Capítulo 3

Após mais uma noite praticamente em claro, me levantei na manhã seguinte, vestindo a melhor roupa que tinha conseguido levar, e decidi rodar um pouco para deixar alguns currículos. Deixei minhas irmãs dormindo, e com os últimos centavos que me restavam, imprimi algumas cópias, distribuindo em alguns estabelecimentos da redondeza.

Eu sabia que elas teriam o que comer pela manhã, mas precisava conseguir algo ao menos para o almoço. Passei por cima do meu orgulho e comecei a abordar algumas pessoas, explicando em partes a nossa situação, pedindo ajuda.

Deparei-me tanto com olhares de piedade quanto de desprezo e desconfiança, até que uma senhora simpática parou para me ouvir, me mostrando uma luz no fim do túnel.

— Meu patrão está buscando alguém para ser babá de sua filha. Ela é cadeirante, demanda um pouco mais de trabalho, porque, bom… É um pouco mimada e birrenta. O pai não impõe limites, trabalha o dia todo não é muito presente, sabe? Então, muitas babás acabam desistindo… Se quiser tentar, posso te indicar.

Nem pensei duas vezes, deixei com ela um currículo e aceitei os trocados que me deu, esperançosa. Eu já estava me sentindo mal de tanta fome, então, comprei um salgado para enganar o estômago, levando mais dois para alimentar minhas irmãs.

Quando cheguei, Amanda veio ao meu encontro, nervosa.

— Graças a Deus que chegou! Já dei o remédio novamente para a Bia, mas a febre não baixou. Coloquei ela no banho para ajudar.

— Fez bem… Eu consegui alguns trocados, trouxe um lanche para vocês e vou levar ela para o hospital. Você fica aqui. Tudo bem?

Ela concordou com os olhos cheios de lágrimas.

— Não fique mal, não se preocupe. Hoje deixei alguns currículos, tenho fé que logo vou conseguir algo, as coisas vão se resolver.

Peguei minha irmã, que estava fervendo, e segui até uma parada, tomando um ônibus que nos deixou próximo ao posto de saúde. Fiz a ficha dela, aguardando algumas horas, até que finalmente fomos atendidas. Bia foi diagnosticada com infecção de garganta, e saímos com uma receita em mãos. Porém, quando parei na farmácia, choquei-me com o valor que ficariam as medicações, principalmente o antibiótico.

— Desculpe, senhor, não consigo levar agora. Volto depois, obrigada. — falei para o farmacêutico, antes de me retirar contendo o choro.

Quando finalmente chegamos no quartinho, já era fim de tarde. Beatriz se queixava de fome e, apesar de estar com a febre controlada pela medicação que haviam feito no hospital, estava amuadinha. Olhei para Amanda que também estava extremamente abatida e me perguntei se realmente deveria ter fugido com elas.

Fiquei um tempo ali pensando no que daria para comprar com o pouco dinheiro que havia restado. Minhas irmãs, da mesma forma que eu, estavam o dia todo com apenas um salgado no estômago, e precisavam de algum alimento mais forte.

Segui para a janela com os pensamentos a mil por hora, me lembrando do currículo que havia deixado com aquela senhora, ansiosa para que me ligassem.

— Isa, minha barriga dói… Estou com muita fome.

As lágrimas banhavam meu rosto quando olhei para minha irmã mais nova, notei também que Amanda chorava silenciosamente. Então, em meio ao desespero, um pensamento insano rondou a minha mente.

— Eu sei, vou dar um jeito… — falei esfregando os olhos.

— O que vai fazer? — Amanda me olhou confusa.

— Preciso conseguir mais dinheiro, o que tenho não é suficiente para comprar comida e os remédios.

Entrei para o banheiro, tomando um banho rápido, e coloquei um cropped da minha irmã, expondo minha barriga, e um short curto, me cobrindo com meu casaco moletom, para que ela não se desse conta do que eu estava fazendo.

— Onde vai, Isa? — Amanda perguntou ao me ver saindo novamente.

— Vou ver se consigo um remédio, cuide dela. Se algo acontecer, peça ajuda à vizinha.

Minha irmã concordou, e segui rumo ao ponto onde tinha visto as garotas de programa, parando brevemente em um beco para tirar o moletom, me aproximando delas em seguida. Eu era virgem, jamais tinha me relacionado com algum homem, e estava prestes a cometer a maior loucura da minha vida.

— Quem é você? — Uma delas me encarou com certa hostilidade, enquanto as outras me olhavam com desdém.

— Ca-Catia… — Menti.

— E o que pensa que está fazendo aqui?

— É… Eu… — Fiquei nervosa, sem saber o que dizer. — Estou esperando um cliente.

— Aqui você não pode ficar, essa é a nossa área.

A olhei assustada, quando as três se juntaram, e uma delas, que parecia ser uma trans, puxou um canivete.

— Some, ruivinha, antes que eu corte os seus cabelinhos.

Sequer fui capaz de discutir. Então, caminhei a passos largos, sentindo o corpo inteiro estremecer, tentando sumir da vista delas, e voltei rumo ao beco, para pegar meu moletom, quando um carro preto de luxo parou à minha frente.

Paralisei assustada, sem saber o que a pessoa irreconhecível por trás do vidro escuro queria, até que ele o abaixou lentamente, revelando, para minha surpresa, um belo homem de aparência jovem. Devia ter seus trinta e poucos anos. Seus cabelos eram negros, a barba bem-feita, os olhos esverdeados, usando roupa social.

Lembrei-me então de como as moças agiam, e me aproximei da janela, fazendo a expressão mais sedutora que consegui.

— E aí, granfino, está a fim de diversão? 

Ele me encarou com uma expressão fria, sem demonstrar qualquer emoção, me analisando de cima a baixo. Levou alguns segundos constrangedores, antes de dizer com a voz meio embargada:

— Entra…

Eu pensei em desistir e sair correndo, com medo de que fosse um maníaco, imaginando o que aconteceria se eu entrasse naquele carro, mesmo porque eu não fazia ideia do que estava fazendo, até que olhei para o lado e vi as três garotas de programa vindo furiosas na nossa direção.

— Com licença, senhor. — falei, saltando imediatamente para dentro do carro, e fechei o vidro.

O homem notou a movimentação e minha expressão de pavor, em seguida me analisou com certa curiosidade, mas não teceu comentários, saindo com o carro.

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