Mundo ficciónIniciar sesiónNa manhã seguinte, despertei atordoada com uma funcionária me chamando.
— Moça, está tudo bem? Vocês estiveram aqui a madrugada toda, mas não fizeram ficha para atendimento. O que houve?
— Me desculpe, é que chegamos de viagem, viemos do interior visitar uma tia e acabamos nos perdendo. Como meu celular descarregou, fiquei sem ter como falar com ninguém.
Foi o melhor que consegui pensar, e para a minha surpresa, a senhora que parecia trabalhar na recepção acreditou.
— Sabe o número? Pode usar o nosso telefone.
Fingi estar feliz pela ajuda e até pensei em ligar para uma amiga da faculdade, mas não sabia o contato de cabeça, e se pegasse meu celular, minha mentira cairia por terra. Peguei o telefone fingindo ligar para alguém e simulei uma conversa. Em seguida, pedi mais um favor para a mulher:
— Ela me disse para pegar um Uber para a Universidade Federal. A senhora conseguiria verificar para mim quanto fica e fazer o pedido, por favor?
— Claro.
Como nós estávamos longe, a corrida me custou R$ 35,00 e, apesar de temer ficar sem dinheiro, eu precisava conseguir ajuda e tirar minhas irmãs da rua. Nós três seguimos, e já acordada, Beatriz começou a choramingar.
— Isa, onde estamos? Estou com fome.
— Nós já vamos comer, maninha, tenha paciência.
Suspirei, angustiada, segurando o choro. Assim que chegamos, as deixei em segurança na cantina, comprando um lanche para cada uma, e aguardei ansiosamente pela chegada de Marina, minha melhor amiga.
— Isadora? — Ela me olhou espantada ao ver o meu estado. — Você está bem? Está tão sumida.
Nesse momento, a abracei, liberando as lágrimas, enquanto explicava tudo que tinha passado.
— Meu Deus! Você é louca! E se esse homem vier atrás de vocês? Se chamar a polícia?
— Eu não sei, não pensei. Preciso arrumar um lugar para ficar, até me organizar.
— Você não pode ficar por perto, ele vai te encontrar. As meninas são menores de idade, ele ainda é o pai delas!
— Amiga, me ajuda?
Marina assentiu e nos levou para sua casa. Porém, sua família também era humilde, e ela dividia o quarto com mais dois irmãos. Não havia espaço para nós ali, por maior que fosse sua boa vontade. Ao menos consegui que minhas irmãs tivessem o que comer e um local seguro para descansar, enquanto minha amiga e eu passamos a tarde pesquisando um local que eu pudesse alugar.
Encontramos um quartinho em um bairro da periferia, com um valor mais acessível, ciente de que eu sequer tinha dinheiro para isso.
— Isso é tudo que eu tenho… — Mariana falou, me passando R$100,00.
— Obrigada, eu prometo que te pago. Vou arrumar um emprego o mais rápido possível e te pago.
Juntando o que eu ainda tinha na minha conta, mais o que havia sobrado do dinheiro que peguei de Anilton, consegui o valor de R$ 367,00, enquanto o aluguel mais em conta que havíamos conseguido era R$ 350,00. Ciente de que não teríamos mais dinheiro sequer para comer, seguimos para o local, que se tratava apenas de um pequeno quarto vazio com banheiro.
Não tínhamos móveis, meios de preparar qualquer alimento, ou o básico para sobreviver, no entanto, minhas irmãs não estariam ao relento. Já era noite, e utilizamos um edredom que Mariana havia nos doado para forrar o chão, enquanto nos cobrimos, dividindo o cobertor que havíamos levado de casa.
— Isa, minha barriga dói… Estou com muita fome. — Bia resmungou, após passarmos o dia inteiro somente com o almoço que comemos na casa da minha amiga. — Não vamos voltar para casa?
Eu não sabia como explicar, tudo que consegui dizer foi que iria em busca de comida. Tudo que eu tinha era R$ 17,00. Então, comprei quatro pães, mortadela e uma caixa de suco.
Enquanto caminhava de volta, notei algumas mulheres na esquina, próximo a uma distribuidora de bebidas, vestindo roupas curtas e se insinuando na janela de um carro que parou. Não era preciso ser um gênio para entender o que elas estavam fazendo e, diante de tudo que eu estava passando, pude compreender porque algumas pessoas chegavam a esse extremo.
— Você não vai comer? — Amanda perguntou ao ver que não toquei nos alimentos.
— Estou sem fome. Comprei a mais para vocês tomarem café amanhã.
— Isa… — Minha irmã me olhou com os olhos lacrimejando, ciente de que eu estava me sacrificando por elas, para que tivessem o que comer.
Como se não bastasse, mais tarde, Beatriz, que já havia dormido, acordou gemendo devido a uma febre alta, provavelmente tendo adoecido após a chuva e o frio da noite anterior. Eu chorava sem saber o que fazer, sem ter mais dinheiro para comprar comida, um remédio ou levá-la ao hospital.
— Vou ver se a vizinha tem Dipirona. Amanhã tento conseguir algum trocado para levar ela ao médico.
Consegui o remédio com a moça do quarto ao lado, dei para Beatriz e me deitei ao lado dela, aguardando que fizesse efeito.







