Mundo de ficçãoIniciar sessãoValentina Duski
— Hum... — O gemido escapou como um sopro de agonia. Minha boca tinha o sabor ácido do medo misturado ao veneno químico que me apagou. Cada fibra do meu corpo gritava. O frio daquele lugar não era apenas térmico, era um gelo que vinha da alma. Abri as pálpebras com esforço e a escuridão foi subitamente rasgada por luzes frias e violentas. Dois vultos surgiram, projetando sombras monstruosas nas paredes. — Vejam só... a Bela Adormecida resolveu despertar para o pesadelo — um deles rosnou, aproximando-se do meu rosto. — Onde está meu pai? — Minha voz saiu rouca, mas firme, em um russo impecável. Eles travaram. O silêncio que se seguiu foi carregado de choque. — A cadelinha fala a língua dos lobos... — o mais alto debochou. — Cadelinha é a mulher que te deu a vida e não te ensinou a ser homem! — cuspi as palavras, sentindo o fogo da Valentina "fera" despertar. A reação foi rápida e violenta. Senti o impacto e o mundo girou. Quando voltei o rosto para eles, eu sorria. Um sorriso sangrento e desafiador. — O seu paizinho? — o outro se inclinou, exalando um hálito podre. — Ele morreu como um verme. Gritou o seu nome até o último suspiro, implorando por uma misericórdia que não conhecemos. Aquelas palavras foram piores que qualquer agressão física. Meu alicerce, meu mundo, meu herói... reduzido a cinzas. Eu estava sozinha, flutuando no vazio, mas não lhes daria o prazer de me ver desmoronar. — Por que o mataram? O que vocês querem? — Ele roubou o que nos pertence, izmennik! — (Traidor). O ódio dele era palpável. — Onde ele escondeu? — Eu não sei de nada! — Gritei, sentindo meu cabelo ser agarrado. — Você está na Itália agora, ratinha. O seu pai nos trouxe até aqui, jurando que o segredo estava em solo italiano. Se você não abrir a boca, este será o seu túmulo. Ele não percebeu. Meu pai, mesmo na morte, foi um estrategista brilhante. Ele os atraiu para o território de Alessandro Vitali. Ele me entregou à boca do lobo italiano para me salvar dos ursos russos. — Eu não sei... por favor... — Forcei um soluço, a máscara de vítima era minha única arma agora. — Inútil! — ele rugiu. A dor se tornou insuportável. Senti meu corpo ceder e o líquido quente do sangue lavar meu rosto, cegando-me instantaneamente. O chão frio foi o meu último consolo. Papai... eu tentei. O vazio me abraçou. Naquele momento, desejei com todas as minhas forças que a escuridão fosse eterna. Eu não sabia que, para renascer como a verdadeira Valentina, eu primeiro precisava morrer naquele porão. Alessandro Vitali — Papai, posso lhe mostrar o meu desenho? Merda. — Agora não, Antonella! Estou ocupado! — respondi duramente. Sei que é errado, mas estou em meio a uma crise e não posso parar por causa da minha filha. A máfia vem em primeiro lugar. Sempre. Minha mente é um campo de batalha. Além de ser o Capo da La Fratellanza, gerencio empresas aqui na Itália e no exterior. Vi minha filha sair de cabeça baixa; com certeza foi chorar. Eu não sou um bom pai, nunca quis ser. Antonella foi um acidente, fruto de um golpe de sua mãe, que hoje não passa de uma defunta. Minha mamma, Patrizia Vitali, insistiu para que eu deixasse a criança nascer. Eu permiti, mas assim que ela deu à luz, meti uma bala em sua cabeça. Ninguém me faz de otário. Eu sou Alessandro Vitali, o Capo, não um reles soldado. — Don! — Luigi Carbone entrou no escritório com uma expressão sombria. Ele é meu Consigliere e amigo de infância. Luigi é o único que não teme me chamar à atenção quando passo dos limites. Aos trinta e sete anos, ele é a voz da experiência e o terceiro no comando. O segundo é meu irmão, Luca Vitali, meu Sottocapo. Ele é meu braço direito, o homem que assume meu lugar e faz a ponte com os soldados. — Qual é o problema? — questionei. — Capturamos um dos russos. Eles tiveram a audácia de entrar em nosso território. — Cazzo! Onde ele está? — A raiva ferveu. Eu precisava extravasar minha fúria em alguém; já sentia falta do cheiro de sangue. — No "Salão", senhor. Luca já está interrogando o infeliz.






