3- O ultimo comando

Valentina Duski

Sorrindo entre lágrimas, levantei a blusa. Eu tenho 8 tatuagens. O nome da minha mãe e do meu pai em formato infinito no pescoço, uma âncora. Eu a fiz atrás da orelha direita, simbolizando tudo que quero e não poderei ter. Estabilidade! Um beija-flor na coluna, uma flor de lótus no abdômen... A minha preferida é o lobo cinzento com a rosa vermelha sangrando. Tenho um coração pequeno em meu dedo anelar direito. A última, ao lado da coluna, era a frase que eu dissera a ele.

— Isso é latim, você sabe que não sei ler — comentou, rindo.

— Mas eu sei. O senhor quis que eu aprendesse muitas coisas. O que está escrito é: SEJA FORTE, AINDA QUE ESTEJA FRACO.

— Está lindo, filha. Mas agora, chega de conversa. Hoje você tem treino com armas brancas e idiomas. Depois, passe na loja da senhora Joana; encomendei algo.

Eu sabia o que ele estava fazendo: queria que eu não pensasse na morte. Passei o dia treinando meus reflexos no clube com o senhor Mark. Sou a melhor aprendiz dele; está no sangue, herdei dos meus pais. À tarde, mergulhei nos idiomas. Falo oito, incluindo mandarim, russo e o meu amado latim.

Antes de ir para casa, peguei a encomenda. Cheguei e ele já preparava o jantar.

— A bênção, papai!

— Deus lhe abençoe, filha. Como foi o seu dia?

— Foi bem, pai. O mesmo de sempre.

Assim que falei, senti um calafrio. Meu coração gelou.

— O que foi? Está passando mal?

— Senti algo estranho... um mau pressentimento, pai.

Fui tomar banho, mas a sensação não passava. Jantamos, orei e fui me deitar para ler. Meus dez livros são meus "bebês", já que nossa vida incerta não permite uma biblioteca maior. Meus olhos pesaram e eu adormeci. Parecia que tinha acabado de entrar na zona dos sonhos quando acordei com um som forte e alguém me chamando:

— Valentina, acorda... ACORDA!

Levantei assustada e puxei minha arma debaixo do criado-mudo, apontando-a para o nada. Assim que vi meu pai, abaixei-a rapidamente e a devolvi ao lugar.

— O que houve? — perguntei, o coração martelando no peito.

— Estamos sendo atacados! — ele disse com urgência. — Pegue esta mochila. Aqui tem tudo o que precisa: documentos falsos e os seus verdadeiros, que estão em um compartimento secreto. — Percebi que era a encomenda da loja da senhora Joana. — Coloque o seu anel no compartimento e saia pela passagem secreta. Agora!

Eu não posso fazer isso.

— Não! Eu vou lutar... não vou deixar o senhor sozinho!

— Você vai me obedecer, Valentina Duskin! Faça o que estou pedindo! — Ele veio até mim e me abraçou apertado. — Eles são muitos, e eu preciso que você sobreviva. Eu te amo, e peço desculpas por não ter lhe dado a infância que você merecia.

Eu já estava chorando e o apertei de volta.

— Não, papai... eu não mudaria nada. Tenho orgulho de ser sua filha — falei entre fungadas.

— Eu sei disso, pequena. Agora vá, não temos tempo! Esconda-se e, quando ouvir os tiros, saia por onde lhe ensinei. Assim que estiver segura, procure o Capo da máfia A Irmandade.

Assenti, mas lembrei de algo crucial quando ele já estava na porta.

— Qual é o nome dele? — gritei para que ele ouvisse sobre o barulho que vinha de fora.

— Alessandro Vitali! — respondeu, antes de sair correndo sem olhar para trás.

O som de gritos e tiros preencheu a casa. Fiz o que ele pediu e entrei no compartimento secreto do meu quarto. Corri por um tempo que pareceu uma eternidade, até que ouvi passos pesados atrás de mim. No meio daquela confusão mental, percebi o meu maior erro.

Esqueci minha arma em cima da cama. Porra, erro de principiante!

— Cadê você, ratinha? — Ouvi uma voz masculina. O sotaque era pesado, claramente russo.

Desgraçados... Vou matar todos vocês. Não hoje, mas eu terei minha oportunidade.

— Olha quem eu encontrei, Sergei... — Um deles disse, puxando-me pelos cabelos de onde eu tentava me ocultar.

Eu poderia lutar, mas algo me dizia para ter paciência. Precisava de um plano, não de um ataque suicida.

— Por favor, não me machuquem... eu... por favor... — Fingi-me de indefesa, ganhando tempo.

— Olha como a traidora implora pela vida. E olha como ela é gostosinha, cara... — Ele falava em russo, o que me causava um nojo profundo.

Nojentos.

— Quem são vocês? O que querem de mim? — Céus, bancar a inocente não era para mim.

Eu estava chorando de verdade, mas não por medo deles, e sim porque sabia que tinha acabado de perder meu pai.

Antes que eu pudesse reagir ou planejar o próximo passo, senti algo ser pressionado contra o meu nariz. O cheiro químico invadiu meus pulmões e, em segundos, o mundo escureceu. Não vi, nem ouvi mais nada.

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