Mundo ficciónIniciar sesiónA suíte nupcial havia sido preparada para um casal que pretendia passar a noite inteira junto.
Pétalas vermelhas cobriam a cama, duas taças aguardavam ao lado de uma garrafa de champanhe e uma caixa de chocolates trazia as iniciais de Olívia e Henrique gravadas na tampa. O hotel não tivera tempo de apagar o noivo errado de todos os detalhes.
Olívia parou diante da cama. O vestido branco ocupava parte do quarto, mas ela parecia menor do que no salão, como se o silêncio tivesse retirado a força que usara diante dos convidados.
— Tire isso daqui.
Dante fechou a porta e girou a chave.
— A cama?
— As pétalas, o champanhe, a caixa. Tudo que tenha o nome dele.
Ela virou a tampa dos chocolates para baixo. O gesto foi brusco; o rosto, não. Desde que saíram da cerimônia, Olívia parecia determinada a provar que nada a alcançava.
Dante afastou a cortina o suficiente para observar a entrada do hotel. Os fotógrafos continuavam sob a marquise, e dois carros de emissoras permaneciam junto à calçada.
— Não podemos sair agora.
— Eu sei.
— E só há um quarto.
Olívia olhou para o sofá. Era comprido, mas estreito demais para ele. Seu olhar percorreu sem querer as pernas longas de Dante, subiu pelo terno ajustado e parou no peito antes de retornar ao móvel.
— Você fica no sofá.
— Imaginei.
— Não parece incomodado.
— Já dormi em lugares piores.
Ela esperou alguma explicação, mas Dante não ofereceu. Quanto menos revelasse, menos mentiras precisaria sustentar.
Olívia retirou o véu e o colocou sobre uma poltrona. Ao erguer os braços, o corpete se ajustou ainda mais à cintura e expôs a linha delicada de seu pescoço. Dante desviou os olhos tarde demais.
— Precisamos estabelecer regras — disse ela.
— Acabamos de assinar um contrato.
— Contratos não impedem pessoas de serem inconvenientes.
— Nem regras.
Olívia apoiou as mãos na cintura.
— Primeira: não entre no meu quarto sem bater. Segunda: não mexa nas minhas coisas. Terceira: quando estivermos sozinhos, não me toque.
A última regra pairou entre os dois. Dante ainda sentia a boca dela na sua, a pressão dos dedos agarrando sua camisa e o instante em que o beijo deixara de pertencer às câmeras.
— Você segurou minha mão até entrarmos aqui.
— Havia fotógrafos.
— No elevador também?
Uma cor suave subiu pelo colo de Olívia. Dante acompanhou o movimento antes de voltar ao rosto dela.
— Aquilo foi distração.
— Claro.
— Não sorria.
Ele não estava sorrindo, e talvez isso a tenha deixado mais desconfortável.
— A regra vale para os dois — respondeu. — Você também não me toca quando estivermos sozinhos.
— Não estava planejando.
— Então não será difícil.
Olívia sustentou seu olhar, mas a respiração dela mudou. A suíte era ampla; ainda assim, a distância entre os dois parecia pequena demais depois do beijo.
— Outra coisa — continuou Dante. — Não controle meus horários, minhas roupas ou as pessoas com quem falo. Cumprirei os compromissos necessários, mas não sou seu funcionário.
Ela assentiu depois de alguns segundos.
— E você não traz ninguém para minha casa.
— Nem você.
— É a minha casa.
— Durante seis meses, também será a minha.
Olívia abriu a boca para contestar, mas o próprio estômago a interrompeu. Ela fechou os olhos por um instante.
— Não diga nada.
— Eu não disse.
— Mas pensou.
Dante pegou o cardápio do serviço de quarto.
— Quando foi a última vez que comeu?
— De manhã.
— Então vamos pedir alguma coisa.
— Não quero jantar na suíte em que deveria estar com Henrique.
A resposta saiu mais baixa. Dante deixou o cardápio sobre a mesa.
— Você não está com Henrique.
O tom foi mais duro do que pretendia. Olívia ficou imóvel, e ele percebeu que tocara justamente no ponto que ela tentava manter fechado.
— Peça o que quiser — disse ela, virando-se.
Dante escolheu sopa, pão, uma massa e café. Quando usou o ramal correto sem consultar a lista, Olívia percebeu.
— Como sabia o número?
— Já fiquei em hotéis.
— Em suítes como esta?
— Em algumas.
A resposta escapou antes que ele pudesse corrigi-la. Olívia o observou com atenção renovada, mas o vestido pareceu vencer sua curiosidade. Ela levou a mão às costas, tentando alcançar o zíper.
— Precisa de ajuda?
— Não.
Tentou outra vez. O fecho não cedeu.
— Posso chamar uma funcionária.
Olívia olhou para a porta. Qualquer pessoa que entrasse naquela suíte sairia com uma história pronta para vender.
— Só abaixe o zíper. E não interprete isso como uma suspensão da terceira regra.
Dante se aproximou devagar.
De costas, o vestido deixava os ombros dela completamente expostos. Alguns fios haviam escapado do penteado e repousavam sobre a nuca. Ele segurou o pequeno fecho, procurando não encostar na pele, mas o zíper desceu poucos centímetros antes de prender.
— O tecido entrou no trilho.
— Então solte.
— Estou tentando.
