Mundo ficciónIniciar sesiónOlívia percebeu que estava realmente prestes a se casar com um desconhecido quando as portas do elevador se fecharam.
Até aquele momento, tudo parecera parte de uma reação desesperada: a proposta na entrada do hotel, o contrato improvisado, as assinaturas recolhidas às pressas. Agora, porém, Dante estava ao lado dela com uma das mãos apoiada na parte descoberta de suas costas, conduzindo-a até o salão onde o juiz de paz aguardava.
O toque poderia ter sido apenas cortês. Não era. A palma dele ocupava quase toda a região entre sua cintura e o início do corpete. Os dedos permaneciam imóveis, mas o calor atravessava a pele de Olívia, tornando difícil ignorar cada pequeno movimento causado pelo elevador.
— Pode tirar a mão — murmurou.
— Posso.
Dante não a retirou. Olívia ergueu o rosto para encará-lo e se arrependeu de ter chamado sua atenção.
O espelho atrás dele devolvia uma imagem que ainda parecia impossível. Dante era alto o bastante para obrigá-la a inclinar a cabeça quando estavam próximos. O terno cinza acompanhava os ombros largos e o peito firme antes de se ajustar à cintura. Uma das mãos continuava em suas costas; a outra estava no bolso, num gesto tranquilo demais para alguém que se casaria dentro de poucos minutos.
— Então por que continua me tocando?
Ele olhou para o painel do elevador, como se precisasse de um instante para responder.
— Porque há fotógrafos esperando quando a porta abrir. E você está com a expressão de quem será levada para uma cirurgia.
— Não estou nervosa.
— Está prendendo a respiração desde o terceiro andar.
Olívia soltou o ar, irritada por ele ter percebido. Quando tornou a olhar para o espelho, encontrou os olhos de Dante percorrendo seu reflexo. O olhar passou pelos cabelos presos, pelo colo exposto e pela cintura marcada pelo vestido. Não houve pressa, embora ele interrompesse a observação assim que percebeu que fora descoberto.
— Você também está nervoso? — perguntou.
A mão em suas costas exerceu uma pressão quase imperceptível.
— Não.
— Demorou para responder.
Dante voltou o rosto para ela. De perto, a barba aparada destacava a linha firme da mandíbula, e a pequena cicatriz junto à sobrancelha tornava os olhos claros ainda mais intensos.
— Estou prestes a me casar com uma mulher que conheci na entrada de um hotel. Tenho direito a alguns segundos de reflexão.
A resposta não tinha a segurança provocadora de antes. Pela primeira vez, Olívia percebeu que aquela decisão também afetava Dante, ainda que não soubesse por quê.
— Você ainda não me disse de onde veio.
— Da entrada do hotel.
— Antes disso.
— De uma sequência de decisões ruins.
— Isso não é resposta.
— É a única que vai receber antes do casamento.
As portas se abriram antes que ela insistisse. Dante afastou a mão apenas para conduzi-la pelo corredor, mas o rastro de calor continuou em suas costas.
Bianca os aguardava acompanhada de Henrique e Vera. A expressão vitoriosa da irmã havia sido substituída por uma preocupação cuidadosamente construída.
— Olívia, pense bem — pediu. — Ainda podemos resolver isso sem transformar nossa família em motivo de piada.
— Você chegou ao meu casamento grávida do meu noivo. A parte da piada já aconteceu.
Henrique deu um passo à frente.
— Esse homem só quer seu dinheiro.
Dante ficou ao lado de Olívia, mas não respondeu imediatamente. Ela sentiu a tensão no corpo dele, como se estivesse escolhendo o que valia a pena dizer.
— E você queria o quê? — perguntou por fim. — A irmã e a empresa?
Henrique cerrou a mandíbula. Olívia não tentou interromper. Pela primeira vez naquela noite, alguém se colocava ao seu lado sem falar como se ela fosse incapaz de decidir. Doutor Álvaro apareceu à porta do salão.
— O juiz está pronto. Precisamos começar.
O espaço menor havia sido reservado para a recepção dos padrinhos. Os funcionários afastaram os sofás, organizaram algumas fileiras de cadeiras e posicionaram um arranjo de flores diante da mesa. Não era a cerimônia que Olívia planejara durante um ano, mas ainda havia convidados demais para que parecesse algo privado.
A notícia correra pelo hotel. Muitos haviam permanecido por curiosidade, e alguns seguravam os celulares sem qualquer tentativa real de discrição. Os jornalistas ocupavam o fundo do salão. Bianca escolhera um lugar na primeira fila, como se esperasse que o casamento desmoronasse antes da assinatura.
Ao entrar, Olívia sentiu o ar faltar.
Dante se aproximou, deixando o braço roçar o dela.
— Está pensando em fugir?
