Capítulo 8

Enquanto seguíamos rumo à casa de Leon, ele explicava brevemente como era sua filha.

— A Luana é paraplégica. Há pouco mais de um ano, a mãe dela sofreu um acidente de carro, falecendo no local. Minha filha, que estava junto, sofreu uma lesão grave na coluna.

— Oh… Que triste — comentei. — Sinto muito pela sua esposa.

Ele tirou o olhar da estrada rapidamente, encarando-me de forma séria; em seguida, desviou o olhar, suspirando pesadamente.

— Minha filha saiu da escola e vem tendo aulas em casa. Não tem convívio com outras crianças ou outras pessoas além de mim, da avó e das funcionárias. Ela precisa de cuidados especiais. Como trabalho muito, ela sente falta de atenção e tem sido um pouco rebelde, mas é uma criança doce e carinhosa, quando quer…

Acabei soltando uma risadinha com o comentário final e, para minha surpresa, ele também deixou escapar um discreto sorriso. Algum tempo depois, entramos em um condomínio de luxo e paramos em frente a uma bela mansão.

— Nossa, ele é rico! — Beatriz soltou. — Tem piscina!

Eu a repreendi, mas Leon riu. Notei que ele era bem menos seco e frio com minhas irmãs.

— Não estamos em uma casa de férias, meninas. Eu estou aqui para trabalhar, então, por favor, comportem-se.

As meninas se calaram imediatamente. Ele nos conduziu até a enorme sala e, nesse momento, Vera apareceu.

— Você conseguiu, querida! Fico feliz! E estas são suas irmãs?

Assenti, aproximando-me para abraçá-la.

— São sim. Muito obrigada, Vera, não sei como agradecer.

— Acredito que deve agradecer somente ao Leon.

Busquei o olhar do homem, que já me fitava intensamente. Era difícil entender por que, para comigo, ele era sempre de poucas palavras e de uma frieza constante.

— Traga a Luana, por favor, Vera.

A senhora se afastou brevemente e retornou empurrando a pequena na cadeira de rodas.

— Papai! — Ela abriu um largo sorriso ao vê-lo. — Chegou cedo de novo!

Leon aproximou-se, dando um beijo na pequena. A menina parecia uma boneca: pele clara e cabelos loiros escuros. Imaginava que havia puxado à mãe, mas os olhos verdes... esses com certeza eram de Leon.

— Filha, quero te apresentar estas moças.

A menina olhou-me, fechando a cara imediatamente.

— Esta é a Isadora. Ela será sua nova babá.

— Não quero uma babá…

— Mas você sabe que precisa.

— Não! Eu não quero! Não gosto! — ela berrou, enquanto Leon continuava falando suavemente.

— Nós já conversamos sobre isso, filha. Por favor, seja compreensiva.

— Verinha, pode me levar? — a menina pediu, ignorando-o.

— Não, ela não vai te levar enquanto você não cumprimentar a Isadora e as irmãs dela educadamente. Caso contrário, terei que te deixar de castigo.

Para mim, era apenas um pai exercendo sua função, mas Vera e a menina o olharam surpresas, como se jamais o tivessem visto se impor de tal forma.

— Não! Eu não quero!

— Luana…

— Aaaaah!!!

Ela começou a chorar aos berros, fazendo um drama enorme. Por um momento, pensei tratar-se apenas de uma criança mimada, até que ela disse:

— Você sempre me deixa… Chama uma babá e me deixa…

Nesse momento, meu coração partiu. Busquei o olhar de Leon, que permanecia inerte; foi possível, pela primeira vez, enxergar vulnerabilidade naquele homem.

— Pelo menos ele gosta de você. O meu pai é um monstro — Beatriz soltou, fazendo-me arder de vergonha.

— Bia, não se meta — eu a repreendi.

— Um monstro? — Luana voltou a atenção para minha irmã imediatamente. Sendo uma criança pequena, de uns 4 ou 5 anos, ela nitidamente levou a situação ao pé da letra e pareceu assustada.

— Sim, ele me batia, batia nas minhas irmãs, até na minha mãe.

— Verdade. A nossa mãe também morreu, mas o nosso pai não quis cuidar de nós. Fomos parar na rua e passamos fome — Amanda completou.

— Meninas, por favor — cutuquei-as, sem jeito.

Leon olhou-me erguendo uma sobrancelha, nitidamente segurando um sorriso ao ver que minhas irmãs estavam convencendo sua filha.

— Mas o papai também não cuida de mim… Quase não fica comigo.

Nesse momento, vi a expressão dele mudar. O quase sorriso evaporou.

— Ele cuida, meu anjo. Prova disso é que me pediu para ser sua amiga e te fazer companhia enquanto ele trabalha — falei, aproximando-me da pequena, que me olhou nos olhos pela primeira vez. — O papai precisa trabalhar, é normal, para poder comprar sua comidinha, seus brinquedos e suas roupinhas… É ou não é? Porque, se ele não estiver comprando, eu dou um sopapo nele!

Luana soltou uma risadinha. Compreendi que, por trás da suposta rebeldia, havia uma criança carente implorando por atenção.

— Ele me deu uma boneca nova.

— Hmm… É mesmo? E você não quer me mostrar?

— Sim, vamos!

— Também posso? Eu não tenho mais nenhum brinquedo — Beatriz soltou.

— Por que não brincamos todas? — Luana respondeu, animando-se.

Olhei para Leon em tom de aviso, gesticulando para que me deixasse a sós com ela, e segui para o quarto conforme ela me conduzia. O cômodo era um verdadeiro quarto de princesa. Havia tantos brinquedos que até eu senti uma ponta de inveja; nunca tinha visto nada parecido.

— Uau! — Beatriz olhava ao redor, encantada.

— Nossa, eu sonhava em ter uma dessas quando era pequena… — Amanda apontou para a casa de bonecas.

Elas começaram a brincar juntas, até que notei que Leon nos observava da porta.

— Isadora, pode me acompanhar um momento?

— Sim, senhor — falei, mas antes me dirigi às minhas irmãs: — Comportem-se.

Caminhamos em silêncio até pararmos na porta de um quarto nos fundos da casa.

— Eu tenho este quarto vago. É espaçoso e tem um banheiro, então vocês terão privacidade.

Balancei a cabeça positivamente.

— Por enquanto, tem apenas uma cama de solteiro e um pequeno guarda-roupa, mas providenciarei colchões. Tudo bem?

— Sim, senhor, não se preocupe.

Leon não mudou a expressão, encarando-me secamente.

— Vou providenciar móveis para o quarto onde vocês moram. Vocês podem ficar aqui até que tudo esteja pronto.

Olhei-o em choque.

— Não precisa, senhor. De verdade, eu me viro.

— Você terá uma semana para me mostrar serviço. Se tudo der certo, contrato-a oficialmente.

— Sim, senhor.

— Quanto às meninas, o que pretende fazer enquanto estiver aqui?

— Elas terão que ficar sozinhas… Não tenho com quem deixá-las e elas não podem voltar para a escola agora.

— Não acho que isso seja conveniente; são duas crianças. Elas podem vir com você. Tente, o quanto antes, regularizar as coisas.

Olhei-o surpresa, sem saber como expressar minha gratidão.

— Prometo que não irei decepcioná-lo.

— Assim espero… E obrigado pela forma como contornou a situação com a Luana — finalizou ele, sem me olhar diretamente. — Venha, vou te mostrar o resto da casa. Em seguida, chame suas irmãs e desçam para jantar.

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