Mundo de ficçãoIniciar sessãoValentina Duski
— E onde o senhor escondeu isso? — Eu já sabia a resposta pelo modo como ele evitou meu olhar. Papai se levantou e foi até um fundo falso na parede. Ele voltou com um objeto pequeno entre os dedos. — O que é isso? — perguntei, observando o anel de ouro. No centro, uma pedra verde profunda brilhava sob a luz fraca do chalé. Era exatamente da cor dos meus olhos. — Era da sua mãe. Ela nunca o tirava do dedo; usava com um orgulho que eu nunca entendi totalmente. — E por que está me entregando isso agora? — Ela gostaria que ficasse com você. Mas ele serve a outro propósito — explicou, indicando uma ranhura quase invisível na lateral da pedra. — Eu mandei implantar um dispositivo de armazenamento criptografado. É um sinalizador de localização. Se você ativar o mecanismo, ele revelará as coordenadas de onde os arquivos estão enterrados. Meu coração saltou no peito. O peso daquele anel parecia ter dobrado. — Mas atenção — ele segurou minha mão com força. — Se errar a sequência de ativação ou se o sistema detectar uma tentativa de invasão, ele se autodestruirá em dez segundos. Você só terá uma chance. — Como eu vou saber decifrar isso? — Você saberá, minha pequena guerreira — afirmou, usando o apelido que me dava na infância. A certeza no olhar dele era assustadora. — Agora vá descansar. Sei que está exausta. Ele me conhecia bem demais. O baque das revelações drenou o resto da minha energia. Assim que me deitei, o peso do cansaço venceu a ansiedade. Não levei cinco minutos para apagar, mergulhando em um sono sem sonhos, enquanto o anel queimava em cima da minha cômoda. (***) Depois que acordei e fiz minhas higienes matinais, procurei logo pelo meu pai. Depois do que ele me confidenciou, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Assim que o encontrei, pedi a bênção e me sentei à sua frente. Ele já havia arrumado a mesa do café; parecia estar apenas me esperando. — Bom dia, pai! — Bom dia, filha! Dormiu bem? Ele estava tão abatido... parecia que ele, sim, não havia pregado o olho. — Dormi na medida do possível. Mas e o senhor? Parece que não descansou nada. — Não consegui fechar os olhos. Guardei esse fardo por tanto tempo sozinho... — falou, abaixando a cabeça. — Seja forte, ainda que esteja fraco. Lembra? É o nosso lema — beijei o dorso de sua mão e continuei: — A vida é assim mesmo: circunstâncias difíceis formam pessoas mais fortes, papai. O senhor Nikolai sorriu fraco e olhou-me nos olhos. — Você se tornou uma mulher linda, inteligente e muito madura. Sua mãe teria orgulho da pessoa que se tornou, assim como eu tenho. Eu sou uma "bobona", choro fácil. No entanto, basta triscar em quem eu amo para que eu vire uma fera selvagem. Eu realmente sou digna do meu nome. — Agradeço, pai. Mas me conte... sei que está me escondendo outra coisa, eu sinto isso — pigarreei, nervosa. Ele largou minha mão e se levantou bruscamente. — Não sei do que está falando — respondeu, sem me olhar nos olhos. Conta outra, meu velho. — O senhor esquece a filha que tem. Por favor, não insulte minha inteligência — levantei-me e fui até ele. — Fala, papai! Sentindo-se vencido, ele me encarou. O que vi em seu olhar me desarmou: vi dor, muita dor. — Eu estou doente, filha. — Doente quanto? Como assim? Que doença? — as perguntas dispararam; eu estava com medo. — Estou com um tumor cerebral. Ele já tomou quase todo o cérebro. Escutei aquilo como se fosse uma pedrada. Não conseguia piscar, muito menos sair do lugar. — Quanto tempo o senhor tem? — indaguei em um fio de voz. — Ia me contar? A verdade é que eu me sentia traída. Ele ia me abandonar. — Talvez semanas, ou meses. Os médicos ainda estão estipulando um prazo — ele veio até mim e pegou minha mão. — E respondendo à sua pergunta: eu ia, sim, lhe contar. Estava apenas esperando o momento certo. Puxei minha mão de seu toque e o olhei, ferida. — Ah, sim. Ia me contar quando já estivesse em um leito de hospital, sem conseguir falar nada! — eu gritava, mas por dentro estava apavorada. — Agora estarei sozinha, sem ninguém. — Não, você não estará sozinha. Você é uma mulher linda e tem uma vida inteira pela frente. Sem o senhor comigo. — Oh, papai... o que será de mim sem o senhor para pegar no meu pé? — joguei-me em seus braços. — Para quem contarei quando fizer uma tatuagem nova? Ele sorriu e segurou minha cabeça com suas mãos frias. — Tenho fé que vencerá todos os desafios. Você é valente e determinada — deu uma pausa dramática. — Você fez uma tatuagem? Onde?






