CAPÍTULO 180.
O voo inteiro é silêncio.
Darina se senta ao meu lado como se eu fosse um estranho qualquer. Ela olha pela janela, imóvel, braços cruzados, olhos distantes. Parece tão fria, tão ausente, que por um instante me pergunto se estou transportando um corpo sem alma. Não sei se está lembrando da floresta, das pedras sob os pés descalços, do sangue seco em suas canelas, ou se já foi para muito além de mim — para um lugar onde eu não a alcanço mais.
Não digo nada.
Tentei olhar para ela mais de uma vez, buscar seu olhar, roubar um vestígio de emoção, qualquer coisa. Mas não. Ela não me olha nem uma vez. Nem um desvio de atenção, nem um sussurro. Ela está aqui, mas está tão longe, que me pergunto se algum dia voltará.
O silêncio me consome.
O som das turbinas, o movimento do avião, até mesmo os sussurros educados da comissária... tudo é ofuscado pelo grito surdo que se instala dentro de mim. Um grito que cresce, ecoa, pressiona minhas costelas. Quero falar. Quero pedir desculpas. Quero dizer que