— Não.
— Ótimo.
Ela esperou alguma provocação, mas ele permaneceu em silêncio.
— Só isso?
— Não consegui pensar em nada inteligente.
Olívia olhou para ele, surpresa. Dante ajeitou o punho da camisa e desviou os olhos. O gesto fez com que ela percebesse que os dedos dele também não estavam completamente imóveis.
O juiz de paz conferiu os documentos. Dante apresentara uma identidade em nome de Daniel Farias, embora tivesse pedido que continuassem chamando-o pelo nome que usava. Álvaro confirmara que tudo era válido, mas ouvir “Olívia Helena Vasconcelos e Daniel Farias” tornou evidente que ela não conhecia quase nada sobre seu futuro marido.
Dante percebeu sua hesitação e estendeu a mão. Olívia aceitou. Os dedos dele se fecharam ao redor dos seus, quentes e firmes. O polegar encontrou o interior de seu pulso, quase no mesmo lugar em que a beijara diante dos fotógrafos.
O juiz começou a falar sobre compromisso, respeito e livre vontade. Cada palavra parecia deslocada numa cerimônia construída em poucas horas e sustentada por um contrato guardado na pasta de Álvaro. Ainda assim, a mão de Dante fazia com que aquilo parecesse menos distante do que deveria.
— Senhor Daniel Farias, aceita Olívia Helena Vasconcelos como sua esposa?
Dante não olhou para os fotógrafos, Henrique ou a família. Seus olhos permaneceram nos dela.
— Aceito.
A resposta saiu grave e sem hesitação. O polegar dele se moveu uma única vez sobre o pulso de Olívia, e seu corpo reagiu com uma onda de calor que desceu pelo peito e se acumulou sob o vestido.
— E a senhora aceita Daniel Farias como seu esposo?
Olívia viu Henrique sentado ao lado de Bianca. Durante anos, acreditara que segurança significava escolher um homem previsível e manter cada parte de sua vida sob controle. Naquele momento, o único homem que a tratava com respeito era aquele sobre quem ela não sabia nada.
— Aceito.
Dante apertou sua mão, e algo mudou em seu olhar. Não era afeto nem confiança. Era uma espécie de reconhecimento, como se a decisão houvesse fechado uma porta atrás dos dois.
As assinaturas vieram em seguida. Álvaro e uma funcionária do hotel atuaram como testemunhas. Quando Olívia terminou de escrever o próprio nome, o juiz recolheu os documentos.
— Diante da lei, declaro os dois casados.
Os aplausos começaram tímidos e cresceram pelo salão. Olívia ainda tentava compreender o peso daquelas palavras quando o juiz sorriu.
— O senhor pode beijar a noiva.
O silêncio que se seguiu pareceu maior que o salão.
Olívia se virou para Dante. Ele continuava segurando sua mão, mas a tranquilidade de antes havia desaparecido de seu rosto. Os olhos estavam fixos nela, atentos à sua reação.
— Isso não é obrigatório — disse baixo.
— Eu sei.
— Podemos apenas sorrir.
— Podemos.
Nenhum dos dois sorriu.
Dante se aproximou devagar. A mão livre tocou a lateral de sua cintura e permaneceu ali, esperando. Mesmo através do vestido, Olívia sentiu a largura da palma e a força contida nos dedos.
— Está me dando outra chance de desistir? — perguntou.
— Estou esperando você decidir.
Ela poderia oferecer o rosto ou fingir não ter entendido. As câmeras aceitariam um contato rápido, e o casamento continuaria legal. No entanto, Dante estava tão próximo que seu peito quase tocava o corpete do vestido. Olívia sentia o perfume amadeirado, o calor de seu corpo e a respiração dele sobre sua boca.
O olhar de Dante desceu até seus lábios. A mão em sua cintura permaneceu respeitosa, mas os dedos se fecharam ligeiramente, denunciando que o autocontrole exigia esforço.
Olívia poderia culpar Bianca, as câmeras ou a necessidade de convencer o conselho. Sabia, porém, que nenhuma daquelas pessoas a obrigava a notar a boca de Dante ou a desejar descobrir se o beijo na cerimônia seria tão perturbador quanto o toque de seus dedos.
— Faça isso — pediu.
O primeiro contato foi lento. Os lábios de Dante tocaram os seus com uma pressão suave, quase cautelosa. Olívia esperava que ele se afastasse imediatamente. Em vez disso, a mão em sua cintura deslizou alguns centímetros até suas costas e a trouxe para mais perto. O peito dele encontrou o dela.
O corpo de Dante era firme e quente, maior do que o terno permitia imaginar. A proximidade fez Olívia sentir a extensão dos ombros, a força do braço ao redor de sua cintura e o modo como ele inclinava o corpo para alcançá-la sem fazê-la perder o equilíbrio.
