Mundo ficciónIniciar sesiónDante não respondeu imediatamente.
Continuou do outro lado da mesa, com a camisa aberta no primeiro botão e as mangas dobradas até os antebraços. A luz da suíte acentuava a largura de seus ombros e as linhas fortes do rosto, mas Olívia manteve os olhos fixos nos dele. Não permitiria que a aparência daquele homem a distraísse da pergunta.
— Quem é você de verdade?
— Meu nome nos documentos é Daniel Farias. Dante é um apelido antigo.
— Isso eu já sei.
— Trabalhei com segurança e administração de propriedades. Perdi o emprego, fiquei sem dinheiro e tomei algumas decisões ruins.
Olívia estreitou os olhos.
— Você fala como se tivesse ensaiado essa resposta.
Dante desviou o olhar para as taças intocadas sobre a mesa. Pela primeira vez, pareceu medir as palavras antes de usá-las.
— Estou tentando responder sem contar coisas que não são da sua conta.
— Você vai morar na minha casa.
— Durante seis meses. Isso não transforma toda a minha vida em propriedade sua.
A resposta deveria tê-la irritado. Em vez disso, Olívia se lembrou de que, poucas horas antes, exigira uma cláusula de privacidade pelo mesmo motivo.
— Tem mulher? Filhos? Dívidas que possam aparecer na imprensa? Algum processo?
— Não tenho mulher nem filhos. Não sou procurado pela polícia e ninguém aparecerá amanhã dizendo que você se casou com um criminoso.
— Essa é uma maneira estranha de tranquilizar alguém.
— Não estou tentando tranquilizá-la. Você não deveria confiar em mim depois de quatro horas.
A palavra atingiu Olívia no ponto que ainda estava aberto. Dante percebeu e baixou ligeiramente a voz.
— Também não deveria desconfiar de tudo apenas porque Henrique mentiu. Ainda não fiz nada para merecer nenhuma das duas coisas.
Era uma resposta menos confortável do que ela desejava, mas talvez fosse a primeira honesta.
— Amanhã, responderá ao que Álvaro perguntar.
— Ao que for relevante para o acordo.
— Você negocia cada frase?
— Quando sei que ela poderá ser usada contra mim, sim.
Olívia observou o rosto fechado, a cicatriz junto à sobrancelha e a tensão que surgira em sua mandíbula. Havia alguma história por trás daquela cautela. Não descobriria naquela noite.
— Vá dormir — disse.
Dante olhou para o sofá estreito.
— Finalmente uma proposta pior que a do casamento.
Ela quase sorriu, mas se conteve.
— Boa noite, Dante.
— Boa noite, Olívia.
Ele deixou o quarto e fechou a porta. Olívia dormiu pouco. Quando conseguia afastar a imagem de Bianca entrando no salão, era o beijo que voltava: a mão firme em suas costas, o peito de Dante contra o seu e a mudança em sua respiração quando ela agarrara a camisa dele. O próprio corpo parecia determinado a escolher a lembrança mais inconveniente.
Às sete da manhã, batidas na porta da suíte despertaram-na. Olívia vestiu o roupão e saiu do quarto ainda prendendo os cabelos num coque improvisado. Dante já estava acordado. Usava a calça do terno e a camisa branca, agora bastante amarrotada, com as mangas dobradas. Estava descalço, e o cabelo escuro caía sobre a testa, devolvendo-lhe parte da aparência indomada da entrada do hotel.
O sofá não fora gentil com ele. Havia uma marca vermelha junto ao pescoço e uma sombra de cansaço sob os olhos. Ainda assim, a noite mal dormida apenas tornava seu rosto mais áspero. Olívia percebeu que o observava quando Dante ergueu uma sobrancelha.
— Dormiu bem? — perguntou ela, apenas para disfarçar.
— Seu sofá parece ter sido desenhado para punir hóspedes.
— Tecnicamente, você não é um hóspede.
Os olhos dele percorreram o roupão fechado de qualquer maneira e depois voltaram depressa ao rosto dela.
— Isso não melhora minha coluna.
Uma nova batida interrompeu a conversa. Dante abriu apenas o suficiente para verificar quem estava do lado de fora. Doutor Álvaro entrou acompanhado de Laura, responsável pela comunicação da empresa.
A assessora tentou não olhar para a cama coberta de pétalas nem para o homem descalço ao lado de Olívia. Não conseguiu esconder completamente a curiosidade.