Para enxergar melhor, Dante precisou se inclinar. O perfume dela se tornou mais intenso, misturado ao calor da pele. Seus nós dos dedos roçaram as costas de Olívia, fazendo-a prender a respiração.
Dante segurou o tecido com uma mão e apoiou a outra na lateral da cintura dela, impedindo que se movesse. Sob sua palma, sentiu o corpo ficar rígido. A cintura era estreita e quente através do vestido, cabendo com facilidade em sua mão.
— Preciso que fique parada.
— Eu estou parada.
A voz saiu baixa e ligeiramente trêmula. Ele libertou o tecido. Quando puxou o zíper, a abertura desceu pelo centro das costas, revelando a pele numa linha cada vez mais longa. Dante acompanhou o movimento até a metade e parou antes que o vestido se abrisse demais.
Sua mão permaneceu na cintura dela por um segundo além do necessário. Olívia virou o rosto. O movimento deixou seu perfil a poucos centímetros do dele. Dante viu a pulsação na base do pescoço, sentiu sua respiração curta e soube que ela também se lembrava do beijo.
— Terminou? — perguntou.
— Sim.
A palavra saiu mais rouca do que ele gostaria.
Dante retirou as mãos. Olívia se virou segurando o corpete contra o corpo. O vestido afrouxado revelava a linha dos ombros e parte do colo, mas foi o olhar dela que o manteve imóvel. Havia desafio e desejo, ambos escondidos sob a mesma tentativa de controle.
— Você podia ter avisado antes de parar.
— Achei que a terceira regra ainda estivesse valendo.
Olívia pareceu procurar uma resposta. Não encontrou. Entrou no banheiro e fechou a porta com mais força do que o necessário.
A comida chegou vinte minutos depois. Dante já havia retirado o paletó e a gravata. As mangas estavam dobradas, o primeiro botão da camisa aberto e os cabelos começavam a perder a ordem do penteado.
Olívia reapareceu usando um roupão claro, com os cabelos soltos sobre os ombros e o rosto sem maquiagem. Dante se levantou antes de perceber que o fazia.
A ausência do vestido não a tornava menos atraente. O tecido macio acompanhava suas curvas com uma simplicidade que a roupa de noiva esconderia, e uma das pernas aparecia a cada passo. Sem os saltos, ela parecia menor diante dele. Mais próxima. Mais perigosa.
Olívia também o observou. Seu olhar demorou nos antebraços expostos, subiu pela abertura da camisa e voltou ao rosto.
— Algum problema? — perguntou Dante.
— Você ocupa espaço demais.
— Posso voltar para a jaqueta enlameada.
— Não seria necessário.
Ela se sentou antes que a frase revelasse mais do que pretendia. Dante serviu a sopa, e Olívia afirmou que não estava com fome. Cinco minutos depois, havia comido metade da tigela e um pedaço de pão.
— Não conte a ninguém.
— Que você come?
— Que obedeci.
— Ninguém acreditaria.
Ela quase sorriu, mas encontrou a caixa de chocolates virada sobre a mesa. O humor desapareceu.
— Eu não amava Henrique — disse.
Dante não perguntou por que ela precisava dizer aquilo.
— Não do jeito que as pessoas esperavam. Eu confiava nele. Achava que isso era mais importante.
— Talvez seja.
— Não foi.
A frase veio sem raiva. Dante conhecia aquela espécie de conclusão, construída quando alguém usava a confiança recebida como arma.
— O que doeu mais?
Olívia passou o polegar pela borda da tigela.
— Descobrir que todos já tinham escolhido o lado deles antes que eu entrasse naquele salão. Henrique, Bianca, Vera. Talvez até algumas pessoas do conselho. Eu era a única que ainda não sabia que tinha sido substituída.
Dante permaneceu do outro lado da mesa. O impulso de se aproximar surgiu, mas a regra criada por ela continuava entre os dois.
— Hoje eles não conseguiram.
— Ainda não.
— Você se casou com um desconhecido para impedir. Não parece alguém fácil de substituir.
Olívia ergueu os olhos. A vulnerabilidade permaneceu por mais um instante antes que sua expressão se fechasse.
— Não interprete esta conversa como intimidade.
— Não interpretei.
— Foi apenas um dia ruim.
— Também já tive alguns.
Ela pareceu prestes a perguntar. Em vez disso, observou a camisa, o terno dobrado sobre a cadeira e a postura de quem conhecia contratos, hotéis e ambientes como aquele.
— Amanhã você entra na minha casa.
— Foi o que combinamos.
— Seus documentos são válidos, mas eu só conheço o nome escrito neles. Você lê contratos como um advogado, sabe se mover neste hotel e apareceu com um terno feito para o seu corpo uma hora depois de estar coberto de lama.
Dante não respondeu. Olívia se levantou. O roupão se abriu discretamente sobre uma das pernas, mas seu olhar já não era vulnerável nem provocador. Era atento.
— Antes de levar você para dentro da minha vida, preciso saber uma coisa.
Dante também se levantou. A mesa continuava entre eles, embora a distância parecesse insuficiente para protegê-lo da pergunta.
— O quê?
Olívia sustentou seu olhar.
— Quem é você de verdade?
Dante poderia oferecer uma resposta incompleta, outra ironia ou uma versão conveniente de sua vida. Não fez nenhuma delas. Pela primeira vez naquela noite, o silêncio entre os dois não estava carregado de desejo. Estava carregado da mentira que ele já escolhera contar.