O beijo se aprofundou. Não havia pressa, mas também já não havia encenação. Dante inclinou o rosto e capturou a boca dela novamente, dessa vez com mais firmeza. Seus lábios se moveram sobre os de Olívia como se tivessem esquecido o salão, e ela abriu a boca num suspiro involuntário.
A resposta pareceu quebrar a última parte do controle dele. Os dedos em suas costas se fecharam, ajustando-a contra seu corpo, enquanto a mão que segurava a dela subiu até o antebraço. Olívia sentiu a barba curta roçar sua pele, áspera o suficiente para aumentar a sensibilidade ao redor da boca. O contraste com a lentidão dos lábios dele fez um arrepio percorrer suas costas.
Ela soltou a mão de Dante e apoiou os dedos em seu peito. Sob a camisa e o colete, encontrou músculos firmes e a respiração mais forte que ele já não conseguia esconder. Em vez de afastá-lo, seus dedos agarraram discretamente o tecido.
Por alguns segundos, não houve contrato, traição ou plateia. Havia apenas a boca de Dante e o braço que a mantinha junto dele.
Foi ele quem interrompeu o beijo. Dante permaneceu próximo, a testa quase tocando a dela. A respiração quente alcançava os lábios de Olívia, e a mão em suas costas demorou a afrouxar.
Quando abriu os olhos, ela encontrou uma expressão que ainda não vira nele. A segurança havia desaparecido. Dante olhava para sua boca como se também não soubesse exatamente por que havia parado. Os aplausos e os flashes retornaram de uma vez.
— Convincente o bastante? — Olívia perguntou, tentando recuperar o fôlego.
Dante passou a língua discretamente pelo próprio lábio antes de responder.
— Para eles, sim.
A voz rouca contrariava a aparente indiferença da frase. Olívia percebeu que ele precisava se afastar antes de voltar a encará-la, e isso provocou uma satisfação perigosa.
Dante lhe ofereceu o braço. Os dois caminharam até a saída enquanto os convidados ainda comentavam o beijo. Henrique os interceptou antes que chegassem à porta.
— Isso não termina aqui.
— Para nós, terminou há oito meses — respondeu Olívia. — Eu apenas fui a última a descobrir.
Bianca se levantou.
— Você acha que um casamento feito em algumas horas garantirá a presidência? Qualquer pessoa percebe que isso é uma fraude.
Álvaro se aproximou com a certidão provisória.
— O casamento é legal.
— Legal não significa verdadeiro. Se eles não vivem juntos e não conseguem sustentar essa história por uma semana, eu vou provar que tudo foi uma manobra.
A ameaça não era vazia. Bianca conhecia membros suficientes do conselho para iniciar uma disputa e arrastar o nome da empresa para os jornais. Quando ficaram longe dos convidados, Álvaro abriu o contrato.
— Os seis meses previstos seriam mais seguros. Durante esse período, vocês deverão manter o mesmo endereço e comparecer juntos aos principais compromissos públicos.
— O mesmo endereço? — repetiu Olívia.
— Um casamento sem convivência será o primeiro argumento de Bianca.
Ela olhou para Dante. A boca ainda formigava, e a lembrança do corpo dele contra o seu transformava a ideia de dividirem uma casa em algo muito diferente do que parecera durante a negociação.
— Há quartos separados — lembrou.
— Foi o que assinamos — respondeu Dante.
A voz havia recuperado a firmeza, mas ele evitou olhar diretamente para a boca dela.
— E regras.
— Muitas.
Álvaro recebeu de uma funcionária a chave da suíte nupcial.
— A imprensa continua na entrada. Sair separados agora levantaria dúvidas.
Olívia segurou a chave. No contrato, quartos separados pareciam uma garantia simples. Diante de Dante, depois daquele beijo, a regra parecia existir porque ambos precisariam dela.
Ele caminhou ao seu lado até a suíte. Quando Olívia abriu a porta, a saia do vestido se prendeu discretamente na madeira. Dante se abaixou e libertou o tecido, mas, ao se levantar, seus dedos roçaram a pele nua de suas costas. Olívia entrou depressa. Dante fechou a porta e baixou os olhos para as mãos dos dois.
— A imprensa ficou do lado de fora.
Só então ela percebeu que, em algum momento do caminho, voltara a entrelaçar os dedos aos dele.
Olívia soltou sua mão.
— Força do hábito.
Dante permaneceu diante da porta fechada, alto demais, próximo demais e ainda com a boca ligeiramente avermelhada pelo beijo.
— Nós nos conhecemos há quatro horas.
Ela não encontrou uma resposta. O problema era que quatro horas já haviam sido suficientes para tornar o primeiro limite do contrato necessário.