— A entrada principal está tomada — informou Álvaro. — Há jornalistas na garagem e nas duas saídas laterais.
Laura abriu a pasta que carregava.
— Bianca falou com a imprensa durante a madrugada. Disse que está preocupada com seu estado emocional e que não pretende disputar a empresa enquanto você estiver abalada.
Olívia soltou uma risada sem humor.
— Ela aparece grávida do meu noivo e agora quer me proteger.
— Podemos divulgar uma nota informando que a senhora decidiu seguir a vida e pedindo respeito à privacidade — sugeriu Laura. — Depois saímos pela garagem.
— Isso parecerá uma fuga.
— Evitará perguntas sobre o novo casamento.
Dante servia café para si, mantendo-se afastado da conversa. A camisa se movia sobre suas costas cada vez que erguia o braço, e Olívia precisou obrigar a própria atenção a retornar aos assessores.
— O que você acha? — perguntou a ele.
Dante pousou a xícara.
— Que deveria decidir o que quer que vejam, não o que Bianca espera que faça.
— Isso não responde se devo enfrentar os jornalistas.
— Porque a decisão é sua.
Olívia esperava uma orientação mais direta. A ausência dela, porém, fez com que compreendesse o que realmente queria.
— Vamos sair pela entrada principal.
Álvaro fechou a expressão.
— Não recomendo.
— Eles já ouviram Bianca. Agora ouvirão a mim.
Quarenta minutos depois, Olívia deixou o quarto usando um vestido claro enviado de casa. O tecido se ajustava à cintura e terminava pouco abaixo dos joelhos, elegante o suficiente para uma presidente, embora mais simples do que suas roupas habituais. Prendera os cabelos num rabo baixo e usara apenas a maquiagem necessária para esconder o cansaço.
Dante a aguardava perto do elevador, novamente de terno, mas sem gravata. O primeiro botão da camisa permanecia aberto. Quando a viu, seu olhar desceu do rosto até o vestido e parou por um instante nas pernas descobertas.
A pausa foi breve, mas Olívia percebeu.
— Algum problema? — perguntou.
— Nenhum.
— Demorou para responder.
Dante ofereceu o braço em vez de tentar se explicar.
— Teremos câmeras do outro lado.
Olívia segurou-o. Sob a manga do terno, sentiu a firmeza do braço e o movimento dos músculos quando ele flexionou o cotovelo para mantê-la próxima.
As portas do elevador se fecharam. O espaço espelhado devolveu a imagem dos dois lado a lado, e o contraste com a noite anterior era desconcertante. Dante já não parecia um homem encontrado na rua. Era alto, elegante e seguro, ocupando o terno e o espaço ao redor com uma naturalidade que continuava sem explicação.
— Está me olhando novamente — disse ele.
— Estou tentando encontrar o homem da entrada do hotel.
Dante virou o rosto. A proximidade obrigou Olívia a erguer o queixo.
— Ele ainda está aqui.
— Cada vez acredito menos nisso.
Os olhos dele desceram até sua boca. O elevador diminuiu a velocidade, mas, por um instante, nenhum dos dois olhou para as portas.
— Desta vez não teremos um juiz mandando você me beijar — disse Olívia.
— Eu me lembro.
A voz dele estava baixa demais. Dante ergueu a mão como se fosse tocar seu rosto, mas mudou o movimento e apenas ajeitou uma mecha que se soltara junto ao ombro. Os dedos roçaram de leve o pescoço dela.
— Havia um cabelo fora do lugar.
— Claro.
As portas se abriram antes que ele respondesse. O barulho do saguão veio de uma vez. Jornalistas se comprimiam atrás dos seguranças, câmeras apontavam para o elevador e vozes se sobrepunham. Olívia parou por um segundo, sentindo o braço de Dante firme sob sua mão.
Ele não a puxou. Apenas se aproximou o suficiente para que seu corpo formasse uma barreira entre ela e os primeiros repórteres.
— Escolha uma pergunta — disse junto ao ouvido dela. — Responda e continue andando.
A proximidade fez sua voz vibrar contra a pele de Olívia.
— E se perguntarem sobre você?
— Diga o que sabe.
— Isso levaria poucos segundos.
Dante quase sorriu, mas o tumulto à frente pareceu apagar a resposta. Colocou a mão na parte baixa das costas dela, e os dois começaram a caminhar.
