as portas duplas da entrada, o aroma reconfortante de risoto de parmesão e manjericão fresco invadiu meus sentidos.

— Alana! Finalmente! — Sophia surgiu no topo da escadaria, descendo os degraus quase correndo. Ela já havia trocado as roupas de grife por um pijama de seda rosa e pantufas felpudas. Ela correu até mim, segurando minhas mãos. — Eu estava roendo as unhas! O Arthur me mandou uma mensagem dizendo que a reunião foi um escândalo de tão perfeita, mas ele não quis me dar os detalhes! Conta tudo!

Antes que eu pudesse responder, a figura imponente e acolhedora de Helena Dumont apareceu na entrada da sala de jantar. Ela usava um cardigã de tricô leve e um sorriso terno que, instantaneamente, desarmou qualquer resquício da minha postura defensiva de CEO.

— Deixe a menina respirar, Sophia. Ela passou o dia lidando com os tubarões do interior — Helena disse, sua voz melodiosa e maternal agindo como um bálsamo. Ela caminhou até mim e envolveu meus ombros em um abraço caloroso, depositando um beijo carinhoso na minha bochecha. — Bem-vinda de volta, minha querida. O jantar está servido. Venha.

Sentar-se à mesa com os Dumont era uma experiência que, mesmo após três anos, ainda fazia meus olhos marejarem discretamente. No mundo dos lobos, os ômegas comiam as sobras frias na cozinha, de pé, sob os olhares de desdém dos guerreiros. Aqui, eu tinha o meu lugar reservado na cabeceira, ao lado de Helena.

— Dorian me ligou para confirmar os dados da transferência — Arthur comentou, servindo o vinho nas taças com a sua habitual calma executiva. Ele olhou para mim com um brilho de admiração nos olhos azuis. — Ele me contou sobre o contrato, Alana. Setenta por cento. Você os esmagou sem precisar levantar a voz. Como foi gerenciar o acordo?

Olhei para o meu prato, mexendo no risoto devagar.

— Foi satisfatório, Arthur. O senhor Collins achou que receberia um empréstimo amigável. Ele descobriu da pior forma que o mercado financeiro cobra caro por erros de gestão.

— Tenho certeza de que ele ficou babando quando viu a mulher maravilhosa na frente dele e nem se importou com as porcentagens — Sophia piscou, orgulhosa do visual que havia ajudado a construir. 

Uma onda de calor humano preencheu meu peito. Olhando para o sorriso de Sophia, o respeito nos olhos de Arthur e o olhar transbordando de amor materno de Helena, meu coração apertou de saudade. Aquele cuidado tão genuíno sempre me fazia lembrar da única loba que havia me dado amor quando eu era um nada: a tia Gabi. Imaginei o quanto a tia Gabi ficaria orgulhosa se me visse ali, jantando como uma rainha em uma mesa humana, sendo amada por pessoas que não se importavam com a minha linhagem de sangue. “Eu vou voltar para te buscar, tia Gabi”, prometi a mim mesma em um pensamento silencioso. “Muito em breve.”

— Ah, por favor, parem com essa palhaçada. Vocês estão agindo como se ela tivesse descoberto a cura de uma doença — uma voz carregada de desdém cortou a harmonia da sala.

Caio entrou no ambiente, jogando o paletó de qualquer jeito sobre uma das cadeiras vazias. Ele se sentou com um bico irritado, pegando os talheres com violência. Seus olhos injetados de inveja fixaram-se em mim.

— O que você fez hoje não foi uma jogada de mestre, Alana. Foi um capricho pessoal — Caio cuspiu as palavras, olhando para a mãe. — Nós assumimos setenta por cento de uma empresa de madeira caindo aos pedaços no meio do nada! Colocamos milhões de dólares em risco só para que a "protegida" da mamãe pudesse inflar o próprio ego. Isso é péssimo para os negócios da Dumont Holding!

O silêncio caiu sobre a mesa. Arthur franziu o cenho, prestes a intervir, mas Helena apenas ergueu uma das mãos, silenciando o filho do meio com um único olhar gélido.

— Caio — a voz de Helena saiu baixa, mas com o peso de um trovão. — Se você tivesse passado os últimos três anos estudando os relatórios de mineração daquela região em vez de gastar o dinheiro da empresa em iates e festas em Mônaco, saberia que as terras da Collins Exportações possuem uma das maiores reservas de nióbio e minerais raros ainda não exploradas do país.

Caio arregalou os olhos, a boca se abrindo em surpresa.

— Nióbio...? — ele gaguejou.

— Sim — continuei, limpando os lábios com o guardanapo de linho, mantendo o meu tom calmo e superior. — O gerenciamento deles era péssimo, Caio. Mas o patrimônio é imbatível. A Dumont Holding acabou de adquirir o monopólio de exportação de minérios do interior por um terço do valor de mercado. Eu não brinco com o dinheiro da minha madrinha. Cada passo meu é calculado para trazer lucro. 

Sophia soltou uma risadinha abafada, e Arthur balançou a cabeça, impressionado. Caio ficou completamente vermelho, engolindo o seco, humilhado diante de toda a família por sua própria ignorância. Ele voltou a atenção para o prato, bufando de frustração. 

Helena estendeu a mão sobre a mesa, cobrindo a minha com um aperto carinhoso.

— Você foi brilhante, minha filha. Mas sei que o dia foi exaustivo. Coma bem e descanse. Porque na próxima semana, você terá que ir pessoalmente até aquela região para assumir o controle da auditoria nas terras deles. E você precisará estar forte.

Olhei para Helena, sentindo a determinação blindar meu coração mais uma vez.

— Eu estarei pronta, Helena.

Naquela noite, deitada em meus lençóis de algodão egípcio, fechei os olhos. Aisha se deitou na minha mente, sua pelagem branca brilhando na escuridão.

“Nós vamos voltar para a nossa antiga casa, Alana” — a loba sussurrou, uma promessa perigosa vibrando em sua voz. “Mas desta vez, não vamos limpar o chão. Nós vamos ditar as regras.”

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