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No Destino do Mafioso
No Destino do Mafioso
Por: Liliane Mira
1- O legado de Nikolai

Valentina Duski

— PORRA! Fica no jogo, Valentina! — O grito do meu pai ricocheteou nas paredes, mais cortante que o frio lá fora.

Eu estava ofegante, o gosto de ferro do sangue na boca e o suor gelando na nuca. Não entendo por que ele é tão implacável, por que me trata como um soldado de infantaria em vez de uma filha. Eu queria sonhos, queria o banal; em vez disso, recebo hematomas.

— Desculpe, senhor. Não vai se repetir — respondi, engolindo o orgulho e a mágoa. — De novo.

Ele percebeu o brilho de raiva nos meus olhos e relaxou a postura de guarda, mas o estrago estava feito. A distância entre nós já tinha quilômetros de largura.

— Me perdoe, Valentina. Só quero que você sobreviva a eles.

— Sobreviver a quem, pai? — explodi. — Você me treina desde os dez anos. Eu tenho vinte e não conheço ninguém além de você e de identidades de plástico. Você tem medo da própria sombra e me mantém no escuro!

Ele tentou me interromper com aquele olhar de comando, mas eu não recuei. O que ele não aceita é que não sou mais a criança que chorava por joelhos ralados. Eu sou uma Duskin.

— Não questione meus motivos. Apenas execute — disse ele, a voz voltando a ser de gelo.

— Eu não sou seu recruta, Nikolai. Sou sua filha. Relacionamentos não são ditaduras; se você quer minha lealdade total, eu preciso da verdade. Ou isso, ou da próxima vez eu não vou levantar do chão.

O silêncio pesou. Achei que ele fosse explodir, mas ele deu um sorriso triste, quase imperceptível.

— Você fala igualzinho à Sandra. Ela tinha essa mesma teimosia perigosa. — Ele respirou fundo, e por um segundo vi o velho cansado por trás do instrutor. — Eles a mataram, Valentina. E se nos acharem, farão o mesmo conosco. Tenho algo que pertence a eles, um seguro de vida que se tornou uma sentença de morte.

Ali, no meio do treino, o muro caiu. Nikolai estava envelhecendo rápido demais — as mãos tremiam levemente e as roupas pareciam grandes para o seu corpo cada dia mais magro. Eu sabia que havia algo errado com a saúde dele, algo que o tempo no banheiro e o cheiro de remédios escondiam.

— Vai me contar agora? — perguntei, baixando a guarda.

— Primeiro, termine a sequência. Combate corpo a corpo e tiro de precisão. Se o mundo desabar hoje, quero que você saiba onde atirar.

Ele me moldou como uma arma. Enquanto jovens da minha idade escolhiam faculdades, eu aprendia a desmontar uma Glock em segundos e a manusear lâminas com a memória muscular de quem nunca teve escolha. Ele dizia que minha mãe era melhor que ele; uma brasileira que viveu na Itália e acabou no meio do fogo cruzado entre a Bratva e a Fratellanza.

Voltamos para o chalé em Whistler sob a luz cinzenta do crepúsculo canadense. O isolamento da neve era nossa única segurança. Enquanto eu lavava a louça do jantar, o silêncio finalmente foi quebrado.

— Eu era da Bratva. Você sabe o que isso significa — ele começou, a voz baixa. — Não há aposentadoria na máfia russa. Ou você serve, ou você vira estatística.

— E você tentou sair — deduzi, sentindo o peso daquelas palavras.

— Tentei dar uma vida normal para vocês. Mas sua mãe... ela estava jogando dos dois lados. Ela passava informações para os italianos. Quando os russos descobriram, foi um massacre. Eu fugi com você e com os arquivos que provam cada crime da cúpula russa. É por isso que nunca param de caçar.

Senti um nó na garganta. Minha vida inteira era um subproduto de uma guerra de facções.

— Se a Itália e a Rússia se odeiam tanto, como vocês ficaram juntos?

— Ela era brasileira no papel, um fantasma no sistema. Eu estava cego de amor, Valentina. Mesmo quando soube que ela era italiana, não consegui puxar o gatilho.

Ele me olhou com uma urgência que me assustou.

— Se eu cair, procure a Fratellanza. Entregue os arquivos. Eles não são santos, mas têm um código de honra que os russos desconhecem. Diga o nome da sua mãe. Eles vão te acolher por dívida de sangue.

— Eu mal lembro do rosto dela, pai... — confessei, a voz falhando.

Eu não guardava mágoa, mas a dor era real. Estávamos ali, dois fugitivos em um chalé de luxo cercado por neve, vivendo uma mentira que custou tudo.

— Eu tenho um pen drive com fotos dela — ele começou, a voz falhando por um instante. — Lá também tem um vídeo que ela gravou para você. Você se parece tanto com ela, Valentina... possuem o mesmo olhar.

— Onde está? Eu quero ver! — Minha resposta veio rápida, afoita. Ele nunca tinha se aberto tanto sobre ela como agora.

— Não está aqui. Está guardado junto com todos os dados que consegui reunir sobre a Bratva.

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