As perguntas surgiram imediatamente.
— O casamento foi uma vingança?
— A senhora conhecia Daniel antes de ontem?
— Ele receberá dinheiro?
— O beijo fazia parte do contrato?
A mão de Dante permanecia firme em suas costas. A cada tentativa dos jornalistas de se aproximarem, ele ajustava a posição e mantinha Olívia protegida junto ao corpo. A palma quente sobre o vestido era pública e funcional, mas seus dedos acompanhavam a curva de sua cintura de um modo difícil de considerar apenas profissional.
Uma repórter conseguiu avançar.
— Sua irmã afirma que a senhora não estava em condições emocionais de tomar uma decisão tão importante. Pretende anular o casamento?
Olívia parou.
— Ontem descobri que meu noivo mantinha um relacionamento com minha irmã havia oito meses. Ainda assim, fui a única pessoa naquele salão que não tentou enganar ninguém.
Os flashes se intensificaram, mas ela continuou.
— Meu casamento é legal, minha decisão foi consciente e os assuntos da Vasconcelos Cosméticos serão tratados dentro da empresa. Não por meio de entrevistas concedidas na porta de um hotel.
Olívia voltou a caminhar. Um jornalista se colocou diante de Dante.
— O senhor aceita que digam que foi comprado pela herdeira?
Por um instante, ele pareceu olhar para ela em busca da resposta correta. Não encontrou alguma frase perfeita. Apenas aproximou Olívia mais um pouco de seu corpo.
— Minha esposa me fez uma proposta. Eu aceitei porque quis.
"Minha esposa". As palavras produziram um calor imediato e inesperado. Olívia sentiu os dedos de Dante pressionarem suas costas, como se ele também tivesse percebido o peso da expressão depois de dizê-la.
— E o beijo? — gritou outro repórter. — Também fazia parte do acordo?
Dante diminuiu o passo. O olhar dele encontrou a boca de Olívia antes de voltar às câmeras.
— Nem tudo precisa estar escrito para ser verdadeiro.
As perguntas explodiram novamente. Olívia conseguiu manter a expressão séria até atravessarem as portas.
— O que foi isso? — perguntou, quando ficaram longe dos microfones.
— Eu não tinha preparado uma resposta.
— Isso é ainda mais preocupante.
Dante a olhou, mas não tentou se defender. A mão continuava em suas costas, embora já não houvesse ninguém perto o bastante para justificar o toque. Ao perceber, ele a retirou.
O motorista aguardava junto ao carro, cercado por repórteres. Dante pediu a chave, abriu a porta do passageiro e colocou a mão acima do teto para protegê-la ao entrar. Quando Olívia se acomodou, a saia subiu alguns centímetros sobre suas coxas.
O olhar de Dante parou ali por um breve instante. A mandíbula se contraiu antes que ele fechasse a porta e contornasse o carro.
Assumiu o volante com familiaridade. Seus dedos longos ajustaram os retrovisores, e o terno se abriu quando ele estendeu o braço, revelando a camisa moldada sobre o peito. Ao manobrar para longe das câmeras, os músculos de seu antebraço se moveram sob o tecido. Olívia apertou o cinto de segurança.
— Já dirigiu um carro desses?
— Já dirigi carros.
— Este custa mais do que muitas casas.
Dante lançou um olhar rápido para ela.
— Continua tendo volante e pedais.
Saiu da vaga com precisão e entrou no trânsito sem hesitar. Não procurou os comandos nem pareceu intimidado pela potência do veículo. Conduzia com uma mão no volante e a outra próxima ao câmbio, tranquilo demais para alguém que, na noite anterior, não tinha sequer um telefone.
— Ontem disse que perdeu o emprego.
— Perdi.
— E antes disso?
Dante demorou a responder. A segurança que demonstrara diante dos jornalistas cedeu lugar a uma expressão mais fechada.
— Antes disso, minha vida era diferente.
— Quanto?
O carro parou diante do portão da casa de Olívia. Ele desligou o motor, retirou a chave e a colocou na palma dela. Seus dedos permaneceram em contato por um instante.
— Eu disse que perdi muitas coisas, Olívia.
Ela observou a mão firme sobre a sua, o terno impecável e o homem que dirigia um automóvel de luxo como se estivesse retomando um hábito antigo.
— Nunca disse que não tinha tido nada antes.







